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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Notícia - Rãs Mozart e ventríloquas entre as seis espécies de anfíbios descobertas no Haiti

Num momento em que o povo do Haiti lembra as vítimas do terramoto, ocorrido há um ano, biólogos trazem uma boa notícia. A sua expedição encontrou seis espécies de anfíbios únicas no mundo que estavam desaparecidas para a ciência. Entre elas a rã Mozart e uma rã ventríloqua.

A expedição que, em Outubro, rumou às remotas montanhas do Haiti, não encontrou aquilo que mais procurava: a rã La Selle Grass (E. Glanduliferoides), que não era vista há mais de 25 anos.

Mas a viagem acabou por surpreender a equipa de cientistas da Conservation Internacional (CI) e do Grupo Especialista em Anfíbios da UICN (União Internacional para a Conservação), liderados por Robin Moore (CI) e Blair Hedges, da Universidade estatal da Pensilvânia.

A equipa acabou por encontrar seis espécies de anfíbios que há décadas se pensavam perdidas e que estão Criticamente Ameaçadas, entre elas uma rã “cantora”, baptizada em honra do compositor Wolfgang Amadeus Mozart (com 2,5 centímetros de comprimento); uma rã com enormes olhos negros e marcas alaranjadas; uma rã ventríloqua (com 2,16 centímetros) que tem a habilidade de projectar a sua voz para confundir possíveis predadores e uma rã com olhos extremamente fora do comum (com 5,3 centímetros).

“Foi incrível”, comentou Moore em comunicado publicado no site da CI. “Partimos à procura de uma espécie perdida e encontrámos um tesouro escondido. Para mim isto representa uma muito bem-vinda dose de resistência e de esperança para as pessoas e vida selvagem do Haiti.”

Moore, com Hedge e várias outras pessoas, passou oito dias e oito noites nos bosques do Haiti, registando árvores, leitos de rios e florestas à procura de anfíbios. Durante esse tempo, a equipa descobriu 25 espécies únicas das 49 espécies nativas conhecidas no país.

“É claro que a saúde das rãs do Haiti não é a maior preocupação. Apesar disso, os ecossistemas que estas rãs habitam e a sua capacidade para suportar vida, são criticamente importantes para o bem-estar a longo prazo das pessoas no Haiti, que dependem de florestas saudáveis para a sua subsistência, segurança alimentar e água doce”, salientou Moore. “Os anfíbios são o que chamamos de espécie barómetro da saúde do planeta. São como os canários na mina de carvão. À medida que desaparecem, também desaparecem os recursos naturais vitais para as pessoas sobreviverem.”

Com a desflorestação a grande escala que está a deixar o país com menos de dois por cento do seu coberto florestal original e a degradar a maioria dos ecossistemas de água doce, dos quais dependem os haitianos, os bosques nebulosos das montanhas do Sudoeste são os últimos redutos de saúde ambiental e riqueza natural do país.

“Uma suposição comum sobre o Haiti é que já não resta nada para salvar”, acrescentou Moore. “Mas isto não podia estar mais errado. Existem focos biologicamente ricos que permanecem intactos, apesar das enormes pressões ambientais”, salientou.

Ainda assim, há pouco tempo a perder, lembrou Hedges. Tal como em outras partes do planeta, as populações de anfíbios do Haiti estão em perigo de desaparecer, com 92 por cento das espécies do país incluídas na lista de espécies ameaçadas. De facto, mais de 30 por cento de todas as espécies de anfíbios a nível mundial estão ameaçadas de extinção.

sábado, 26 de setembro de 2015

Notícia - Camaleões algarvios

Na Mata de Monte Gordo e em pequenos núcleos isolados que se espalham principalmente pelo sotavento algarvio sobrevivem as derradeiras populações portuguesas de camaleão-comum. O biólogo Jorge Nunes desvenda os mistérios deste curioso réptil com aspecto de monstro pré-histórico que partilha o seu fragmentado habitat com os muitos veraneantes que elegem o Algarve como destino para fruição dos prazeres balneares.

