quinta-feira, 23 de março de 2017

Há formigas a cuidar da borboleta mais rara do país

O movimento dos carvalhos segue de longe as nuvens escuras que atravessam a paisagem verde da serra do Alvão. Entre os gigantescosblocos de pedra, respira-se esta calma nos riachos que correm, na rã que salta, nas vacas que caminham calmamente por cima do alcatrão seco, prontas a entrar nos terrenos onde se alimentam.

A lagarta da Maculinea alcon transportada pela formiga
(Paulo Ricca)

Entramos também num destes terrenos, o lameiro da dona Libânia, a poucos quilómetros da aldeia de Lamas de Olo, a 20 minutos de carro de Vila Real. O Outono não revela o que se passa debaixo dos nossos pés. Mas a professora Paula Seixas Arnaldo conhece estes 3,2 hectares de uma ponta a outra e sabe que no solo está a acontecer algo único. Formigas atarefadas estão a alimentar lagartas cor-de-rosa que vão dar... borboletas.

Ninguém sabe onde estão os ninhos das formigas, que estão sempre a começar novas casas. Por isso, a professora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e a estudante de mestrado Maria da Conceição Rodrigues levam consigo material para as procurar. Botas de borracha, espetos de metal para cavar a terra, um copo de plástico com rosca para guardar formigas, ovos e lagartas de borboletas.

"Horas. Passamos horas à procura de ninhos de formigas e ao fim do dia não encontramos nada", diz Paula Seixas Arnaldo, enquanto arranca mais um pedaço de terra à procura da Myrmica aloba, a espécie de formiga que em Portugal é a hospedeira da Maculinea alcon, a borboleta mais ameaçada do país.

História a três

Estar debruçado sobre a terra à procura de formigueiros é uma actividade que faz parte dos últimos anos de investigação da cientista. Desde 2006 que o lameiro é estudado por Paula Seixas Arnaldo. Este é um dos melhores locais da Europa para seguir o estranho ciclo de vida da borboleta-azul-das-turfeiras. Uma das causas é a presença frequente da Gentiana pneumonanthe, ou genciana-das-turfeiras, uma planta rasteira de flor azul arroxeada.

"A borboleta só põe os ovos nesta flor, em Julho. Os ovos eclodem uma semana depois, nascem as lagartas que se alimentam das sementes durante 30 dias", explica a investigadora enquanto Maria da Conceição Rodrigues continua a arrancar mais vegetação em busca da Myrmica aloba, queixando-se da falta de um canivete, o que facilitaria o seu trabalho.

"Quando estão no terceiro estádio as lagartas atiram-se para o chão. As formigas que se encontram a menos de dois metros detectam a presença da lagarta, vão lá buscá-la e transportam-na para dentro do formigueiro", continua a cientista.

As formigas são literalmente enganadas. As lagartas da Maculinea alcon exalam feromonas que fazem as formigas acreditarem que as lagartas são larvas de formiga e que precisam de ser levadas para o ninho. "No formigueiro as formigas oferecem-lhes substâncias açucaradas. Quando há pouco alimento a lagarta pode chegar a comer outras larvas de formigas, mas é raro", diz a especialista. A lagarta dá protecção pelo tamanho e também produz substâncias para as formigas, mas a troca não é equilibrada."Há cinco espécies do género da Maculinea na Europa. Esta não é predadora, mas quando não tem alimento..."

Durante nove meses a lagarta de borboleta vai crescendo no formigueiro, e nos primeiros dias de Julho a crisálida faz a metamorfose e a borboleta "nasce" da terra. A corrida até à superfície tem que ser rápida porque a borboleta perde a capacidade de enganar as formigas e estas podem atacar o insecto. "Este ano vimos a primeira Maculinea alcon a 6 de Julho", relembra.

As investigadoras passaram Julho e Agosto a contar borboletas, para saber o estado da população. Utilizam o método de contagem e recontagem: capturam uma borboleta, escrevem o número por baixo da asa e todos os dias voltam à caça, acabando por recapturar o mesmo lepidóptero. Isso permite tirar conclusões quanto ao número de indivíduos, os dias que vivem ou a distância que são capazes de voar.

Entretanto Maria da Conceição tem um sucesso parcial e descobre um formigueiro de Myrmica ruginodis. Uma espécie irmã que também existe ali, mais vermelha e agressiva que a Myrmica aloba.

No formigueiro, caiu um cataclismo humano e as formigas entram num movimento frenético, os ovinhos brancos que vão ser futuras formigas são alvo imediato de protecção. Lagartas cor-de-rosa de menos de um milímetro, nada.

Em Espanha a Myrmica ruginodis cuida das borboletas, aqui nunca foi visto tal coisa. Porquê? "Boa pergunta, temos estudos genéticos a decorrer, poderão ser populações periféricas que já sofreram alterações genéticas", diz-nos Paula Seixas Arnaldo, referindo-se à borboleta.

Hoje, a Maculinea existe em 13 pontos em Portugal, nove na região do Alvão, numa área com menos de um quilómetro quadrado. São as populações da espécie que estão mais a sudoeste em toda a Europa, fragmentadas e isoladas não se sabe há quanto tempo. Por serem dependentes da flor e da formiga para viver, são vulneráveis a qualquer intervenção no habitat.

O melhor conhecedor da situação da borboleta em Portugal é Ernestino Maravalhas, que identificou a população deste lameiro em Agosto de 1999. O especialista em lepidópteros trabalha no Porto em seguros, mas percorre o país a estudar a natureza. Estuda e sonha com borboletas, libélulas e outras criaturas. O espírito com que se entrega às coisas é o mesmo com que chega ao pé de nós a pedir desculpas pelo atraso - enérgico e entusiasta.

De batatal a lameiro

"A primeira vez que vi a Maculinea alcon foi em Agosto de 1983, em Boticas [perto de Chaves]", diz o especialista. Depois, só voltou a encontrar a espécie no Alvão, 16 anos mais tarde. Durante muito tempo, Maravalhas foi à caça das várias populações de Gentiana pneumonanthe que existem no Norte e no Centro de Portugal, procurando mais borboletas desta espécie.

Aqui, as populações estão saudáveis porque há pouca intervenção e o sistema de lameiro com o pastoreio feito pelas vacas continua, o que é importante para manter controladas as plantas que competem com a genciana. "As vacas são importantes para assegurar o sistema", explica Paula Seixas Arnaldo. Só durante os meses em que a borboleta está activa é que é preferível não haver visitas dos bovinos.

Mesmo assim, nada está assegurado, como é um caso de um lameiro fora do Parque Natural do Alvão, que de um momento para o outro, passou a ser um batatal. "Foi há três anos, era um dos locais que pensávamos que não estivessem ameaçados. Quando chegámos lá parecia que não estávamos no mesmo sítio", explica Maravalhas. "Passaram o bulldozer por cima. Tinha umas belas batatas. Como se não existissem mais locais para plantar batatas..."

É por isso que o especialista acredita que a forma de assegurar a manutenção deste lameiro é a aquisição do terreno, que se manteria com o pastoreio tradicional.

Desde a primeira contagem das borboletas, em 2002, o efectivo cresceu de 500 para seis mil, um número pequeno comparado com a borboleta-da-couve, uma das mais comuns, que atinge dezenas de milhões de indivíduos. Paula Seixas Arnaldo defende que o pastoreio, as queimadas feitas no final do Outono e a visita anual de um grupo de ingleses de uma associação ambientalista, que limpa este terreno em regime de voluntariado, têm mantido a turfeira saudável e feito aumentar o número de borboletas, que não voam mais do que cerca de 150 metros e, por isso, têm uma capacidade de dispersão pequena.

Há um projecto inserido no plano de biodiversidade da Câmara de Vila Real para transformar o lameiro num observatório de borboletas e construir um centro científico em Lamas de Olo com informação sobre este sistema. "É só um quilómetro quadrado que nós gostávamos de proteger, um grão de areia em relação à área de Portugal", diz Maravalhas.

De repente, Paula Seixas Arnaldo, que se tinha afastado para enfiar a estaca na terra e tentar a sorte mais uma vez, chama-nos: "Mirmicas!" Corremos para lá, algumas formigas denunciam que um ninho está perto. A investigadora retira mais um pedaço de terra e zás. Muitas formigas, movimento, ovinhos brancos. Pelo meio, outras estruturas diferentes, em menor número, com lagartas rosa-escuro. "Lagartas de Maculinea!" Um espanto. Pequeninas. Vão crescer mais alguns milímetros até Julho.

Por agora é cedo. As formigas estão preocupadas com a "suas larvas". Agarram as lagartas e começam a carregá-las para dentro da terra. Para os meses silenciosos do Alvão, de descanso e crescimento.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Cafeína poderá prevenir cancro de pele causado pelo Sol

Um dos mecanismos que faz com que a cafeína previna o cancro foi comprovado em ratinhos submetidos a raios ultra-violeta que demoraram mais tempo a desenvolver cancro da pele. O estudo foi publicado nesta segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Há muitos estudos que sugerem que beber café pode prevenir certos tipos de cancro. Esses resultados, muitas vezes dependem de mais de seis cafés por dia.

Sabe-se que um dos outros efeitos da molécula que faz do café uma bebida estimulante, é a inibição de uma proteína chamada ATR que controla o ciclo celular. A ATR pára a divisão celular quando encontra danos no ADN de uma célula. Se esta enzima for inibida, uma célula com danos no ADN continua a dividir-se e no final acabará por morrer. Desta forma não há oportunidade da célula se tornar cancerosa.

Uma equipa de cientistas dos Estados Unidos, testaram esta teoria no caso do cancro da pele originado pela exposição aos raios ultra-violeta (UV) que se apanham, por exemplo, durante a exposição ao Sol.

Em vez de utilizarem a cafeína, alteraram directamente o funcionamento da ATR, utilizando ratinhos transgénicos, para que a função da proteína nas células da pele ficasse comprometida.

