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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Alterações climáticas poderão levar à substituição da batata pelas bananas e da soja pelo feijão-frade


O planeta está a aquecer e as batatas só conseguem crescer em climas mais frios. Além disso, são susceptíveis aos humores incertos do clima, que se acentuarão ainda mais com o aquecimento global: a alternância entre cheias e secas. O que irá então acontecer a esta fonte de alimento essencial para milhões de pessoas?

Num relatório do Grupo Consultivo Internacional sobre Investigação Agrícola (CGIAR), esta parceria de organizações envolvidas na investigação na agricultura para o desenvolvimento sustentável defende que o aumento da temperatura poderá reduzir a produção de batatas, um alimento que actualmente constitui a quarta maior colheita do mundo. Mais de metade das plantações de batatas situam-se nos países em vias de desenvolvimento. Deste modo, seriam as populações que já têm poucos recursos alimentares a sofrer mais com esta consequência.

Por sua vez, no estudo refere-se que o clima mais quente poderá aumentar a produção de bananas, porque essas condições reduzem o tempo entre a plantação e a colheita. As bananas poderão até crescer em locais onde há várias gerações têm sido cultivadas batatas, lê-se no relatório. O crescimento do fruto em altitudes mais elevadas é também uma previsão.

Realizado a pedido do Comité de Segurança Alimentar Mundial da Organização das Nações Unidas, este relatório foi elaborado por grupo de especialistas que olhou para os efeitos projectados sobre as alterações climáticas em 22 das mais importantes colheitas agrícolas no mundo.

Mas a mudança na dieta alimentar não fica por aqui. O arroz, o milho e o trigo, as três maiores colheitas do mundo em termos obtenção de calorias, também podem diminuir em muitos países em vias de desenvolvimento. O relatório aponta o trigo como a mais importante fonte de proteínas de origem vegetal e de calorias do mundo. Mas, de acordo com esta investigação, a alimentação enfrentará grandes dificuldades nos países em desenvolvimento. Os preços altos para o milho, algodão e soja empurram o trigo para terras marginais, tornando-o mais vulnerável às pressões resultantes das alterações climáticas. Um substituto poderá ser a mandioca, especialmente no Sul da Ásia, pois é tolerante às pressões introduzidas pelo clima.

Além da mandioca, o feijão-frade também poderá vir a ter uma importância alimentar acrescida, à medida que aumentarem as temperaturas. Conhecido na África subsariana como “a carne dos pobres”, o feijão-frade é tolerante à seca, preferindo até um clima mais quente. Deste modo, pode ser uma alternativa razoável para a soja, que é uma das fontes mais comuns de proteína na nossa dieta, mas é muito sensível às mudanças de temperatura.

Uma coisa é certa, à medida que os efeitos das alterações climáticas se agudizarem, as populações terão de se adaptar a alimentos que antes nem consumiam e refazer a sua dieta. 

Informação retirada daqui:
https://www.publico.pt/ciencia/ecosfera

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Notícia - Chimpanzé de Zoo na Suécia ajuda a mostrar que os animais são capazes de fazer planos

A história quase que vale só por si. No jardim zoológico Furuvik, a norte de Estocolmo, na Suécia, o chimpanzé Santino terá planeado centenas de ataques aos visitantes. O animal recolhia pedras e pedaços de cimento que guardava e que, mais tarde, lançava às pessoas. A agressão premeditada serviu para provar que estes animais são capazes, como os seres humanos, de planear futuros acontecimentos. Um grupo de investigadores na Suécia usou o caso de Santino para o artigo que publicou na edição de ontem da "Current Biology".

Terão sido os cuidadores de Santino no jardim zoológico que detectaram o comportamento estranho. Antes da abertura, de manhã cedo, o chimpanzé recolhia pedras no seu recinto. Santino estava calmo e conseguia reunir uma quantidade razoável de munições. Os ataques só aconteceriam horas mais tarde e, nessa altura, Santino já estava num estado bem mais agitado. A história serviu para Mathias Osvath, cientista da Univerisdade de Lund, demonstrar que estes animais são capazes de prever acontecimentos, um dado que ainda não tinha sido possível provar.

Há outros dados que reforçam a teoria da premeditação como, por exemplo, o facto de Santino não ter este tipo de comportamento na altura do ano em que o zoo está fechado. O chimpanzé terá mesmo desenvolvido uma técnica para fazer "descolar" pedaços de cimento que depois eram usados como arma de arremesso. Este tipo de planeamento de acção pressupõe uma complexa forma de consciência em primatas, nomeadamente a que permite distinguir entre a informação fornecida pela memória e a que é fornecida pelos sentidos. Os investigadores acreditam que estes estados de consciência podem ser encontrados noutros chimpanzés e mesmo noutras espécies animais como os golfinhos.
Público

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Austrália cria a maior rede mundial de parques marinhos


A Austrália criou esta sexta-feira a maior rede mundial de parques marinhos, com mais do dobro da área da União Europeia.