Durante as férias balneares, que para muitos começam logo nas mini-férias da Páscoa, os turistas tomam de assalto o litoral algarvio. Invadem as praias à cata do bronze e dos refrescantes banhos de mar, abrigam-se na sombra de perigosas arribas e falésias pondo em risco a sua própria segurança, acamam-se nas dunas, que tomam como suas e das quais fazem estacionamentos e acampamentos clandestinos, e, na ânsia da fruição dos prazeres do estio, esquecem-se de olhar à sua volta e de apreciar a Natureza que os rodeia. Com tanta insensibilidade ambiental, não é de admirar que a biodiversidade esteja a perder-se de forma acelerada e irreversível, especialmente em terras algarvias.

Se não é fácil ser-se turista num Algarve sobrelotado de gente, imagine-se o que sentirão os bichos que lá habitam! Deve ser com desmedido temor que encaram a estranha multidão fervilhante que regressa sazonalmente para lhes tirar o sossego, lhes devassar o espaço vital e lhes alterar os hábitos quotidianos ou, pura e simplesmente, lhes destruir os habitats, pondo em perigo a sua sobrevivência.

Dentre todos os animais algarvios que são vítimas da incúria dos veraneantes, merece destaque um estranho réptil que, infelizmente, muitos turistas apanham, mantêm cativo como mascote e chegam ao cúmulo de levar consigo quando regressam às suas casas como souvenir das férias algarvias: o camaleão, um animal enigmático e repleto de curiosidades, que interessa conhecer e preservar.

Esta família de répteis (Chamaeleonidae) é originária da África Oriental e pensa-se que terá surgido há cerca de 60 milhões de anos. Existem no mundo mais de 150 espécies de camaleões (só a ilha de Madagáscar alberga 40 por cento do número total de espécies), mas apenas uma, o camaleão-comum (Chamaeleo chamaeleo), ocorre em Portugal. Segundo o Guia de Anfíbios e Répteis de Portugal, a espécie encontra-se distribuída pelo Norte de África, algumas regiões do Sahara, Médio Oriente, Península Arábica e algumas áreas da Península Ibérica, Sicília, Grécia e ilhas do Mar Egeu.

A sua origem em terras lusas continua a ser motivo de controvérsia, embora os dados disponíveis apontem para que tenha sido introduzido nos pinhais entre Monte Gordo e Vila Real de Santo António, por volta de 1920. Estudos recentes, baseados na análise de ARN mitocondrial, parecem indicar que os camaleões algarvios foram introduzidos a partir de populações da costa atlântica de Marrocos, provavelmente de Essaouira, dado que existe uma enorme proximidade genética entre ambas as populações, que estão separadas apenas por cerca de 650 quilómetros de oceano.

Embora vários autores tenham defendido que os camaleões algarvios poderiam ter resultado de uma colonização natural, ocorrida no Plio-Pleistocénio (há 5,2 a 0,7 milhões de anos), a reduzida diferenciação genética verificada entre as populações de ambos os lados do Atlântico não abona a favor dessa teoria. Assim, na actualidade, os investigadores defendem uma introdução que terá acontecido nos primórdios do século XX, embora não excluam a hipótese de ter começado no século XVII, uma vez que desde essa altura foram mantidos contactos comerciais regulares dos portugueses com o Norte de África, em particular com o porto mercantil de Essaouira.

O camaleão-comum é um réptil com aspecto de monstro pré-histórico, misterioso e repleto de curiosidades. Raramente atinge mais de 30 centímetros de comprimento, apresenta o corpo revestido por escamas granulares, e da cabeça sobressaem cristas ósseas que lhe conferem um aspecto invulgar e o tornam inconfundível. É um animal de hábitos diurnos, arborícola, que se passeia, de forma lenta e hesitante, pelos ramos das árvores. Agarra-se firmemente com os seus pés pentadáctilos (dois dedos direccionados para um lado e três para o outro, unidos em dois grupos oponíveis que formam uma espécie de tenaz) terminados em unhas pontiagudas e auxilia-se com a sua cauda preênsil, que ajuda a segurar-se aos ramos. Os olhos, situados em elevações cónicas inseridas nas órbitas, podem mover-se de forma independente e permitem uma visão es­te­reoscópica, que se revela de grande utilidade na localização das presas (uma vez que as podem seguir com os olhos, mesmo quando o corpo permanece completamente imóvel).

Quando são importunados e se sentem ameaçados, tornam a sua cor mais escura, incham o corpo para parecerem maiores, abrem a boca e sopram com ar ameaçador. No entanto, este comportamento de intimidação não passa de fanfarronice, pois na verdade são animais totalmente inofensivos que (para seu azar) se deixam apanhar com facilidade.