Depois, submeteram uma população de ratinhos normal e outra transgénica a raios UV durante 40 semanas. O aparecimento de tumores aconteceu três semanas mais tarde nos ratinhos transgénicos do que na população normal. E depois de 19 semanas do início da experiência, havia menos 69 por cento de tumores em ratinhos com a ATR comprometida.

“Tudo isto sugere a possibilidade de que a cafeína terá um efeito inibitório no cancro de pele induzido pelo sol”, disse citado pelo Guardian Allan Conney, um dos investigadores do estudo, da Universidade Rutgers, New Jersey. Apesar do efeito protector, na experiência todos os ratinhos acabaram por desenvolver cancro da pele devido ao período de tempo prolongado que foram submetidos aos raios UV.

Os cientistas querem agora perceber se a aplicação de cafeína na pele poderá ter efeitos semelhantes.

terça-feira, 21 de março de 2017

Bióloga descobre espécie de insecto com milhões de anos em gruta algarvia

Existe há milhões de anos numa gruta algarvia mas só agora foi encontrado por uma bióloga portuguesa. O Litocampa mendesi, animal com três milímetros e sem olhos ou asas, será mais primitivo do que os insectos que hoje conhecemos. Mas as novidades do frágil mundo vivo cavernícola só agora estão a começar.

Sofia Reboleira, do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, tem estado atarefada a estudar as amostras que trouxe para a superfície, fruto de doze meses de trabalho de campo em 2009, a dezenas de metros de profundidade nas grutas portuguesas.

A 22 de Dezembro, a revista "Zootaxa" publicava a descoberta do Litocampa mendesi. “Procurámos a fauna das grutas através da observação do interior das cavidades e com a ajuda de armadilhas de queda colocadas no chão”, explicou hoje ao PÚBLICO a bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Nas armadilhas foram colocados iscos odoríferos para atrair os insectos. “Este tipo de armadilhas também ajuda a medir a actividade dos animais, porque os que mais andam são os que mais caem” nas armadilhas.

Mas este é um trabalho exigente. “São animais muito raros que apenas vivem em zonas difíceis de estudar”, disse Sofia Reboleira, também espeleóloga. Investigar a espécie em laboratório está fora de questão. “É impossível manter estes insectos em cativeiro. É muito difícil. Eu nunca vi [o Litocampa mendesi] vivo”, referiu.

A investigadora, que estuda a fauna cavernícola do país, está em condições para dizer que este insecto desenvolveu, ao longo de milhões de anos, impressionantes estratégias de poupança energética para conseguir sobreviver na escuridão das grutas, como a ausência de olhos e asas e a grande resistência ao jejum. Estima-se que este será um animal “mais primitivo do que os insectos” actuais.

A fragilidade das espécies cavernícolas

Sofia Reboleira estuda os animais que não vivem em mais nenhum local que não nas grutas, até aos 220 metros de profundidade, sob a orientação de Fernando Gonçalves (do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro) e Pedro Oromí (da Faculdade de Biologia da Universidade de La Laguna, em Tenerife, Espanha). Até agora anunciou cinco novas espécies. Em Maio foi anunciada a descoberta de duas novas espécies de escaravelhos nas grutas das serras de Aire e Candeeiros e no início de Dezembro outra espécie de escaravelho em Montejunto e um pseudoescorpião nos maciços calcários do Algarve. Agora foi a vez do Litocampa mendesi, numa gruta algarvia a 30 metros de profundidade.

A maioria dos invertebrados que constituem a fauna cavernícola são artrópodes, como as aranhas e insectos. Apesar de viverem em ambientes até agora pouco estudados, estas espécies merecem atenção. "As espécies cavernícolas não conseguem sobreviver em mais nenhum local, logo têm a sua distribuição geográfica muito reduzida. Qualquer perturbação pode pôr em causa a sua sobrevivência", sublinhou Sofia Reboleira. A investigadora lembrou, nomeadamente, a poluição por pesticidas e insecticidas que se podem infiltrar nas grutas e a perturbação ou mesmo destruição daqueles locais por actividades humanas.

Além disso, estas populações nunca são de grande dimensão. "Não tendo luz, as grutas onde vivem estes animais não têm plantas e as fontes de alimento são muito escassas. Por isso, as populações não podem ser muito grandes. Na verdade, estes são exemplares raríssimos".

Sofia Reboleira acredita que 2011 poderá trazer mais surpresas. “Ainda estamos a estudar a fauna encontrada no ano da amostragem, em 2009”, salientou.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Safari na praia


Com a abertura da época balnear, todos os caminhos vão dar ao litoral. Todavia, uma ida à praia pode ter outros motivos de interesse para além dos banhos de mar e de sol. O biólogo Jorge Nunes convida-nos a descobrir a bicharada da zona entre marés e a passar um dia diferente.

A palavra "safari" remete-nos de imediato para as ambiências de África e para a observação dos grandes mamíferos que aí habitam. No entanto, o convite não é para viajar até lugares exóticos, mas para olhar de forma diferente a "sua" praia, aquela que julga conhecer como a palma da sua mão. A aventura não oferece a adrenalina de uma expedição na savana africana, mas será com toda a certeza uma forma interessante de combater o tédio das longas horas de praia e permitirá jornadas inesquecíveis de observação da vida selvagem.

Sem nos darmos conta, partilhamos as praias portuguesas com um sem-número de organismos curiosos. Mesmo durante a agitação das épocas balneares, quando os areais se enchem de veraneantes, muitos dos animais que aí habitam prosseguem as suas actividades diárias quase indiferentes à presença humana. Outros, mais espantadiços, tentam manter-se afastados dos olhares indiscretos, como acontece, por exemplo, com as aves marinhas que visitam os areais essencialmente ao amanhecer e ao entardecer.

As pequenas dimensões e os comportamentos recatados fazem que muitos desses seres vivos sejam ignorados pelas pessoas que coabitam com eles durante o Verão. No entanto, basta um pequeno passeio pela praia, um olhar atento e alguma perseverança para começar a descortiná-los. Caracterizam-se pela multiplicidade de cores e a diversidade de formas, que indiciam fisiologias invulgares e adaptações especiais que lhes permitem sobreviver na zona de fronteira entre o mar e a terra. Embora pareçam insignificantes, alguns organismos que habitam a zona das marés são criaturas singulares, pois vivem num ambiente extremamente hostil, que fica parte do dia submerso e outra parte emerso ao ritmo das marés. São verdadeiros sobreviventes que vivem fustigados pela força das ondas, pelas variações bruscas da salinidade e da temperatura e pelo risco eminente de desidratação.

Mesmo os leigos em ecologia marinha ficam espantados com a diversidade de organismos que é possível encontrar numa singela poça de água deixada a descoberto durante a baixa-mar. Apesar da sua aparente simplicidade, estes seres vivos, quais liliputianos, são um desafio à nossa curiosidade. O seu pequeno mundo imita na perfeição os grandes ecossistemas da Terra, sendo possível encontrar as relações entre os vários seres vivos e destes com o meio ambiente, tal como numa enorme floresta ou num extenso oceano.

Os adultos mais reticentes em renunciar à preguiça da toalha e do guarda-sol para partir à descoberta do outro lado da praia rapidamente serão contagiados pelo entusiasmo e deslumbramento das crianças, que rejubilam com cada novo bicho avistado e fotografado. Dado que a água do mar é altamente corrosiva para os equipamentos electrónicos, basta ter à mão um telemóvel com câmara fotográfica para fazer o registo fotográfico da bicharada. Ao fim de algum tempo, já é possível começar a compor um álbum fotográfico da fauna e flora da costa que lhe permitirá partilhar com os amigos as suas inauditas aventuras na praia.

A diversidade faunística que pode ser observada numa ida à praia justifica que se leve na mochila, junto com as revistas, os livros de bolso ou os jornais, um guia de campo que possa auxiliar na identificação dos seres vivos que venham a ser encontrados. As deslumbrantes fotografias de qualquer "Guia de Campo do Litoral" não deixarão ninguém indiferente e serão certamente um motivo acrescido para despertar a curiosidade de miúdos e graúdos pela vida à beira-mar, e servirão de mote para aventuras palpitantes pelos areais. Afinal, um passeio pela praia pode ser tão educativo como uma aula de ciências naturais.

O tipo de praia que se visita determina a variedade de organismos que poderão ser descobertos, dado que as praias rochosas e arenosas, devido às suas distintas características edafoclimáticas, revelam uma fauna e uma flora bastante distintas. Em geral, as praias rochosas, embora sejam varridas pelo perpétuo movimento das ondas e fustigadas pelas tempestuosas brisas marítimas, oferecem uma superfície dura que facilita a fixação de algas, plantas e animais, possibilitando uma biodiversidade elevada, que encontra refúgio seguro nas múltiplas saliências, fendas, fissuras e grutas oferecidas pelas rochas.

Já as praias de areia, como constituem substratos instáveis (sujeitos às permanentes alterações provocadas pelo movimento da água do mar e pela força do vento), acolhem uma flora e uma fauna aquáticas relativamente mais pobres: vermes poliquetas, pequenos crustáceos e alguns bivalves a que se juntam, esporadicamente, insectos, aves e mamíferos vindos da zona terrestre.

Embora a variedade de seres vivos aquáticos seja menor nas praias arenosas, não faltam motivos de interesse para o naturalista amador. São os locais ideais para procurar conchas trazidas pela ondulação e para investigar os tufos de algas (arrancados nos substratos rochosos e arrastados pelas correntes), que servem de abrigo a pequenos burriés, aos casa-alugada (minúsculos caranguejos que se refugiam no interior de pequenos búzios) e às curiosas pulgas-do-mar. Os despojos trazidos pelo mar (sejam de origem natural ou de proveniência humana) podem esconder ainda outras surpresas, como ovos e conchas de chocos, cápsulas dos ovos de pata-roxa (tubarão costeiro que vive essencialmente sobre fundos de areia) ou de raia, conchas de bivalves e caracóis, pinças e carapaças de crustáceos, ouriços-do-mar, peixes mortos e até, em situações particulares, cadáveres de tartarugas e mamíferos marinhos.