São 2,3 milhões de quilómetros, repartidos por diferentes áreas ao largo da costa ao redor do país, incluindo uma vasto perímetro no Mar de Corais, que circunda a Grande Barreira de Recifes.

Nas áreas mais sensíveis agora classificadas, a exploração de petróleo e de gás, bem como a pesca comercial, serão limitadas. O objectivo é proteger a biodiversidade. “Não queremos que as pessoas saibam o quão magnífico são os nossos oceanos através de aquários ou assistindo ao “À Procura de Nemo”, disse o ministro australiano do ambiente, Tony Burke.

A decisão não foi bem recebida pela indústria pesqueira e também pelo sector da pesca desportiva, que também será interdita nalgumas áreas.

O Governo argumenta, no entanto, que as novas reservas marinhas irão afectar apenas um por cento da pesca comercial e que a maioria dos usos recreativos – como os mergulhos – será permitida.

Informação retirada daqui: https://www.publico.pt

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Notícia - Mini-invasão de gaivotas polares na costa portuguesa

Desde o início de Janeiro os amantes da observação de aves têm sido saudados por uma visita rara de gaivotas polares. As espécies avistadas - a gaivota hiperbórea (Larus hyperboreus) e a gaivota polar (Larus glaucoides) – não foram muitas (7 a 8 gaivotas de cada espécie), mas isso bastou para pôr em polvorosa os ornitólogos profissionais e amadores: em cada ano só uma ou duas gaivotas perdidas do bando sobrevoam terras portuguesas.

Ainda não há explicação científica para esta anormal mini-invasão, mas Gonçalo Lobo Elias, um engenheiro electrotécnico apaixonado pela observação de aves, arrisca uma explicação. “A vaga de frio que tem atacado o norte da Europa pode ter obrigado as gaivotas a deslocar-se para sul e as tempestades no mar podem tê-las empurrado para a costa”, supõe.

Até agora, Gonçalo Lobo Elias, que é também um dos coordenadores do site Aves de Portugal (www.avesdeportugal.info), sabe que estas gaivotas vindas da Gronelândia, Islândia e Noruega foram vistas um pouco por toda a costa do país: em Peniche, na linha de Cascais, na zona ribeirinha de Lisboa e no Algarve.

De todos os locais os observadores de aves que estão associados ao site têm enviado fotografias e alertado a presença destas visitantes inesperadas. E também em Espanha estas gaivotas polares foram vistas, o que reforça a ideia de que se trata de um fenómeno anormal. Só de uma terceira espécie, a gaivota – tridáctila (Rissa tridactyla, que só raramente é vista em terra), já foram observadas centenas desde que se instalaram temporais na costa espanhola.

Para quem queira dar uma espreitadela nas praias e arriscar encontrar estas gaivotas, basta observar a coloração das penas. Ao contrário das gaivotas a que estamos habituados (as gaivotas argêntias (Larus michahellis) ou as gaivotas de asa escura (Larus fuscus)), as gaivotas polares são totalmente brancas. E para distinguir as duas espécies o tamanho é a única diferença: as gaivotas – hiperbóreas, para além de totalmente brancas, são também maiores.


Patrícia Silva Alves

domingo, 1 de outubro de 2017

Notícia - A longa viagem de Darwin para provar que os humanos são todos da mesma espécie

Foi já no fim da sua viagem marítima de cinco anos à volta do mundo, no navio da Real Marinha Britânica HMS Beagle, que Charles Darwin ouviu um grito que não deixou de ouvir toda a vida. Foi na zona de Pernambuco, no Brasil. "Ouvi os gemidos mais inspiradores de pena, e só posso suspeitar que algum pobre escravo estivesse a ser torturado", relata no seu Journal, o diário de viagem a bordo do Beagle.

Se Darwin não viu o que se passou dessa vez, tinha já visto muitos exemplos da forma como os escravos eram tratados no Brasil. "Perto do Rio de Janeiro vivi frente a uma velha senhora que tinha um instrumento para esmagar os dedos das suas escravas. E fiquei numa casa onde um jovem mulato era insultado, espancado e perseguido todos os dias e todas as horas. Era o suficiente para quebrar o espírito até do animal mais baixo", escreveu no mesmo livro. "Agradeço a Deus por nunca mais ter de visitar um país esclavagista", concluía.