O mais fascinante deste estranho animal é a sua assombrosa capacidade para mudar de cor. A sua pele apresenta uma coloração variável (controlada pela dilatação e contracção de células pigmentadas capazes de reflectir cores diferentes, denominadas “cromatóforos”, “guanóforos” e “melanóforos” e situadas em distintas camadas da derme), que pode ser modificada com certa rapidez e permite ao animal confundir-se com o seu meio.

Sabe-se hoje que afinal os camaleões não mudam de cor apenas para se camuflarem (embora sejam autênticos mestres nessa arte), mas igualmente para comunicarem com os seus congéneres e assegurarem a regulação da temperatura corporal (termorregulação). No que respeita à comunicação, cada espécie possui cores e padrões específicos para evidenciar domínio, submissão, combate, ameaça, gravidez, etc. Sendo animais praticamente surdos, estes sinais visuais constituem uma forma muito eficaz de comunicação, essencialmente, entre indivíduos da mesma espécie.

Quanto à termorregulação, dado que são animais de sangue frio (poiquilotérmicos), faz-se recorrendo a cores mais claras (que reflectem os raios solares, impedindo um sobreaquecimento) e a cores mais escuras (que permitem uma maior absorção de raios solares com o concomitante aumento rápido da temperatura corporal).

Mas o rol de curiosidades não se fica por aqui. Estes comedores de insectos voadores (moscas, borboletas e gafanhotos, entre outros) são verdadeiros predadores de emboscada, sendo digna de referência a forma repentina como propulsionam a língua para caçar as suas presas. O segredo do sucesso dos seus disparos certeiros reside no factor surpresa, dado que usam a camuflagem para se aproximar dos insectos e surpreendem-nos com a sua língua protráctil (que se pode alongar para a frente), que é projectada a velocidades estonteantes. O facto de ser igualmente musculosa, larga e pegajosa ajuda a prender o alimento e a trazê-lo até à boca.

Camuflagem, paciência e ataques-surpresa são os trunfos destes ninjas do mundo animal, que se confundem de tal modo com o meio envolvente que se tornam quase invisíveis aos olhos das suas presas e exigem uma excepcional acuidade visual dos seus principais predadores (cobra-rateira, ratazana, peneireiro-vulgar e tartaranhão-caçador, entre outros).

De acordo com o Guia de Anfíbios e Répteis de Portugal, a área de distribuição do camaleão-comum no nosso país encontra-se circunscrita ao Algarve, mais precisamente entre Vila Real de Santo António e Armação de Pêra. Embora a sua ocorrência esteja também confirmada na zona de Lagos e Portimão e já tenham sido encontrados nos mais diversos lugares do Algarve, admite-se que sejam populações introduzidas recentemente e que tiveram origem em indivíduos trazidos de outras regiões algarvias.

Segundo Octávio Paulo, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, “em muitos destes locais as observações resultam de transporte por humanos e não correspondem à genuína área de distribuição da espécie”. O mesmo acontece com capturas esporádicas que já aconteceram em outros locais mais setentrionais do país. Até porque, segundo diz, “o Algarve é a única zona que nas actuais condições climáticas tem potencialidades para a permanência da espécie no país”. Assim, “é provável que as regiões do Sul de Portugal e Espanha constituam os limites climáticos naturais da distribuição norte da espécie”, sendo o Algarve a única zona portuguesa que oferece as condições climatéricas e ecológicas necessárias para a sobrevivência do camaleão-comum.

Sendo uma espécie arborícola, necessita de arbustos, como a retama (um tipo de giesta), podendo também encontrar-se sobre o pinheiro-bravo e sobre as espinhosas figueiras-de-pita, também conhecidas por “piteiras”.

Embora os núcleos populacionais deste réptil vivam essencialmente nas franjas litorais, a colonização natural e a colonização induzida (por transporte humano) têm permitido o estabelecimento de novas populações em várias localidades algarvias, desde a Costa Vicentina até Vila Real de Santo António, incluindo a zona interior, no Barrocal. Na dispersão natural, pensa-se que os cursos de água, com as suas margens arbustivas, poderão ter funcionado como corredores para colonização do interior. É preciso não esquecer que estamos a falar de um réptil tipicamente arborícola, que apenas desce ao chão para mudar de árvore ou arbusto ou para se enterrar no solo, durante o perío­do de letargia que ocorre aproximadamente entre Dezembro e Março.