Em muitas praias arenosas, é comum encontrar afloramentos rochosos, quer salpicando os areais, quer constituindo arribas e falésias que delimitam as mantas de areia. Esses locais constituem habitualmente verdadeiras ilhas de diversidade fauno-florística, devendo ser os principais refúgios a explorar.

Quem chegar cedo à praia ou puder ficar por lá até ao entardecer tem boas hipóteses de observar ainda diversas aves aquáticas (gaivotas, pilritos, borrelhos, ostraceiros e garças) que aproveitam esses períodos de acalmia para de alimentarem à beira-mar. Nas praias que se localizam nas imediações de estuários ou zonas húmidas, como lagoas costeiras ou desembocaduras de pequenos rios ou ribeiros, a observação pode realizar-se ao longo de todo o dia.

As praias rochosas, nomeadamente as mais abrigadas, merecem destaque por ostentarem uma elevada diversidade de espécies, num espaço relativamente limitado. São bastante comuns os caranguejos, as estrelas, os ouriços, os camarões e vários moluscos (mexilhões, lapas, burriés, caramujos, etc.). Durante a baixa-mar, os moluscos refugiam-se nas suas conchas, que fecham hermeticamente (como os mexilhões) ou fazem aderir às rochas (como as lapas), retendo a água essencial ao funcionamento das suas brânquias. Quanto aos crustáceos, como os caranguejos e as sapateiras, protegem-se nas fendas húmidas das rochas, que partilham geralmente com pequenos polvos. Já os peixes, os camarões, as anémonas, as estrelas e os ouriços, devido à sua fragilidade e à grande dependência hídrica, escolhem as poças de água, onde mantêm a sua actividade habitual. Apesar das difíceis condições de vida nas praias rochosas, devido ao rebentamento constante das ondas, quase todas as rochas estão usualmente cobertas por uma miríade de organismos.

Tal como acontece com um prédio dividido em andares, onde vivem as diversas famílias, também o litoral rochoso se apresenta organizado em zonas ou andares. Existem assim conjuntos de organismos característicos que correspondem a determinadas condições ecológicas, sensivelmente constantes em função da distância ao nível do mar, e que permitem definir o espaço correspondente a cada zona. O litoral pode assim ser dividido em quatro andares diferentes: o supralitoral, o mediolitoral, o infralitoral e o circalitoral.

O andar supralitoral está apenas sujeito aos salpicos das ondas, sendo uma zona que raramente é coberta pela água, excepto nas marés vivas (mas sempre por pouco tempo). Esta zona é caracterizada pela existência de um pequeno caracol da espécie Melaraphe neritoides, que se encontra em grandes quantidades principalmente nas fissuras das rochas. Também é comum encontrar-se um líquen negro (Verrucaria maura) com aspecto de alcatrão derramado na rocha. Em substrato arenoso, o povoamento marinho característico resume-se à ocorrência das vulgares pulgas-do-mar (Talitrus saltator).

O mediolitoral corresponde à zona entre marés (também designada por "zona intertidal" ou "eulitoral"), sendo descoberta e coberta pelo mar duas vezes por dia. Aqui, a distribuição dos organismos faz-se em função do hidrodinamismo, ou seja, é influenciada pelo constante movimento da água e dos seus efeitos (intercalando períodos de imersão e de emersão). Trata-se de ecossistemas muito ricos, com uma fauna e flora extremamente diversificadas. São comuns os densos povoamentos de mexilhões, algas calcárias e castanhas (como a bodelha), lapas e crustáceos cirrípides (como cracas e balanos).

É nesta zona que abundam as poças de água que se formam com a descida da maré, geralmente forradas por algas calcárias e ouriços-do-mar. Dado que estão permanentemente repletas de água, constituem enclaves do infralitoral, pelo facto de as condições ambientais serem semelhantes às desse andar. As poças de maré, como também são conhecidas, constituem verdadeiros paraísos visuais, onde as algas, as lapas, os mexilhões, as anémonas, os ouriços, as estrelas, os camarões e vários pequenos peixes fazem as delícias dos mais curiosos.

O infralitoral vai desde o limite inferior da baixa-mar até cerca de 24 metros de profundidade (o que em Portugal corresponde grosso modo à máxima profundidade até onde podem encontrar-se as algas fotófilas, isto é, as que necessitam de luz), sendo por isso acessível somente aos mergulhadores. Trata-se de uma zona geralmente forrada por várias espécies de algas e com uma enorme diversidade de animais marinhos (peixes, anémonas, camarões, estrelas, polvos, esponjas, entre muitos outros) que só estão ao alcance dos olhos dos praticantes de mergulho em apneia (mergulho superficial com máscara aquática ou a pequena profundidade sustendo a respiração) ou com escafandro autónomo (pode saber mais sobre a modalidade em http//www.fpas.pt ou em http://www.cpas.pt). Vale a pena colocar a máscara, o tubo respirador e as barbatanas para espreitar esse admirável mundo novo.

Conhecer para proteger

Uma ida à praia poderá ser uma oportunidade sublime para sensibilizar os mais novos para a riqueza do património natural do litoral e para lhes mostrar ainda como preservar a natureza. Regras básicas de cidadania ambiental (não apanhar plantas ou animais, não colocar organismos aquáticos em baldes ou sacos de plástico para além do tempo necessário para a sua observação, não levar para casa os seres vivos, dado que morrerão rapidamente fora dos seus habitats naturais, não deitar lixo para o chão) serão comportamentos facilmente apreendidos pelas crianças e jovens, especialmente se o exemplo lhes for dado pelos adultos. É importante ensinar-lhes que na praia devem deixar apenas as suas pegadas e que no regresso a casa só precisam de levar as fotografias para mais tarde recordar.

Embora o litoral seja um mundo único e fascinante, onde habitam seres muito curiosos e complexos, também é um lugar cheio de problemas. A sua destruição tem geralmente causas humanas tão diversificadas como a poluição, a construção civil e a urbanização desregrada, a pesca profissional e desportiva, a extracção de areia, a destruição das dunas e o turismo massificado, entre outras.

Convém não esquecer que as praias estão sujeitas à acção destrutiva dos visitantes, umas vezes em resultado de comportamentos descuidados, outras como consequência da delapidação intencional dos recursos. A principal causa é a procura e apanha de organismos marinhos, como minhocas para isco dos pescadores, perceves, mexilhões, burriés, lapas, ouriços, navalheiras, polvos, etc. À actividade regular dos apanhadores profissionais e desportivos junta-se, durante a época balnear, a acção dos veraneantes e turistas, que muitas vezes recolhem organismos cujo tamanho é muito inferior às dimensões adequadas para apanha e consumo ou pura e simplesmente destroem-nos com o seu pisoteio imprevidente.

Algumas espécies que habitam a beira-mar são raras e podem necessitar de vários anos para atingir o estado adulto, razões que as tornam particularmente vulneráveis a uma recolha exagerada ou a uma destruição descuidada. Por estranho que pareça, muitos seres vivos são pura e simplesmente esmagados pelas pessoas. Os casos mais comuns são o pisoteio dos bancos de mexilhões e da barroeira (ou brueira, como é conhecida em várias regiões da costa portuguesa).

Os "recifes" de barroeira apresentam uma grande beleza devido às suas curiosas formas, que imitam colunas, barreiras e cogumelos. São frágeis estruturas arenosas edificadas por colónias de anelídeos poliquetas da espécie Sabellaria alveolata, que constroem pequenos casulos semelhantes a favos de mel onde se abrigam. As suas inúmeras fendas e galerias oferecem protecção para várias espécies animais, especialmente durante a fase larvar e juvenil, constituindo locais de maternidade e verdadeiros refúgios de biodiversidade marinha. O pisoteio dos veraneantes curiosos que se sentem atraídos pela sua beleza e a cobiça dos pescadores desportivos à cata de isco tornam estas delicadas construções alvos de destruição maciça, em especial durante o Verão.

A exploração do litoral deve fazer-se sempre tendo em conta a menor perturbação dos ecossistemas intertidais e dos organismos que aí habitam. O simples facto de virar as pedras e de não as colocar no mesmo local e na mesma posição poderá originar grandes desequilíbrios nos mundos em miniatura, como são, por exemplo, as poças de maré. Para observar, identificar ou fotografar os organismos não será sequer necessário removê-los do local onde vivem. No entanto, se tal se justificar, o manuseamento dos animais deve ser feito de forma rápida, evitando tocar-lhes com as mãos secas e mantendo-os durante pouco tempo fora de água ou expostos ao sol.

Em circunstância alguma se justifica colocar em risco a vida ou o bem-estar da bicharada. Por isso mesmo, deve evitar-se o uso de instrumentos cortantes e afiados (que são igualmente perigosos para as crianças!) e puxar ou arrancar animais que se agarram firmemente às rochas, como as anémonas e as estrelas-do-mar (infelizmente, muitas pessoas têm o péssimo hábito de secá-las ao sol e levá-las para casa como lembrança). Embora a palavra "safari" também seja sinónimo de "caçada de animais selvagens", não foi essa a intenção do seu uso neste texto. Afinal, nenhuma fotografia ou recordação que leve da praia será mais valiosa do que a vida dos maravilhosos organismos que aí, todos os dias, lutam pela sua sobrevivência.

J.N.

SUPER 148 - Agosto 2010

domingo, 19 de março de 2017

Descobertas duas espécies de invertebrados no Algarve e em Montejunto

Duas novas espécies cavernícolas, um pseudoescorpião e um escaravelho, foram descobertas para a ciência em grutas do Algarve e do Montejunto pela bióloga e espeleóloga portuguesa Sofia Reboleira. O pseudoescorpiao foi encontrado em cavidades nas grutas algarvias.