Darwin, antiesclavagista? Não é essa a história que costumamos ouvir contar sobre o homem que desenvolveu a teoria da evolução das espécies através da selecção natural. Mas esse é o foco de um novo livro lançado no Reino Unido, poucos dias antes de se comemorar, hoje, o nascimento de Charles Darwin – 12 de Fevereiro de 1809, o mesmo dia em que nasceu Abraham Lincoln, o Presidente dos Estados Unidos ligado à luta pela abolição da escravatura.

Darwin's Sacred Cause – Race, Slavery and the Quest of Human Origins (em tradução literal, A Causa Sagrada de Darwin – Raça, Escravatura e a Busca das Origens Humanas) foi escrito por Adrian Desmond e James Moore, também autores de uma biografia de Charles Darwin. Desta vez analisam o meio cultural e familiar do homem que se tornou um herói da ciência.

Quando Darwin publicou o livro que o transformou num ícone da ciência moderna – Sobre a Origem das Espécies através da Selecção Natural (tradução literal da obra publicada em Portugal pela D. Quixote com o título A Origem das Espécies) –, propondo um mecanismo natural como o motor da evolução, em 1858, discutia-se se os seres humanos seriam apenas uma espécie única, em todo o mundo, ou se negros, asiáticos e demais tipos humanos eram espécies separadas. A visão de um mundo em que cada espécie foi criada autonomamente, no local onde se encontra hoje, estava a vingar nos Estados Unidos – e favorecia a política esclavagista, que em breve viria a desencadear a Guerra Civil Americana (1861-1865).

Se negros e brancos fossem de facto espécies separadas, e não apenas diferentes raças, poder-se-ia justificar a visão do mundo dos supremacistas brancos, como os proprietários de plantações no Sul dos Estados Unidos. O homem branco era visto como o pináculo da criação. E os negros como criaturas inferiores, naturalmente destinados a servirem o homem branco. A ciência em que se baseavam estas ideias partia de coisas como o estudo de crânios – para analisar as suas mossas, que revelariam a dimensão dos vários órgãos do cérebro, como o da justiça ou da consciência – e o tamanho dos cérebros.

Havia algumas gradações nesta escola antropológica americana. Samuel Morton, que era apenas uma década mais velho que Darwin e tinha passado pela Universidade de Edimburgo, tal como o autor da teoria da evolução, era o expoente da abordagem positivista: não deixava que Deus entrasse nos seus estudos de crânios, cuja capacidade mediu, enchendo-os primeiro com sementes de mostarda e depois com bolinhas de chumbo. Mas introduziu uma série de desvios estatísticos que distorcia as suas obras monumentais, como Crania Americana, relatava o historiador da ciência e biólogo Stephen Jay Gould no livro A Falsa Medida do Homem (Quasi Edições).

Outros, como o suíço Louis Agassiz, radicado nos Estados Unidos e professor na Universidade de Harvard, introduziam uma dimensão mística no estudo das raças e espécies. Agassiz, que aliás muito irritava Darwin, garantem Desmond e Moore – um dos capítulos do livro chama-se Oh for shame Agassiz, pegando num comentário escrevinhado por Darwin –, acreditava que a vida na Terra tinha sido recriada muitas vezes, depois de cataclismos cíclicos. Mas não tolerava a ideia de que as espécies se fossem transformando, evoluindo e espalhando pelo mundo. "Embora tivesse havido uma sucessão de tipos 'mais elevados', dos peixes aos humanos, explicava-os como a revelação dos pensamentos de Deus – não havia ligações materiais ou evolutivas entre um fóssil e outro, relacionavam-se apenas através da Mente Divina, que criava miraculosamente cada nova espécie", escrevem Desmond e Moore.

Darwin, entre o seu regresso da viagem do Beagle, em 1836 (tinha apenas 22 anos quando ela começou), e o casamento com a prima Emma Wedgwood, em 1839, encheu muitos caderninhos de notas sobre a sua convicção cada vez maior de que as espécies "se transmutavam" – mudavam, ao longo dos tempos, transformando-se noutras, espalhando-se pelo mundo. Em apontamentos telegráficos reflectia sobre os possíveis mecanismos para explicar que as espécies não eram fixas, imutáveis.

Esta ideia da "transmutação" das espécies já andava a germinar na cultura europeia há décadas, embora sem que ninguém tivesse proposto um mecanismo convincente. Mas não era propriamente senso comum, e Darwin manteve-se calado, reflectindo, fazendo experiências – construindo a sua reputação, e sofrendo com o fervilhar de ideias que tinha dentro de si. Porque ele, que acreditava na unidade da espécie humana, apesar de todas as suas variações, tinha uma ideia herética: acreditava na unidade de todas as espécies, que foram evoluindo e transformando-se a partir de um antepassado comum.