Quanto à colonização por transporte humano, poderá ter resultado de libertações intencionais ou acidentais, sendo esta última a situação mais provável. Isto acontece porque alguns turistas sem escrúpulos e sem sensibilidade ecológica apanham exemplares que mantêm em cativeiro até acabarem por morrer (como facilmente se percebe, um animal furtado à Natureza dificilmente poderá subsistir como animal de estimação!) ou conseguirem escapar para o meio natural. Nestes casos, embora os indivíduos possam sobreviver, caso encontrem as condições ecológicas necessárias, dificilmente constituirão novas populações, devido ao isolamento geográfico.

Infelizmente, muitas das capturas perpetradas por turistas ocorrem durante os meses de Verão, sobretudo em Agosto e Setembro, altura em que muitas das fêmeas estão grávidas. Assim, é fácil imaginar o que essas práticas provocam na dinâmica populacional, dado que, na maioria dos casos, os exemplares acabarão por morrer, mesmo quando regressam ao meio natural longe dos seus habitats. Mas, mesmo que venham a fundar uma nova população demograficamente independente, “o mais provável é que estas populações, devido ao reduzido número de efectivos, acabem por desaparecer”, vaticina Octávio Paulo.

O investigador, que conhece como ninguém estes curiosos animais de sangue frio, dado que coordenou inúmeros trabalhos de campo sobre a biologia, distribuição e conservação do camaleão no Algarve, sustenta com argúcia que esta situação, porque permite a observação de alguns exemplares de camaleão em zonas muito distantes entre si, permite dar a falsa ideia de uma extensa e contínua distribuição de camaleões por todo o litoral e barrocal algarvio e, consequentemente, pela ausência de qualquer risco para a presença da espécie no país, o que está muito longe de corresponder à realidade dos dados recolhidos pela comunidade científica.

A análise da dinâmica populacional das populações algarvias permitiu descobrir que as populações sofrem uma mortalidade considerável. A maior parte dos indivíduos morre até ao fim do primeiro ano de vida e dificilmente atinge os dois anos de idade. Assim, não lhes resta outra alternativa que não seja crescer depressa: nascem em Agosto e ao fim de um ano já atingiram a maturidade sexual e estão prontos para se reproduzir e transmitir o seu legado genético às gerações vindouras. Viver depressa porque se vai morrer cedo parece ser o lema dos camaleões algarvios. Octávio Paulo acredita que essa poderá ser mesmo uma estratégia de sobrevivência: “Como a pressão sobre a espécie é considerável, arranjou uma estratégia para se conseguir manter.”

Os estudos iniciados em 1989 e realizados ao longo dos anos permitiram concluir que os núcleos populacionais no interior do Algarve e dispersos pelo litoral algarvio são formados, essencialmente, por populações com baixa densidade e pequenos efectivos. Perante essa constatação, afirma Octávio Paulo que, “embora alguns possam persistir à escala do tempo ecológico, apresentam uma elevada taxa de colonização-extinção, sendo por isso mesmo muito vulneráveis, não podendo neles assentar uma estratégia de conservação da espécie”.

Mesmo em lugares onde o réptil ocorre em maior número e onde parece formar populações persistentes, tem-se vindo a assistir a uma preocupante diminuição dos efectivos populacionais em resultado da destruição e fragmentação progressiva dos habitats, provocada pela crescente urbanização, pressão turística e ocupação humana.

As zonas consideradas como habitat preferencial para a espécie situam-se principalmente na região de Armação de Pêra, entre Quarteira e Faro, entre Olhão e Tavira (sobretudo nas ilhas barreira do Parque Natural da Ria Formosa), e entre Cabanas (Tavira) e Vila Real de Santo António. Nesta última área costeira, localiza-se um dos lugares mais importantes no que respeita à abundância e preservação dos camaleões em Portugal: a Mata de Monte Gordo. Esta zona oferece as condições ideais para a espécie (uma apropriada dimensão geo­gráfica, diversidade de habitats e um digno efectivo populacional), o que permite pensar numa estratégia efectiva de conservação da espécie de camaleão no nosso país. “A Mata é a grande área remanescente para a conservação eficaz dos camaleões, pois a maioria das restantes zonas de bons habitats foi ou está a ser retalhada ou destruída, ou existem perspectivas de num futuro próximo isso vir a acontecer”, afirma Octávio Paulo.