O pseudoescorpião – apenas semelhante ao escorpião no exterior – Titanobochica magna representa a descoberta de uma nova espécie e de um novo género, explicou a investigadora. O escaravelho Trechus tatai é uma nova espécie, juntando-se às três espécies de escaravelhos cavernícolas já conhecidas em Portugal Continental, no maciço calcário das Serras de Aire e Candeeiros, todas endémicas. Duas delas foram oficialmente descobertas no ano passado, no âmbito do Mestrado da investigadora.

A descoberta do pseudoescorpião, depois de um ano de trabalho de campo, "foi uma enorme surpresa", contou Sofia Reboleira, do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro. "Quando vamos para o campo estamos à espera de encontrar alguma coisa nova, mas quando realmente a encontramos, é sempre uma grande surpresa".

A espécie, que só foi encontrada em quatro cavidades dos maciços calcários do Algarve - da zona de Portimão à de Olhão -, pode ser considerado um “gigante”, com os seus cerca de dois centímetros, dado que o tamanho destes animais oscila, normalmente, entre um e cinco milímetros. "Esta espécie não tem parentes à superfície, todos se extinguiram com as glaciações, alterações climáticas ou perturbações das placas tectónicas", explicou. "São verdadeiras relíquias" que só conseguiram sobreviver graças ao ambiente muito estável das grutas, nomeadamente às temperaturas constantes ao longo do ano.

Além do pseudoescorpião, Sofia Reboleira descobriu ainda uma nova espécie de escaravelho cavernícola, Trechus tatai, numa cavidade de Montejunto. “É despigmentado e tem os olhos muito reduzidos” descreveu.

Apesar de viverem em ambientes até agora pouco estudados, estas espécies merecem atenção. "As espécies cavernícolas não conseguem sobreviver em mais nenhum local, logo têm a sua distribuição geográfica muito reduzida. Qualquer perturbação pode pôr em causa a sua sobrevivência", sublinhou Sofia Reboleira. A investigadora lembrou, nomeadamente, a poluição por pesticidas e insecticidas que se podem infiltrar nas grutas e a perturbação ou mesmo destruição daqueles locais por actividades humanas.

Além disso, estas populações nunca são de grande dimensão. "Não tendo luz, as grutas onde vivem estes animais não têm plantas e as fontes de alimento são muito escassas. Por isso, as populações não podem ser muito grandes. Na verdade, estes são exemplares raríssimos".

Ainda assim, Sofia Reboleira acredita que a dimensão das populações destes insectos ainda não é conhecida na sua totalidade. "As grutas são apenas uma janela para observarmos a fauna, à qual temos acesso. Depois há uma rede de fissuras, por onde os animais passam, à qual não podemos chegar."

A descoberta das duas espécies, publicadas há duas semanas e na sexta-feira passada em revistas científicas especializadas em Zoologia, ocorreu durante o trabalho de campo no âmbito do doutoramento de Sofia Reboleira, orientado por Fernando Gonçalves (do departamento de biologia da Universidade de Aveiro) e Pedro Oromí (faculdade de biologia da Universidade de La Laguna, em Tenerife, Espanha).

O trabalho foi financiado pela Fundação Para a Ciência e Tecnologia da qual Sofia Reboleira é bolseira há dois anos e meio.

sábado, 18 de março de 2017

A descoberta rara de um elefante esquartejado na Grécia pré-histórica



Perto da cidade grega de Megapólis, escavações arqueológicas revelaram que os humanos comiam elefantes há 300.000 a 600.000 anos. Os resultados deste trabalho, de uma equipa do Ministério da Cultura da Grécia e da Universidade de Tübingen, na Alemanha, dão conta da descoberta de variados instrumentos de pedra usados pelos humanos daquela altura, juntamente com o esqueleto fossilizado de um elefante com sinais de esquartejamento.

Há 300.000 a 600.000 anos, o clima, a vegetação e a flora eram muito diferentes de hoje, permitindo inclusivamente a existência de elefantes na Europa. “No entanto, até agora os vestígios encontrados de elefantes desta época não estavam associados a actividades humanas”, conta  Eleni Panagopoulou, arqueóloga do Ministério da Cultura grego e coordenadora do estudo, publicado este ano na revista científica Antiquity. “Esta é a primeira descoberta de vestígios de corte e processamento de carne de elefante com artefactos de pedra nos Balcãs, e uma das poucas com esta idade em toda a Europa”, sublinha a investigadora.

Durante as escavações foram descobertos objectos de pedra talhada – feitos de radiolarito, sílex, calcário e quartzo – e ossos fossilizados de vários animais (bovídeos, cervídeos, roedores, aves, repteis, anfíbios, moluscos ou insectos), datados também com 300.000 a 600.000 anos. A descoberta mais surpreendente da escavação foram ossos dispersos e com sinais de corte, que correspondiam ao esqueleto completo de um elefante. Pertencia à espécie “Elephas antiquus”, que viveu na Europa, incluindo Portugal, e que se extinguiu há mais de 30 mil anos.

“As pessoas comiam elefantes. Eles eram muito valiosos para carne, gordura e até para fazer objectos em osso”, explica Eleni Panagopoulou. No entanto, não é claro como é que os elefantes eram obtidos para consumo humano. “A questão da caça de elefantes neste tempo está ainda em aberto. Ainda não sabemos se os elefantes seriam caçados, se seriam aproveitados elefantes encontrados mortos ou ambos.”

Tudo isto se passou muito antes do aparecimento do homem moderno, ou Homo sapiens sapiens, a nossa espécie. “Naquela altura, provavelmente naquela região vivia o Homo heidelbergensis”, explica a investigadora. Esta espécie de humanos foi identificada pela primeira vez em 1907 na região de Mauer, na Alemanha, e pensa-se que terá dado origem ao homem de Neandertal, extinto há cerca de 28.000 anos do seu último reduto na Europa, a Península Ibérica.

Designado Marathousa 1, o sítio arqueológico onde estava o esqueleto do elefante fica numa mina de carvão a céu aberto, tendo sido a própria exploração mineira a pôr à mostra os primeiros vestígios arqueológicos. Pensa-se que neste local existiu há milhares de anos um grande lago e um pântano com águas pouco profundas.

Marathousa 1 é o primeiro sítio de escavação na Grécia continental do Paleolítico Inferior (período iniciado há cerca de três milhões de anos, indo até há 250.000 anos). Apesar de a Grécia ter uma grande riqueza arqueológica, os estudos têm incidido fundamentalmente no período clássico e no final da pré-história, e são raras as investigações sobre a pré-história mais recuada. A equipa vai prosseguir a investigação no local. Os estudos nesta região são centrais para a compreensão da pré-história, refere um comunicado recente da Universidade de Tübingen, uma vez que se pensa que terá feito parte das rotas de migração dos primeiros humanos de África para a Europa e também um refúgio importante para as populações humanas, a fauna e a flora durante os períodos glaciares.

Texto editado por Teresa Firmino
Informação retirada daqui

sexta-feira, 17 de março de 2017

Fauna perigosa


Cuidado com as picadas e mordeduras

As férias levam-nos a um contacto mais próximo com a mãe-natureza, desde o frenesim balnear até às actividades mais radicais nas serranias, passando por uma sesta à sombra de uma árvore. O biólogo Jorge Nunes revela alguns dos riscos que podem resultar de encontros indesejáveis com a nossa fauna mais perigosa.

O Verão convida a passeios na natureza e o calor incita aos corpos desnudados, às t-shirts, aos tecidos finos e às sandálias. Como este é o período do ano em que a bicharada anda igualmente mais activa (numa roda-viva à cata de alimento, atarefada com a reprodução ou a alimentar e proteger a prole), tudo se conjuga para acontecerem alguns encontros indesejáveis. Os bichos nem sequer têm a intenção de nos incomodar: se puderem, evitam-nos a todo o custo e fogem a sete pés. Somos nós que, frequentemente, nos chegamos perto demais e os incomodamos ou ameaçamos com as nossas actividades de veraneio. E o mais curioso é que o perigo não vem dos grandes animais da nossa fauna. Alguns dos mais incómodos são até de reduzidas dimensões, uma vez que a perigosidade resulta principalmente dos seus arsenais químicos constituídos por substâncias venenosas (toxinas).

As mordeduras e picadas, muitas vezes, não passam de pequenos sustos e breves momentos de dor. Contudo, principalmente em pessoas alérgicas ou com saúde debilitada e ainda em crianças e idosos, podem ter consequências mais graves, como a reacção anafilática, uma reacção alérgica do organismo ao veneno que pode pôr em risco funções vitais como a respiração e a circulação sanguínea e por isso exige ajuda médica urgente. De igual modo, as ferroadas ou mordidelas infligidas por animais mais invulgares devem ser objecto de aconselhamento médico, pois cada pessoa apresenta reacções específicas às diferentes toxinas. Para quaisquer esclarecimentos sobre picadas e mordeduras de animais, telefone para o Centro de Informação Antivenenos (808 250 143 ou 112), entidade ligada ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), que se encontra disponível 24 horas por dia.

Riscos à beira-mar

No litoral português, não se encontram animais verdadeiramente perigosos. No entanto, as picadas dolorosas dos peixes-aranha, dos ouriços-do-mar, das alforrecas, dos rascassos, das moreias e das raias (os dois últimos só constituem uma verdadeira preocupação para os mergulhadores) podem exigir acompanhamento médico. Apesar de a orla marítima não apresentar grande perigo, convém verificar onde põe os pés, designadamente em poças de água das zonas rochosas (onde podem esconder-se ouriços-do-mar e rascassos). Evite tocar em massas gelatinosas que podem ser alforrecas ou partes dos seus tentáculos e, em zonas em que ocorram frequentemente picadas de peixes-aranha, utilize sandálias de plástico, uma vez que é impossível ver ou prever onde se escondem.