Esta crença na unidade da espécie humana era sustentada pela sua vivência familiar, entre as famílias Darwin e Wedgwood, que se casaram várias vezes entre si. Ambas eram activistas na luta pela abolição do comércio de escravos, primeiro, e depois pela abolição da escravatura. Os Wedgwood, fabricantes de louça, criaram um medalhão que se tornou o símbolo dessa luta – um negro de joelhos e com correntes, com a inscrição "Não serei eu um homem e vosso irmão".

Na sua viagem de cinco anos no Beagle, Darwin contactou muitas vezes com escravos, negros e mulatos. Destes últimos duvidava-se que pudessem até ter filhos, como as mulas, que resultam do cruzamento de espécies diferentes, de cavalos e burros. Mas a ele não lhe faziam confusão nenhuma. "Nunca vi ninguém tão inteligente como os negros, especialmente as crianças negras ou mulatas", escreveu depois de chegar à Praia, em Cabo Verde, a primeira paragem da viagem do Beagle, iniciada a 27 Dezembro de 1831.

E também viu muitos índios sul-americanos, representantes das tribos de aparência primitiva com que os europeus da época se confrontaram, muitas vezes em encontros inéditos – foi o momento em que os exploradores europeus começaram a chegar mesmo a todos os cantos da Terra.

O caminho pelo qual chegou à prova de que as espécies podem de facto espalhar-se pelo mundo e mudar, ao longo dessa viagem, acabou por incluir pombos e sementes postas a marinar em água salgada.

Para estas experiências, durante a década de 1850, conseguiu mobilizar a sua enorme rede de correspondentes em todo o mundo, e também o apoio da estrutura consular e comercial do Império Britânico – aquele onde o Sol nunca se chegava a pôr, de tal forma era grande. Mandavam-lhe sementes e peles de ossos de pombo, de variedades locais, para ele estudar. E foi a irritação que as ideias de Agassiz lhe despertavam que o levou a lançar-se nesta aventura, defendem Desmond e Moore.

O que lhe interessava era mostrar que as espécies se modificam – e podem ser modificadas pela acção do homem, que pode simplesmente gostar de pombos com a cauda mais larga ou o bico mais curto, sem que crie espécies novas. E provar que as espécies animais e vegetais podiam viajar pelo mundo, adaptando-se localmente. Para tal, demonstrou que a água salgada não matava as sementes, como toda a gente admitia (sem provas experimentais), e que portanto podiam fazer longas viagens por mar e germinar numa nova terra.

Com estas experiências, Darwin demonstrou os mecanismos da transmutação das espécies – a evolução através da selecção natural. E também de um outro factor, o da selecção sexual: as fêmeas preferem certas características nos machos, que podem não ter valor evolutivo, mas são passadas à geração seguinte. O mesmo mecanismo pode explicar que existam homens negros e brancos, se cada cor preferir ter como parceiro sexual alguém com a mesma tonalidade de pele.

Da origem e dispersão das espécies Darwin colheu uma farpa que apontou ao coração do racismo, que ganhava expressão durante a década de 1850, nos Estados Unidos mas não só. Só que, em 1858, Darwin tinha pressa de publicar – por causa da carta que recebeu de Alfred Russel Wallace, um jovem naturalista que estava na Indonésia e que lhe enviou as suas reflexões sobre a origem e transformação das espécies que tanto se assemelhavam à sua própria teoria, desenvolvida ao longo de duas décadas. Por isso, acabou por deixar a evolução humana de fora de A Origem das Espécies.

Entendia-se que nessa obra ele colocava a humanidade em pé de igualdade com os outros animais. Mas Darwin sentia que precisava de mais provas, de ser verdadeiramente esmagador, para falar sobre a evolução humana, num momento em que a campanha dos que viam os negros como uma espécie separada era tão forte, e em que a ameaça de guerra nos EUA estava a agigantar-se.

Cartas e outros escritos mostram que Darwin tinha esperança que Charles Lyell, o seu mentor científico, o ajudasse, falando da evolução humana no livro que estava a preparar sobre o tema. Mas Lyell tinha dificuldade em aceitar que o homem branco fosse retirado do pináculo da evolução e até algumas simpatias pelos plantadores do Sul dos EUA (embora não propriamente pela escravatura), e não conseguia dar esse passo.

Só anos mais tarde, em 1871, já depois de ter terminado a guerra nos EUA, Darwin ganhou coragem para publicar o livro em que fala mesmo sobre a evolução humana – A Ascendência do Homem, e Selecção relativamente ao Sexo (não disponível em edição portuguesa). Nele expõe então a sua teoria da selecção sexual, para explicar as diferenças que criam as raças.