Aquele espaço verde é um verdadeiro oásis que, embora esteja ao serviço do lazer das populações locais e dos visitantes, com os seus parques de merendas e trilhos pedestres, constitui igualmente uma importante reserva de camaleões. Os meses de Julho, Agosto e Setembro, que correspondem ao auge da época balnear e concomitantemente a uma maior perturbação provocada pelos veraneantes, são, no entanto, considerados meses críticos para a coexistência entre humanos e répteis. Afinal, é quando se inicia a azáfama reprodutora (havendo por isso um aumento da actividade dos indivíduos, das suas deslocações e exposição) e ocorrem os nascimentos das posturas efectuadas no ano anterior (nascem cerca de oito a trinta juvenis por cada postura). Estes acontecimentos, de enorme importância no ciclo de vida dos camaleões, tornam este espaço verde e o sistema dunar adjacente muito sensíveis à presença humana.

De igual modo, o mês de Outubro é considerado crítico. Esse é o período em que as fêmeas grávidas (que apresentam habitualmente manchas amarelas características) se deslocam e realizam as posturas de ovos (que são enterradas no solo arenoso), tornando-as extremamente susceptíveis a perturbações no habitat. Dado que percorrem grandes distâncias para chegarem aos locais de postura, que são escolhidos criteriosamente (por vezes, escavam vários buracos antes de encontrarem o local óptimo para porem os ovos), acredita-se que o grande esforço reprodutor possa ser uma das principais causas da elevada mortalidade das fêmeas.

Dada a raridade crescente da espécie, todos os cuidados são poucos. É preciso não esquecer que dessas posturas resultará a nova geração que dará continuidade ao legado hereditário de um estranho réptil que, embora não seja nativo de terras lusas, os algarvios se orgulham de acoitar e estimam como se eles tivesse vivido no Algarve desde sempre.

J.N.
SUPER 149 - Setembro 2010

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Notícia - As “aves das cidades” têm um cérebro maior

As aves que se conseguiram adaptar às cidades têm um cérebro maior em relação aos seus corpos do que aquelas que vivem fora dos centros urbanos, revela um estudo de investigadores espanhóis publicado na revista “Biology Letters”.

Segundo o trabalho do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), o cérebro das espécies associadas a meios urbanos – como o chapim-real (Parus major) e a pega-rabuda (Pica pica) – é 20 por cento maior do que aquelas que permanecem longe das cidades como, por exemplo, o papa-figos (Oriolus oriolus).

“As cidades são ambientes novos e complexos para a fauna e por isso representam um desafio”, comentou Alejandro González, um dos autores do estudo e investigador do CSIC na Estação Biológica de Doñana, em Espanha.

A comparação foi feita com dados de 82 espécies do grupo mais numeroso de aves, os passeriformes. As aves deste grupo caracterizam-se pelo seu pequeno tamanho, por fazerem ninhos e por cuidarem das suas crias que nascem com níveis muito baixos de desenvolvimento. “São a maioria das aves que se observam nas cidades e, a maior parte delas podem ser denominadas canoras”, explica ainda o investigador, em comunicado.

As variedades analisadas pertencem ao meio urbano e arredores de 12 cidades representativas de França e Suíça. Destas espécies, apenas 38 são capazes de se reproduzir no núcleo urbano.

“Do mesmo modo que alguns ambientes impedem a vida a diferentes espécies devido a certas características – como a salinidade e temperatura -, os meios urbanos supõem certos desafios que nem todas as aves são capazes de superar”, explica o comunicado. Entre esses desafios estão alterações na disponibilidade e variedade de alimento, nos espaços para nidificação e nos padrões de iluminação e ruído.

“As cidades, as zonas que mais estão a crescer na actualidade, estarão a actuar como um filtro ecológico, já que as suas características impedem o acesso a certas espécies”, acrescentam os investigadores do estudo, que contou ainda com a participação da Universidade de Uppsala, na Suécia.

Já em Abril, um estudo de investigadores do CSIC, publicado na revista “Behavioral Ecology”, tinha concluído que as aves urbanas cantam mais tempo para assim conseguirem compensar os efeitos negativos do ruído das cidades.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Notícia - Que se passa lá por baixo? A incrível fauna que vive no subsolo

Térmites, formigas, vermes, ácaros, fungos, bactérias, protozoários... É difícil imaginar a trama de relações biológicas que lateja sob o chão que pisamos. Vale a pena descobrir este submundo fascinante e ainda pouco conhecido.