Os peixes-aranha e os rascassos possuem espinhos venenosos nas suas barbatanas dorsais, pelo que as suas picadas não resultam de qualquer ataque, mas de serem pisados inadvertidamente. Os peixes-aranha surgem principalmente em praias arenosas, em águas pouco profundas, enterrados na areia. Picam nos pés quando são pisados e, em casos muito excepcionais, no abdómen das crianças, quando estas se deitam na água para chapinhar em pequenas poças de água. Os rascassos, por seu lado, são habitantes característicos das zonas rochosas, surgindo dissimulados entre a vegetação que atapeta as rochas submersas e as poças de água na maré baixa. Para aliviar a dor provocada pela picada dos peixes-aranha, pode recorrer-se ao calor, colocando o membro afectado em água quente. É ainda recomendável o uso de analgésicos e de antissépticos.

Os crustáceos (caranguejos e afins) e os polvos podem também infligir mordeduras, principalmente quando se introduzem as mãos em buracos ou espaços por baixo das pedras. Já os ouriços-do-mar, completamente revestidos de espinhos, criam algumas situações muito desagradáveis. Normalmente, exigem longas horas de pinça na mão para retirar todos os espinhos que ficam cravados na pele (a aplicação local de vinagre dissolve os espinhos, o que poderá tornar este tratamento menos moroso).

Fortalezas revestidas de veneno

As alforrecas e as caravelas-portuguesas, apesar do seu aspecto singelo e gelatinoso, constituem autênticas fortalezas revestidas pelos nematocistos (aparelhos de injecção de veneno). Trata-se de colónias de animais, com forma semelhante a um guarda-chuva, ou seja, com uma umbrela que serve de flutuador e a partir da qual pendem tentáculos em número e comprimento variável, consoante a espécie. Mesmo depois de chegarem mortas à praia e, por vezes, despedaçadas, os fragmentos de tentáculos mantêm as suas capacidades urticantes e são tão perigosos quanto o indivíduo vivo, pois os nematocistos permanecem activos durante muito tempo após a morte.

O contacto com as alforrecas provoca dor intensa, edema local, cãibras musculares e queimaduras dolorosas, que deixam flictenas (vesículas com líquido que caracterizam as queimaduras de segundo grau) na pele humana. O toque nas alforrecas pode ser especialmente perigoso quando a vítima está a nadar num local sem pé, uma vez que a dor insuportável pode levar o nadador a entrar em pânico, provocando o seu afogamento.

Os danos provocados pelas vesículas saram em dois ou três dias. Porém, nos casos mais graves, é possível que permaneçam cicatrizes por mais de um ano. Os sintomas são a dor aguda e imediata e o prurido persistente, apresentando como lesões os eritemas e as queimaduras. O tratamento, que deve fazer-se com a maior brevidade possível, consiste na remoção imediata dos fragmentos de tentáculos que fiquem presos à pele, seguido da aplicação local de creme gordo e de analgésicos e anti-inflamatórios sistémicos.

Ameaças por via aérea

Do ar, chegam igualmente perigos inesperados, que são perpetrados pelos insectos voadores. Nos himenópteros (insectos que possuem dois pares de asas membranosas), merecem destaque a abelha e a vespa. Uma simples picada de um desses insectos, para além da dor que provoca, pode acarretar situações mais graves. Assim, as pessoas que possuem antecedentes alérgicos devem trazer sempre consigo os “primeiros socorros” prescritos pelo médico, uma vez que pode ser-se picado nos lugares mais inusitados.

A abelha possui um ferrão farpado, ligado a três glândulas de veneno, que fica preso à ferida após a picadela e, caso não seja retirado, continuará a injectar veneno. Como o pequeno insecto fica extirpado aquando da picada, acabará por morrer (só consegue utilizar o ferrão uma única vez). O veneno das abelhas é constituído por várias substâncias (apitoxina, histamina, serotonina, cininas, entre outras). A quantidade injectada por uma única abelha é demasiado pequena para colocar em risco a vida de um ser humano. No entanto, picadas múltiplas, resultantes de um enxame, poderão originar situações potencialmente mortais.

No caso de a vítima ser alérgica, uma única picada pode desencadear igualmente reacções sistémicas graves (como urticária generalizada, reacção asmática ou choque anafilático). Também as picadelas na boca ou nas vias respiratórias superiores constituem sempre motivo de enorme preocupação e de emergência médico-cirúrgica, devido ao facto de o edema local poder obstruir as vias respiratórias e provocar a morte por asfixia. Felizmente, no comum dos mortais, a picada da abelha origina apenas dor intensa e leva à formação de um pequeno inchaço branco rodeado por uma zona avermelhada (que poderá evoluir para um edema local), que se vai desvanecendo nos dias subsequentes.

O tratamento de uma picada de abelha deve começar sempre pela remoção do ferrão para evitar que continue a injectar veneno. Deve seguir-se a desinfecção com um antisséptico, o controlo da dor com aplicação local de gelo e de compressas humedecidas de bicarbonato ou amónia (ajudam a neutralizar o veneno, de características ácidas). Por último, como terapêutica, utilizam-se analgésicos e anti-histamínicos.

A vespa distingue-se com facilidade da abelha devido à sua cor amarelada e às manchas negras nos segmentos abdominais. Este insecto possui um ferrão sem farpelas, pelo que não fica preso à vítima, o que lhe permite infligir picadas múltiplas. O seu veneno também é diferente do da abelha e, devido ao facto de o ferrão não ficar na ferida, é geralmente inoculado em pequena quantidade. No entanto, não há bela sem senão. As vespas podem originar infecções com mais facilidade, uma vez que o ferrão transporta agentes infecciosos, em virtude de se alimentarem de cadáveres em decomposição.

A picada da vespa provoca dor intensa e origina edema e inflamação local que, se não forem tratados, podem persistir até 15 dias. O tratamento é similar ao da picada de abelha, com duas pequenas diferenças: não é necessário retirar o ferrão e, devido ao facto de o seu veneno ter características alcalinas, as compressas de bicarbonato devem ser substituídas por compressas embebidas em vinagre ou sumo de limão (substâncias ácidas).

Nos dípteros (insectos que possuem um par de asas membranosas), incluem-se as moscas, os mosquitos e as melgas, insectos que são também muito incomodativos. As suas picadas, especialmente em destinos exóticos e climas tropicais, podem ter grande importância médica, devido à transmissão de agentes infecciosos de que são vectores. Por cá, as picadas das moscas e de insectos afins provocam apenas dor, podendo em alguns casos levar a inflamação local com formação de inchaço avermelhado e prurido intenso.

O tratamento das picadelas de dípteros é relativamente simples, uma vez que as suas consequências são limitadas e evoluem geralmente de forma rápida e favorável. A aplicação local de gelo, a lavagem com água corrente e a aplicação de uma loção calmante permitem diminuir o sofrimento. O melhor método para evitar estas picadas consiste em utilizar cremes repelentes e fazer nebulizações das casas com insecticidas.

Perigos terrestres

Os passeios pedestres, como não podia deixar de ser, também escondem os seus perigos, que tanto podem vir de pequenas carraças e aranhas como de alguma cobra venenosa que seja perseguida ou importunada.

Apesar de quase todas as aranhas produzirem venenos neurotóxicos (que afectam o sistema nervoso) ou necrosantes (que matam as células), a esmagadora maioria das espécies europeias não possui quelíceras (agulhas de injecção de veneno) suficientemente robustas para perfurar a pele humana. Assim, as picadas de aranha são extremamente raras no nosso país, sendo a viúva-negra-europeia e a tarântula-europeia duas das poucas espécies que poderão incomodar o homem.

A viúva-negra-europeia tem cerca de um centímetro de comprimento, é escura, com algumas linhas brancas, e possui 13 manchas vermelhas vivas no abdómen. Só a fêmea parece ser perigosa, e a gravidade da sua picada varia com a estação do ano e com a sensibilidade da vítima. Embora o seu veneno seja considerado mais tóxico do que o da maioria das serpentes venenosas, devido às suas reduzidas dimensões e à ínfima quantidade que é injectada numa picada, os especialistas consideram que só poderá existir perigo de morte em crianças com peso inferior a 15 quilos.

A picada da viúva-negra pode quase não ser sentida, embora na maioria dos casos exista alguma dor localizada. No local de penetração das quelíceras, notam-se, geralmente, dois pontos vermelhos e surge edema. Dez a quinze minutos após a picadela, aparecem os primeiros sintomas essencialmente neurotóxicos (agitação, abrandamento das frequências cardíaca e respiratória, cãibras musculares generalizadas, suores profusos e hipersalivação, entre outros). O tratamento consiste no repouso absoluto, na colocação de um garrote acima do local da picada e na administração de analgésicos (a colocação de um cubo de gelo sobre o local da picada permite aliviar a dor). As vítimas deverão ser conduzidas à presença de um médico o mais rapidamente possível (assim, evitam consequências maiores, poderão começar a recuperar ao fim de 12 a 24 horas e curam-se em um ou dois dias).

A tarântula que se encontra em Portugal é uma aranha que não produz teia e que usa as cavidades naturais do terreno para se refugiar. As suas patas são robustas e peludas, apresentando o cefalotórax também peludo e vermelho escuro, com bandas castanhas. O abdómen é acastanhado com manchas negras. Apesar do seu aspecto feroz, não é agressiva. Com efeito, só pica quando é atacada e o seu veneno não é dos mais perigosos. Após a picada, pode existir localmente dor não muito intensa, seguida de edema e formação de uma pequena acumulação de pus que acabará em bolhas de água. Esta lesão pode deixar uma ulceração profunda, com necrose e eventualmente gangrena ao fim de uma semana. A cura tardará cerca de seis a oito semanas. Também neste caso, é aconselhável assistência médica com urgência.