Poderíamos descrevê-los como um grande manto fluido em que as rochas nuas fariam o papel de ilhas; ou, então, como um imenso oceano negro, simultaneamente denso e maleável, que sustenta a maior biodiversidade do planeta. O facto é que, tal como os mares, os solos terrestres possuem uma enorme capacidade para atenuar as variações de temperatura. Neste caso, o bem-estar propício ao desenvolvimento da orbe viva é conseguido através da retenção da água e do ar, dois excelentes amortecedores térmicos. E, para prosseguirmos com a analogia marinha, também encontramos camadas sobrepostas de diferentes composições (os horizontes), habitadas por plâncton, seres pelágicos e criaturas abissais.

Não confundamos os solos com simples acumulações de terra; são meios extraordinariamente estruturados, com uma espessura mínima, determinado teor de matéria orgânica, partículas estabilizadas por diversos tipos de ligações e, sobretudo, uma rede de inter­acções ecológicas de enorme complexidade. De facto, a vida pulsa sob os nossos pés em magnitudes quase inconcebíveis. Estimativas feitas há 20 anos apontavam para a existência de quatro a cinco mil espécies de procariotas (bactérias e arqueobactérias) por grama; isto é, tantas como as contabilizadas no mais completo tratado de taxonomia bacteriana. Cálculos mais recentes elevam aquele número para as dezenas de milhares.

Apesar disso, definir uma espécie a estes níveis torna-se muito difícil, devido à proliferação de subespécies e variedades, assim como ao incessante fluxo genético que se produz entre elas. Por outro lado, não nos podemos esquecer de que a lista de organismos muda quase por completo não só entre duas zonas separadas por algumas dezenas de quilómetros como, também, em função da profundidade (poderá ser de vários metros), da ventilação, da humidade ou da temperatura no subsolo. Nesta viagem pelo interior da terra, encontramos, por exemplo, microambientes específicos como a rizosfera, o conjunto das raízes das plantas, colonizada por uma multidão de seres vivos.

Existem, pois, inúmeros tipos de solos distribuídos por todo o globo, cujo perfil depende de factores como a rocha-mãe (origem da matéria-prima mineral), o clima, a acção do homem, a vegetação ou a antiguidade. Há os vermelhos tropicais, endurecidos e pobres em nutrientes devido à acção impiedosa de aguaceiros torrenciais; os finos e ácidos das taigas e outras florestas de coníferas; a terra rossa mediterrânica, rica em argila que sedimentou após a dissolução do calcário e cuja cor arruivada provém da oxidação do ferro; os acizentados solos aluvionares, formados em zonas pantanosas; as turfeiras, onde se concentra grande quantidade de matéria orgânica devido à lenta decomposição causada pela falta de oxigénio e pelo frio... No entanto, o recordista da fertilidade é o chamado chernozem das estepes ucranianas. Nestas negras extensões em que a erva cresce exuberantemente devido à acção de abundantes chuvas primaveris, a matéria orgânica não tem tempo para se decompor totalmente durante o Verão seco e o frio Inverno.

De quanto tempo necessita um subsolo para poder alojar um ecossistema? A maior parte dos bioterrenos tem milhares ou dezenas de milhares de anos, mas, se juntarmos um clima húmido a uma base de cinzas vulcânicas ou de depósitos aluviais, o processo poderá ver-se reduzido a menos de cem anos. Alguns só conseguem moldar-se a um ritmo exasperantemente lento: é o caso dos que se formam de duro calcário em climas frios, forçados a crescer um centímetro em cada 5000 anos.

Os antepassados dos actuais solos não passavam de películas formadas por bactérias e algas, cujos processos bioquímicos começaram a alterar a rocha-mãe. Durante centenas de milhões de anos, os organismos terrestres dominantes foram os líquenes, associações de algas e fungos que sobreviviam em lugares inóspitos que nunca conseguiriam colonizar isoladamente, e que, pouco a pouco, decompuseram as rochas nos seus componentes minerais. Numa etapa posterior, há 700 milhões de anos, entraram em cena os musgos e, em seguida, as plantas vasculares. Tornaram-se, assim, possíveis outras duas simbioses fundamentais para a dinâmica dos solos.

A primeira das associações reúne determinadas espécies vegetais (em especial, as leguminosas) com bactérias para transformar o azoto da atmosfera noutras substâncias que podem ser aproveitadas pelas plantas. Eric Triplett, microbiólogo da Universidade da Florida, considera que se poderia inserir os genes bacterianos que participam na fixação daquele elemento químico (designados por nif, de nitrogen fixation) noutras variedades de maior interesse agrícola, como os cereais. Evitar-se-ia, deste modo, o recurso aos dispendiosos e anti-ecológicos adubos químicos azotados. Por outro lado, os micorrizos, raízes de plantas e fungos associados em simbiose, também desempenham um papel fundamental: enquanto os segundos captam água e minerais através de fibras viscosas designadas por “mucílagos”, as primeiras fornecem nutrientes.

Precisamente, o reino dos fungos situa-se comodamente debaixo de terra. Muitos alimentam-se de matéria morta, mas também podem parasitar plantas e animais, ou mesmo caçar vermes, que estrangulam com uma espécie de laço ou aprisionam segregando substâncias pegajosas. Entre os organismos procurados pelo Instituto de Biologia e Fertilidade dos Solos Tropicais de Nairobi (Quénia), como bio-indicadores da qualidade de um terreno e para outros fins, encontra-se o Acaulospora. Isabelle Barrois, investigadora do Instituto de Ecologia de Xalapa (México), escreveu na revista Nature que este fungo, muito eficaz a estabelecer simbioses com plantas bolbosas, poderia igualmente ajudar a substituir os adubos azotados.

Embora sejam velhos conhecidos dos micólogos, os inquietantes mixomicetes foram expulsos pelos especialistas da família dos fungos para serem incluídos no âmbito taxonómico dos protistas. Formados por seres unicelulares que se congregam em reacção a estímulos químicos, avançam pelas florestas transformados numa massa amorfa, rastejante e gelatinosa que engole todo o tipo de coisas. Um eficiente serviço de limpeza.

No entanto, os inquilinos predominantes nos ecossistemas que compõem a maior parte das terras à superfície são as bactérias e as arqueobactérias. A par de algumas espécies com vasta distribuição geográfica, há muitas outras raras. Os peritos especulam que estas poderiam constituir uma reserva de emergência para o caso de as características do meio se alterarem drasticamente. Pensam, igualmente, que um número significativo de arqueas é formado por organismos primitivos que foram ultrapassados por micróbios mais eficazes na utilização dos recursos, mas cuja natureza austera lhes permite vencer os pe­río­dos de adversidade. Dado que é impossível cultivar em laboratório a imensa maioria dos microorganismos do solo, não se conhece com exactidão o seu metabolismo.

Há quem pense que subsistem, entre essa vasta população underground, membros que se separaram do tronco principal da árvore evolutiva antes de surgir o antecessor comum de todos os seres vivos. Já se começou a procurar eventuais sinais distintivos, como o uso de um código genético diferente ou uma preferência pelo arsénico (mais abundante na Terra primitiva) para cumprir funções celulares nas quais os actuais seres vivos recorrem ao fósforo. Poderíamos mesmo estar a conviver com microorganismos extraterrestres, provenientes de outros corpos do Sistema Solar.

Designamos todos esses minúsculos seres por “procariotas”, mas os seus metabolismos podem diferir como a noite e o dia: alguns só vivem com oxigénio enquanto, para outros, este gás é um veneno; os heterótrofos alimentam-se de matéria orgânica previamente fabricada, mas os autótrofos podem obter pelos seus próprios meios a energia necessária para subsistir, tanto da luz solar como de múltiplas substâncias minerais. Todavia, há algo em que são todos semelhantes: desempenham papéis insubstituíveis nos ciclos globais de nutrientes, quer para fixar o azoto atmosférico no amoníaco e nos nitratos, quer para produzir azoto molecular (que escapa para a atmosfera) a partir destes últimos, ou ainda para gerar metano como produto de desperdício que é aproveitado, por sua vez, por outros microorganismos.