Escorpiões ao entardecer

Essencialmente ao entardecer, em zonas secas e pedregosas, os escorpiões (também conhecidos como “lacraus” em muitas regiões do país) deixam os seus abrigos subterrâneos e tornam-se mais activos. A gravidade das suas picadas depende de vários factores, como a quantidade de veneno inoculado, a idade e o peso da vítima e o local do corpo afectado. No que respeita à quantidade de veneno, obviamente que quanto maior for a porção de veneno inoculado, mais graves serão as consequências. No que concerne à idade e ao peso da vítima, quanto menor a idade e o peso, maiores as preocupações, pois o veneno tenderá a ficar em concentrações muito maiores num organismo que possua menor massa corporal.

Quanto ao local da picada, ele é geralmente circunscrito aos membros inferiores e superiores, pois as picadas costumam ocorrer quando se pisam os lacraus com os pés descalços ou se apertam inadvertidamente com as mãos. Felizmente, nas plantas dos pés e nas palmas das mãos, devido à espessa camada epidérmica, a difusão do veneno é geralmente limitada. O mesmo não acontece com outras zonas do corpo onde, apesar de serem muito mais raras, as picadas inspiram cuidados maiores, devido ao perigo de inoculação profunda do veneno.

Após a picada, os sinais no local podem ser quase imperceptíveis, mas a dor é muito intensa e o membro afectado tenderá a formar edema, podendo até ficar temporariamente paralisado. Os sintomas são variados: ansiedade, arrepios, cãibras musculares e hipotensão. A dor manter-se-á várias horas, especialmente se o paciente não for medicado, e os sintomas podem persistir durante vários dias (podendo os neurológicos prolongar-se por mais de uma semana). O efeito do veneno geralmente não é fatal, excepto quando as vítimas são crianças de tenra idade ou sofrem de hipersensibilidade.

O membro afectado tem de ser imediatamente imobilizado e colocar-se um garrote na proximidade da picada. Para controlar a dor, sugere-se a aplicação de gelo ou de cloreto de etilo no local da picada ou de compressas quentes embebidas numa solução de bicarbonato de sódio, para neutralizar o veneno. O acompanhamento médico deve fazer-se com a maior brevidade possível, principalmente quando se trata de crianças, que podem facilmente entrar em estado de choque.

Vectores de bactérias

As carraças, também vulgarmente denominadas “carrapatos”, para além de injectarem neurotoxinas aquando da sua picada, podem ainda ser vectores de diferentes bactérias. A febre da carraça ou dos fenos é apenas um dos exemplos e, se não for tratada, pode levar a afecções articulares, neurológicas ou cardíacas graves. Os primeiros sinais da doença consistem no surgimento de uma grande mancha cutânea nas duas a três semanas após o encontro indesejável, que é usualmente acompanhada de febre, rigidez nas articulações e fadiga intensa. Mas estes parentes afastados das aranhas podem também inocular uma forma benigna de tifo, designada por “tularémia”. Neste caso, a picadela origina febre e manchas vermelhas (semelhantes às do sarampo), que surgem geralmente cerca de quinze dias após a picada. O acompanhamento médico e a utilização de antibióticos adequados costumam resolver o problema com alguma facilidade.

Para nossa felicidade, nem todas as carraças são portadoras de bactérias e como tal nem sempre provocam doenças. As suas picadelas costumam ser indolores, pelo que, após realizar um passeio no meio da vegetação, deve verificar-se a roupa e o corpo para despistar a eventual companhia de um destes parasitas (que se fixa no hospedeiro através da sua zona bucal, o rostro, por onde suga o sangue). Como se fixam firmemente, é conveniente evitar puxá-las, pois poderão partir-se e deixar o rostro preso à pele, podendo originar infecções. Para as remover na sua totalidade, é preferível utilizar algodão embebido em éter, o que provoca a retracção do rostro e fá-las desprenderem-se. O tratamento da picada faz-se essencialmente a nível local, através da utilização de pomadas.

Cobras e víboras

Embora as pessoas em geral nutram pouca simpatia por estes magníficos animais rastejantes, os ofídios (cobras e víboras) tudo fazem para evitar cruzar-se connosco. No entanto, dada a coabitação de algumas espécies com as construções humanas, é natural que ocorram encontros inusitados, que se forem aproveitados para admirar a beleza dos animais, a distância segura, só deixarão boas recordações.

Das dez espécies de ofídios existentes no nosso país, apenas quatro podem ser potencialmente perigosas (as restantes são totalmente inofensivas), uma vez que são as únicas que possuem dentes inoculadores de veneno. Duas dessas, a cobra-rateira e a cobra-de-capuz, embora venenosas, não são consideradas perigosas para o homem, dado que os seus dentes venenosos se localizam na região posterior dos maxilares: só conseguem inocular o veneno ao deglutir as presas. Assim, com dentes inoculadores de veneno que se localizam na região anterior dos maxilares superiores, surgem como eventualmente perigosas apenas duas espécies: a víbora-cornuda e a víbora-de-Seoane.

Apesar da perigosidade da mordedura das víboras, convém lembrar que são répteis habitualmente pacíficos e que facilmente se distinguem das outras serpentes: possuem a cabeça triangular bem diferenciada do pescoço, a pupila vertical, a ausência de placas cefálicas (escamas de grandes dimensões presentes na parte superior da cabeça), uma linha dorsal escura em ziguezague, comprimento inferior a 70 cm, corpo robusto e cauda curta. As suas mordeduras atingem geralmente os membros inferiores, pelo que é aconselhável utilizar calçado protector e calças grossas, especialmente nas zonas rochosas e montanhosas que constituem os seus habitats.

O primeiro sintoma de se ter sido mordido é a dor local, de início súbito e intensidade variável. O edema inicia-se rápida e progressivamente durante as 24 horas seguintes. Os sintomas gerais são habitualmente moderados: ansiedade, hipotensão, hipertermia, dores abdominais, náuseas, vómitos, diarreia nos casos mais graves e ocasionais alterações cardíacas. A evolução é habitualmente benigna, embora possa haver necrose da zona mordida e o edema possa demorar várias semanas a ser reabsorvido.

Mais vale prevenir

A mordedura torna-se muito perigosa e preocupante se a vítima for uma criança ou se ocorrer em zonas do corpo mais sensíveis, como o rosto e o pescoço. Como tratamento inicial, sugere-se o posicionamento da vítima em repouso, a lavagem imediata da ferida com água e a aplicação de gelo no local da mordedura, para acalmar a dor. Um dos procedimentos clássicos consiste ainda na colocação de um garrote, embora exista muita controvérsia sobre a eficácia desta prática. Após estes cuidados iniciais, deve providenciar-se o tratamento hospitalar com a maior brevidade possível.

Como diz o adágio popular, “mais vale prevenir do que remediar”. Por isso, caso se cruze com alguma víbora, afaste-se para uma distância segura e nunca tente capturar ou matar o animal. Lembre-se que essa visão fugaz é um prémio da natureza, pois esses répteis são animais raros e devem merecer o nosso respeito e protecção. Afinal, tal como muitos outros “animais perigosos”, só atacam e mordem se forem incomodados.

Retirado de:
J.N.
SUPER 147 - Julho 2010

quinta-feira, 16 de março de 2017

Como é que as bactérias respiram enxofre? Equipa portuguesa dá a resposta


Em vez de oxigénio, muitas bactérias respiram enxofre, mas alguns passos desta respiração não estão totalmente esclarecidos. Agora desvendou-se um desses passos – uma descoberta com aplicações potenciais na saúde humana ou na indústria do petróleo.

Quem já remexeu nas areias de uma ria durante a maré baixa talvez já tenha reparado que, por debaixo de uma camada fina de sedimentos claros, está outra camada quase negra. Esta cor escura deve-se à presença de bactérias que respiram enxofre em vez de oxigénio. Uma equipa do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) da Universidade Nova de Lisboa, em Oeiras, em conjunto com cientistas de outros países, desvenda na edição desta sexta-feira da revista Science o mistério do processo de obtenção de energia durante a respiração destes microrganismos.

Afinal, no processo de respiração do sulfato, um dos compostos de enxofre mais abundante na Terra, existe um passo adicional. Sulfato, sulfito e sulfureto? Agora já não é só assim e a nova sequência de passos é esta: sulfato, sulfito, trissulfureto e sulfureto.

Certos microrganismos começam por respirar o sulfato (uma molécula que tem um átomo de enxofre e quatro átomos de oxigénio), que depois é convertido em sulfito (uma molécula de enxofre e três oxigénios) e o resultado final é o sulfureto (um átomo de enxofre sem oxigénio). Só que na passagem do sulfito para o sulfureto existe ainda mais um intermediário, até agora desconhecido – o trissulfureto, uma molécula mais complexa com três átomos de enxofre.

As bactérias que respiram enxofre formam um grupo muito variado e habitam muitos ambientes diferentes. “Onde existe uma maior concentração destes organismos é nos sedimentos marinhos”, conta ao PÚBLICO Inês Pereira, do ITQB, líder deste projecto de investigação. O resultado da sua respiração – o sulfureto – é precisamente o que dá a cor negra aos sedimentos da ria Formosa, por exemplo.

“O sulfato é muito abundante na água do mar. Nas camadas superficiais dos sedimentos, há oxigénio e vivem bactérias que respiram oxigénio. Como têm um metabolismo muito elevado, consomem muito oxigénio, de tal forma que um pouco mais abaixo já não existe oxigénio”, continua a investigadora. Nas camadas inferiores dos sedimentos, vivem outras bactérias, que respiram sulfato. “O sulfureto resultante da respiração reage com os metais existentes nos sedimentos, como o ferro, a que se deve a cor escura dos sedimentos.”

Mas em certos contextos, o sulfureto resultantes da respiração destas bactérias podem ter consequências negativas. “Estas bactérias existem também [naturalmente] nos nossos intestinos. Porém, nalgumas pessoas os sulfuretos podem causar uma resposta inflamatória nos intestinos”, refere Inês Pereira.

Os sulfuretos são também monitorizados, por exemplo, nas explorações petrolíferas no mar, onde o contacto entre estas bactérias presentes na água e o petróleo pode levar à produção de sulfureto, que é tóxico para os trabalhadores e reduz a qualidade do petróleo.