Embora os animais apresentem, em comparação com bactérias e arqueobactérias, uma escassa diversidade, estima-se mesmo assim em dezenas de milhões o número de espécies de nemátodes, vermes ubíquos que desempenham todos os tipos de funções ecológicas; de tardígrados, invertebrados rechonchudos que conseguem suportar todo o género de privações; de colêmbolos, seres diminutos e saltitantes aparentados com os insectos; e de formigas e térmites, os mais importantes em termos de biomassa. Merecem também destaque lesmas, caracóis, larvas de diversos insectos, ácaros, bichos-de-conta, centopeias e, claro, as minhocas, que desempenham um papel primordial: grande parte da matéria que pisamos é formada pelos seus excrementos. Naturalmente, estes anelídeos são responsáveis pela maior parte das trocas verticais de substâncias no solo, como demonstrou um idoso cheio de paciência que merecia, só por esse estudo, figurar nas páginas da história da biologia: Charles Darwin.

Os solos desempenham um papel fundamental no aquecimento global. De facto, descobriu-se, nos últimos anos, que constituem um escoadouro de carbono muito maior do que se pensava. Na superfície da Terra, existe muita matéria orgânica por decompor, abundante mesmo a maior profundidade. A subida das temperaturas e a erosão contribuem para acelerar a oxidação dos compostos de carbono, processo que lança dióxido de carbono na atmosfera e aumenta o efeito de estufa.

Além disso, a quantidade de carbono armazenada nos solos do Árctico e das zonas adjacentes é o dobro do que se tinha previamente estimado. O degelo poderá levar a que esse excedente acabe por ir parar à atmosfera e aos oceanos, agravando ainda mais o problema.



A.M.J.C.
SUPER 149 - Setembro 2010

domingo, 20 de setembro de 2015

Notícia - Redescoberto um sapo que não se via desde 1924

O sapo-arco-íris-de-bornéu apareceu ao fim de 87 anos na ilha de Bornéu, uma descoberta que custou meses de procura a uma equipa de investigadores da Universidade de Sarawak da Malásia, e que foi anunciado nesta quinta-feira pela associação ambientalista Conservation International (CI).


A última vez que o mundo ocidental tinha visto esta espécie de anfíbio foi em 1924, quando cientistas europeus foram à ilha de Bornéu, no sudeste asiático. A única imagem que trouxeram de lá foi um desenho a preto e branco da Ansonia latidisca, o nome científico do sapo.

“Descobertas excitantes como este sapo lindíssimo, e a importância enorme dos anfíbios para os ecossistemas saudáveis, são o que nos motivam para continuarmos à procura de espécies perdidas”, disse em comunicado Indraneil Das, cientista da Malásia, que liderou a equipa.

A aventura começou depois da International Conservation ter lançado uma campanha para a procura mundial das espécies de anfíbios que não são vistos há mais de dez anos. O sapo-arco-íris-de-bornéu (tradução livre do nome comum em inglês) estava na lista Top 10 das rãs mais procuradas.

A equipa de Das tentou a sorte. Em Agosto do ano passado, os cientistas foram para uma região montanhosa na região ocidental da ilha de Bornéu, na fronteira entre a província de Sarawak na Malásia, e a província Kalimantan, que já pertence à Indonésia.

A equipa de Das andou meses à procura do sapo depois de o anoitecer, por altitudes superiores a 1300 metros, numa região que, segundo a CI, foi pouco explorada no último século. A equipa foi para zonas cada vez mais altas ao longo do tempo. Finalmente, uma noite, o cientista Pui Yong Min encontrou o sapo numa árvore, dois metros acima do solo. Tinha as patas compridas e finas, pele enrugada pintada de várias cores.

“Ver a primeira fotografia de uma espécie perdida há quase 90 anos desafia o que se acredita. É bom saber que a natureza consegue surpreender-nos quando estamos quase a perder a esperança, especialmente com o escalar da extinção de espécies”, disse em comunicado Robin Moore, especialista em anfíbios da CI, que lançou o projecto da procura dos anfíbios, e recebeu num e-mail enviado por Das, a notícia da descoberta e a fotografia do sapo.

Ao longo dos dias, a equipa encontrou mais dois indivíduos desta espécie. Ao todo, foram vistos e medidos uma fêmea, um macho e um juvenil, que tinham respectivamente entre 5,1 e três centímetros de comprimento. Os três anfíbios foram todos encontrados em árvores.

“A natureza ainda guarda segredos preciosos que estamos a descobrir, é por isso que a protecção e a conservação são tão importantes. Os anfíbios são indicadores da saúde do ambiente, o que tem implicações directas para a saúde humana. Os seus benefícios não devem ser subestimados”, disse Indraneil Das.