Voltando ao processo de respiração, é através dela que as células obtêm energia dos nutrientes. Durante o processo, libertam-se electrões dos nutrientes que têm de ser transferidos para outro composto químico: “No nosso caso, de cada vez que respiramos os electrões que extraímos dos alimentos são transferidos para o oxigénio, que é reduzido à água que sai na nossa respiração”, explica Inês Pereira.

Mas em ambientes em que não há oxigénio vivem organismos que respiram compostos alternativos, como o sulfato. “As bactérias redutoras de sulfato usam-no em vez do oxigénio e, em vez de produzirem água, produzem sulfureto”, continua a investigadora.

Sabia-se já que durante este tipo de respiração o sulfato, ao receber electrões, passa a sulfito e depois a sulfureto. Sabia-se também que era nesta fase que se produzia energia. Mas não se sabia como se formava o sulfureto nem como se produzia a energia. “Há muito tempo que tentávamos desvendar este mistério do último passo. Em 2008, conseguimos determinar a estrutura das duas proteínas envolvidas neste passo”, conta Inês Pereira.

A partir daqui, a equipa foi estudar o modo de acção destas duas proteínas em dois grandes grupos de seres vivos que respiram sulfato – bactérias e arqueobactérias. Foi um projecto que envolveu a equipa do ITQB durante mais de três anos e que contou com a colaboração de investigadores da Universidade de Bona (Alemanha) e da Universidade de Harvard (Estados Unidos).

Os cientistas isolaram estas proteínas e estudaram como actuavam tanto in vitro como nas próprias bactérias, alterando algumas partes, para compreender a sua acção. E assim desvendaram o mistério: uma das proteínas actua sobre o sulfito, que por sua vez se liga a partes da segunda proteína, formando assim um composto intermédio, o trissulfureto.

Descobriram também que este trissulfureto é depois transformado em sulfureto na membrana da célula — e, como em todos os processos envolvidos na produção de energia na célula, este último passo está associado à membrana celular.

“Agora que percebemos como se dá a produção do sulfureto a nível molecular, podemos arranjar inibidores para este passo”, conclui Inês Pereira. A equipa do ITQB está agora a iniciar esta investigação, que passa por criar moléculas pequenas capazes de impedir a respiração destas bactérias.

A respiração do sulfato é um processo muito antigo. Há 2500 milhões de anos, ainda antes de haver oxigénio na Terra, já existiam bactérias a respirar sulfato. “Mesmo antes disso, desde há 3500 milhões de anos, havia organismos a respirar compostos de enxofre, principalmente sulfito, tiossulfato e o próprio enxofre. O sulfato só apareceu mais tarde na atmosfera.”

A descoberta de um novo passo na respiração do sulfato terá assim implicações para o estudo da evolução do ambiente na Terra, pois os geoquímicos usam as taxas de processamento do enxofre para desenvolver modelos da evolução do ambiente na Terra ao longo das eras geológicas, sublinha um comunicado do ITQB. Esta descoberta afecta estes cálculos e estes modelos terão de ser revistos.

Em suma, a partir de agora os manuais de microbiologia terão de ser reescritos na parte sobre a respiração anaeróbica. E assim passa agora a constar sulfato, sulfito, trissulfureto e sulfureto.

Texto editado por Teresa Firmino
Noticia retirada daqui

quarta-feira, 15 de março de 2017

Fundador da Wikipedia promete mais qualidade e facilidade de edição


O fundador da Wikipedia, Jimmy Wales, afirmou-se hoje apostado na melhoria da qualidade e na implementação de programas que facilitem a edição da popular enciclopédia online de acesso livre construída por cidadãos comuns.

"A coisa mais importante que estamos a fazer é ter a atenção da comunidade focada na qualidade, fornecendo-lhes as melhorias de software que precisam para controlar melhor a qualidade do conteúdo", disse Jimmy Wales, em entrevista por e-mail à agência Lusa.

O presidente da Fundação Wikimedia, organização sem fins lucrativos gestora da Wikipedia e de outros serviços em suporte wiki, manifestou-se "satisfeito com o progresso", refletido no facto de "a maioria das pessoas considerar já a Wikipedia bastante útil".

"Queremos tornar o software mais fácil de usar para que mais pessoas nos possam ajudar a editar", referiu, salientando que a Wikipedia precisa tanto de doadores como de editores, porque "todos podem contribuir à sua maneira".

Jimmy Wales reconheceu que o futuro da Wikimedia passa pela colaboração das associações locais ("local chapters"), sublinhando que estas entidades "têm sido bem sucedidas em toda a Europa e, cada vez mais, por todo o Mundo".

"Em todo o mundo, o crescimento dos 'chapters' tem sido muito útil no apoio à popularidade e, sobretudo, à qualidade da enciclopédia", salientou.

Wales afirmou-se "muito entusiasmado" com a recente criação da Associação Wikimedia Portugal, notando que "é o primeiro 'chapter' formal a operar em língua portuguesa, que é atualmente "a nona mais forte" na Wikipedia.

Especialistas e utilizadores da Wikipedia vão reunir-se sexta feira na Exponor, Matosinhos, para analisar formas de melhorar a versão portuguesa da enciclopédia, naquele que será o primeiro evento público da Associação Wikimedia Portugal, criada em 2009.

Na opinião de Jimmy Wales, ainda "há muito a ser feito" para que a Wikipedia, lançada em 2001, atinja o seu objetivo maior: "um mundo no qual cada ser humano possa livremente partilhar a soma de todo o conhecimento".

"Acho que ainda estamos a cerca de 10/20 anos desse objetivo. O nosso crescimento em todas as línguas da Índia é forte, mas o nosso crescimento em línguas africanas ainda é lento. Há muito a ser feito", disse.

A Wikimedia recebeu recentemente um donativo de dois milhões de dólares (cerca de 1,47 milhões de euros) da Google, mas Jimmy Wales considerou "impossível" que esta empresa possa um dia querer comprar a fundação, dado o seu estatuto de organização sem fins lucrativos.

Sobre o projeto Wikinews, um site noticioso lançado em 2004 pela Wikimedia e que tem sido alimentado exclusivamente por cidadãos comuns, Wales referiu que "há muitas razões" para não ter tido o mesmo sucesso da Wikipedia, mas frisou que este serviço "continua a crescer".

Jimmy Wales comentou também o insucesso do Wikia Search, um motor de busca que lançou em janeiro de 2008 mas que acabou por não vingar.

"Foi um projeto da minha completamente separada empresa com fins lucrativos www.wikia.com. Pensamos que o Wikia Search estava a ter sucesso até ao momento em que, devido à crise financeira, não fomos capazes de reunir mais fundos para apoiá-lo", disse.

"Entretanto, tudo na Wikia estava a crescer tão rapidamente que não tivemos tempo para nos concentrarmos no projeto de pesquisa. Por isso, virámos a nossa atenção para o que estava a funcionar melhor", acrescentou.

Não sou um monstro

O psicólogo norte-americano Mark Blumberg assegura que as deformações congénitas proporcionam informação valiosíssima sobre os mecanismos da evolução e da vida.

Numa das cenas mais impressionantes de Freaks (1932, intitulado A Parada de Monstros em Portugal), vários seres disformes encurralam uma rapariga entre as carripanas de um estranho circo. Depois de atacarem o amante da jovem, procuram apanhá-la no meio de uma terrível tempestade. Antes, ela tentara assassinar um dos perseguidores para ficar com todo o seu dinheiro. É verdade que a visão dos indivíduos provoca calafrios. Um deles, o príncipe Randian, não tem braços nem pernas; como se fosse um torso vivo, serpenteia pela lama com uma faca entre os dentes. Zip e Pip, os gé­meos siameses, sofrem de microcefalia, isto é, os crânios são diminutos em comparação com o de uma pessoa normal. Um anão com pouco mais de 60 centímetros de altura exibe uma navalha diante da mulher que tenciona matar. Outra personagem, interpretada pelo actor ­Johnny Eck, não tem pernas mas desloca-se com agilidade sobre as mãos.

Realizado pelo cineasta norte-americano Tod Browning (1882–1962), este filme é normalmente incluído no género de terror, mas pode também ser considerado um documentário, pois mostra sem contemplações os efeitos das mutações genéticas nos seres humanos. Os actores (atracções de feira ou de circo na vida real) deixaram uma marca profunda no psicólogo norte-americano Mark S. Blumberg, da Universidade do Iowa (http://www.psychology.uiowa.edu/faculty/blumberg). “Reparem no Johnny Eck. É tão gracioso que parece ir­real. Nós não evoluímos para nos deslocarmos como ele”, afirma, acrescentando: “O mais curioso é que o processo pelo qual aprendeu a caminhar com as mãos não é muito diferente daquele que todos têm de utilizar para poder andar sobre os pés e as pernas.” Blumberg é o autor do livro Freaks of Nature (que se poderia traduzir por “Extravagâncias da Natureza”), no qual desconstrói todos os estereótipos sobre o que habitualmente se considera serem aberrações físicas.

Esqueçamo-nos, pois, desses pobres indíviduos exibidos diante de um público crédulo e apreensivo por empresários sem escrúpulos como Phineas Taylor Barnum (1810–1891), criador de um lendário circo ambulante que possuía o seu próprio freak show. O psicólogo norte-americano defende, pelo contrário, que os “monstros” nos permitem reflectir sobre o produto de um projecto biológico diferente. Proporcionam-nos, em concreto, uma oportunidade para penetrarmos nos mistérios que a evolução biológica ainda esconde, 200 anos depois do nascimento de Charles Darwin.

Essas criaturas desenvolvem-se de uma forma tão extraordinária que a noção de que se trata de algo aberrante se desvanece quando as temos diante dos olhos. Se analisarmos as biografias de alguns dos participantes em ­Freaks, descobrimos factos tão surpreendentes como os que o filme mostra. Assim, Johnny Eck parecia cerceado pela cintura mas tinha, na realidade, uma espécie de pernas rudimentares ou cotos que escondia por baixo da roupa. O seu irmão gémeo Robert, colega em diversos espectáculos, nascera com um corpo normal. Nos seus 79 anos de vida, Johnny chegou a tocar piano com uma orquestra, foi piloto de corridas, conduziu locomotivas, pintou quadros, participou em três filmes de Tarzan e dedicou-se à magia. No filme de Brow­ning, apoia-se sobre um braço enquanto dirige, com o outro, um coro. “Temos um corpo capaz de fazer certas coisas e aprendemos a adaptar-nos. Não vejo diferenças entre aqueles que designamos, erradamente, por ‘monstros’ e o resto das pessoas”, sentencia Blumberg.

De acordo com esta perspectiva inovadora, cada um de nós representa uma dádiva da natureza, e aprendemos evolutivamente a lidar com os nossos corpos. O investigador conta que a ideia de escrever um livro com um ponto de vista tão original surgiu quando levava o seu cão a passear. O animal andava, corria de um lado para o outro, desacelerava, voltava a correr. Passados dois dias, o psicólogo reparou noutro cão que tinha perdido uma das patas traseiras num acidente e conseguia arranjar-se para andar na perfeição. Blumberg teve a ideia de averiguar em que consiste, verdadeiramente, o instinto animal. “Só nos lembramos de verificar de onde surge quando contemplamos corpos perfeitos. Foi por isso que comecei a estudar as chamadas ‘anormalidades’.”

Ao puxar pelo fio da meada, o psicólogo norte-americano descobriu outra excentricidade canina. Tratava-se de Faith, que nasceu no estado do Oklahoma sem as patas da frente. Em 2003, foi fotografado a andar tranquilamente: o cão tornara-se bípede! A investigação conduziu-o a outros exemplos semelhantes, como o de um babuíno selvagem com os braços muito pouco desenvolvidos que também se deslocava de pé. Houve, ainda, o caso da cabra nascida na Holanda, em 1942, e minuciosamente estudada pelo zoólogo Everhard Johannes Slijper. Tal como nos exemplos anteriores, veio ao mundo com apenas dois membros, mas corria e andava de forma natural, para espanto de quem a via.

Este derradeiro caso tem mais que se lhe diga. A especialista em evolução Mary Jane West-Eberhard, do Smithsonian Tropical Re­search Institute, descreve a surpresa do cientista holandês quando dissecou a cabra bípede, morta acidentalmente. Relata a experiência na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS): “Descobriu alterações muito apreciáveis nos músculos e nos ossos, incluindo transformações alucinantes nas patas traseiras e nos glúteos, mais espessos e alongados. Apresentava igualmente uma disposição inovadora dos pequenos tendões, uma caixa torácica modificada e importantes alterações na bacia.”

Sabia-se que o animal nascera com uma deficiência congénita, mas será que as adaptações tinham a mesma origem? Ou produziram-se devido à pressão ambiental? West-Eberhard admite que nos encontramos diante de um mistério evolutivo. E fala de um fenómeno, descrito como “fenótipo adaptado” (o fenótipo é a expressão física dos genes), que “podia ter desempenhado um papel na evolução da bipedestação dos vertebrados, incluindo os seres humanos”.

Everhard Johannes Slijper já tinha notado que as adaptações do seu exemplar andarilho eram muito semelhantes às de cangurus e orangotangos (estes últimos também andam, por vezes, na postura erecta). “A evolução da postura erecta nos seres humanos pode ter sido menos árdua ou longa do que se pensava, como suspeitam alguns antropólogos”, conjectura West-Eberhard. As características anatómicas do bipedismo incluem alterações na massa muscular, no comprimento dos tendões e no tamanho do tórax e da bacia. “As mesmas singularidades que se observavam na cabra”, sublinha a autora do ensaio.

Trata-se da luz que um monstro pode lançar sobre a evolução. “Esse tipo de indivíduos não é tomado em consideração quando se aborda a questão”, afirma Blumberg. “Não digo que um cão com duas patas vá dar origem a uma nova espécie, pois semelhantes efeitos podem ser causados tanto pelos genes como pelo ambiente. Tenho na minha frente, precisamente, a fotografia de uma serpente bicéfala. Sabemos que a anomalia não é congénita; deve-se a uma alteração profunda no meio ambiente.”

Blumberg refere-se à população da cobra-de-água-de-colar (Natrix natrix) do Reino Unido. O ofídio põe os ovos entre montes de esterco, cuja decomposição produz o calor necessário para poderem eclodir e as crias sair. Contudo, se a temperatura ultrapassar os 40 graus, poucas conseguem sobreviver e, dessas, uma pequena percentagem nasce com mais uma cabeça. Os zoólogos têm conhecimento de centenas de casos.

Ainda no campo da bicefalia, poucos sabem que dois por cento dos ovos de pato produzem siameses com essa característica. Não foi possível discernir causas genéticas, mas há, em contrapartida, factores que se podem atribuir à forma como o próprio ovo gira dentro do útero largo e elástico da fêmea. Determinados movimentos de rotação dão origem a freaks: ao que parece, os elementos químicos do interior são subtilmente alterados.

O próprio Darwin erguia as sobrancelhas perante semelhantes anomalias. A origem da variabilidade sempre constituiu um mistério para o “pai da evolução”, embora seja indispensável para a intervenção da selecção natural. Hoje, sabemos que toda a maravilhosa e sofisticada versatilidade que observamos na natureza, as adaptações dos animais mais exóticos, o modo como encaixam perfeitamente em cada habitat, resultam da acção que essa selecção exerce sobre uma infinidade de opções proporcionadas pelo material genético.

Todavia, como já vimos, não é a única fonte de modificação biológica. Os misteriosos caminhos do processo embrionário podem também ser frutíferos nesse sentido. É aquilo que alguns especialistas designam por “desenvolvimento plástico”. Blumberg rebate, no seu livro, um comentário de West-Eberhard: “Argumentos poderosos contradizem a sua opinião, segundo a qual as inovações causadas pelas mutações genéticas possuem um potencial evolutivo superior. Um factor ambiental pode afectar diversos indivíduos, enquanto uma mutação influencia, em princípio, apenas um.”

Perfeito. Nesse caso, perguntaria um cauteloso Charles Darwin, que vantagens pode proporcionar uma aberração? “No século XX, depois de redescobrir as experiências de Mendel, os cientistas modificaram a perspectiva da evolução darwinista, transformando-a num processo contínuo de alterações cuja origem era exclusivamente genética. Trata-se de uma postura inflexível”, responde Blumberg. No entanto, houve quem se opusesse à todo-poderosa tendência de pensamento. Blumberg refere dois nomes fundamentais: o do biólogo inglês William Bateson (1861–1926) e o do seu colega espanhol Pere Alberch (1954–1998).

Segundo Alberch, não existe apenas um rio de informação genética que corre inexoravelmente até esgotar o seu percurso e desaguar numa forma biológica. A analogia é mais vasta e interessante: a química e a regulamentação dos genes navegam através de muitos cursos, remoinhos e afluentes que restringem as infinitas possibilidades de produzir qualquer criatura. Falamos de um jogo com regras específicas, e as anomalias tornam-se possíveis devido a essas normas. Por conseguinte, também merecem um lugar no tabuleiro de xadrez evolutivo.

Muito antes, em 1894, William Bateson já antecipava a ideia de que determinados factores presentes durante o desenvolvimento embrionário decidem a configuração que um animal poderá ter. As etapas iniciais de vida exerceriam uma poderosa força interna, enquanto a selecção exterior ou natural se faria sobretudo sentir na versatilidade das espécies. Os crocodilos e as tartarugas, por exemplo, não possuem cromossomas sexuais, mas nascem também machos e fêmeas consoante a temperatura exterior. Experiências com embriões de peixes de água doce cujos ovos são submetidos a temperaturas baixas nas primeiras 24 horas após a fertilização produzem um bestiário de estranhos seres: com duas cabeças, um único olho...

Resumindo: os darwinistas mais ortodoxos garantem que as espécies, embora sejam consideradas como entes próprios e independentes, estão na realidade ligadas entre si. Representam a expressão de um todo. Por sua vez, a corrente de pensamento de Bateson e Alberch acha que as espécies são descontínuas, o que seria demonstrado, precisamente, pelos animais disformes, verdadeiras excepções no império absoluto da selecção natural.

Na nossa espécie, a lista de excepções que confirmam a regra é longa e está bem documentada: desde homens com dois seios ou com um polegar a mais aos bebés com o rosto duplicado (o termo clínico é “diprosopia”).

Blumberg recorda o caso das irmãs Abigail e Brittany Hensel, nascidas em 1990: um único corpo e duas cabeças completamente desenvolvidas. “Estes exemplos talvez não constituam o motor da evolução, mas ajudam-nos a entendê-la melhor. Quer sejam produto dos genes ou consequência do desenvolvimento embrionário, conseguem sobreviver às alterações e adaptá-las à sua vida.”

Os ciclopes existem
Blumberg dedicou atenção especial ao caso das pessoas com um único olho, verdadadeiros ciclopes que, em vez de nariz, desenvolvem uma estrutura tubular por cima do órgão da vista. Ter ou não o apêndice nasal depende de os olhos ficarem separados no rosto durante o desenvolvimento embrionário, e de as células conseguirem migrar até ao centro da face para poder construí-lo. Não existe um gene específico que dê origem ao ciclopismo, mas determinadas alterações no ADN afectam, seguramente, o nariz e desencadeiam de forma indirecta a deficiência. Por outro lado, o gigante da Odisseia pode ter sido inspirado pelos fósseis de elefantes que povoavam antigamente Creta. Os gregos talvez acreditassem que a enorme fossa nasal era a cavidade ocular de uma criatura ciclópica.


L.M.A.
Super Interessante
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