Páginas

terça-feira, 9 de maio de 2017

Notícia - Afinal, o “gene da longevidade” não existe

A investigação de Filipe Gomes Cabreiro foi publicada na Nature e destrói a relação íntima que se pensava existir entre as sirtuínas e a longevidade. Cai por terra também a ideia abraçada pelo mundo dos cosméticos que o resveratrol (produto natural encontrado no vinho tinto) é capaz de hiperactivar esta enzima, perdendo assim os seus super poderes no atraso do processo de envelhecimento. O investigador português a trabalhar no University College London (UCL) participou no estudo que poderá ser a machadada final no conceito criado no século XXI da existência do chamado “gene de longevidade”.

Os primeiros resultados divulgados sobre as sirtuínas (por Sinclair e Guarente) referiam que a sua sobre-expressão era capaz de aumentar a longevidade e também que estas eram necessárias para os efeitos de restrição calórica [capaz de atrasar o envelhecimento].

Por outro lado, demonstravam também que o resveratrol activava as sirtuínas e, consequentemente, aumentava a longevidade. Tudo isto foi comprovado primeiro no modelo da levedura e, mais tarde, em vermes (C. elegans) e moscas (Drosophila). No caso do verme sustentava-se mesmo que a activação de sirtuínas podia levar estes a viver 50 por cento mais tempo. O popular gene das sirtuínas acabou por ficar conhecido como “gene da longevidade”, tal era o seu promissor potencial.

Porém, o trabalho de outros grupos de investigação fez perceber que, afinal, as sirtuínas não eram necessárias para o desejado efeito de restrição calórica na levedura e que não era claro que o resveratrol activasse as sirtuínas. O castelo de cartas começava a cair. Outras investigações feitas mais tarde provaram também que o resveratrol não aumentava a longevidade nos vermes ou nas moscas e que as sirtuínas não eram necessárias para a restrição calórica nos vermes. Mais um ataque ao conceito inicialmente proposto.

Agora, o trabalho apresentado por Filipe Gomes Cabreiro na Nature – com colegas da UCL, da Universidade de Washington (Seattle), e da Universidade de Semmelweis (Budapeste) - acaba por destruir o pouco que restava. “Mostramos que de facto a manipulação deste gene não promove a longevidade quer da mosca quer do verme, que o resveratrol não activa a sirtuínas da mosca e que as sirtuínas não são necessárias para a restrição calórica nestes organismos”, resume o investigador ao PÚBLICO, numa resposta por email.

Assim, a única informação que parece ainda permanecer de pé é que a sobre-expressão desta enzima aumenta a longevidade na levedura. “Contudo, estudos recentes não publicados mostram que a sobre-expressão desta enzima aumenta a longevidade apenas da levedura (Budding yeast) mas não da Fission Yeast (que possui processos biológicos mais semelhantes aos processos humanos)”, explica Filipe Cabreiro.

Ao longo dos últimos anos, as sirtuínas tornaram-se num “produto” muito apetecível. Aliás, a empresa ligada a esta descoberta foi comprada em 2003 pela farmacêutica Glaxo SmithKline por 720 milhões de dólares. O objectivo seria o desenvolvimento de produtos anti-envelhecimento e drogas que prevenissem doenças associadas ao envelhecimento, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares e mesmo cancro.

O alegado papel do resveratrol também tem sido explorado (no mundo dos cosméticos, por exemplo). Vários cremes anti-envelhecimento foram lançados no mercado contendo o produto natural encontrado no vinho tinto e supostamente um activador das sirtuínas. É o fim deste negócio? “O envelhecimento é multi-factorial. Assumir a ideia vendida por estes papers que existia um único gene capaz de controlar o envelhecimento era de facto muito simplista. Este estudo, conjuntamente com os anteriores põe de facto em causa todos os produtos que tinham como alvo as sirtuínas de forma a retardar o envelhecimento. Não só as sirtuínas não têm nenhum efeito na longevidade como para além disso o resveratrol, apesar de ter benefícios, não activa as sirtuínas. Contudo, não excluímos que o resveratrol tenha outros benefícios, mas estes não são mediados pelas sirtuínas e mesmo que fossem estas não teriam o efeito desejado e esperado com base nas anteriores descobertas”, responde Filipe Cabreiro.

domingo, 7 de maio de 2017

Notícia - Cavalheiros cientistas

Quando (quase) ainda não havia profissionais

Ricos e filantropos, investigavam por puro prazer. Sem eles, o progresso teria sido muito diferente. Na segunda metade do século XIX, um jovem escocês, Robert Kidston (1852–1924), herdou uma boa quantia, o que lhe permitiu viver sem dificuldades e pagar os seus estudos de paleontologia e posterior investigação sobre a flora arcaica. Após a sua morte, a colecção de 7500 plantas e 400 desenhos que deixara foi doada à British Geological Survey (BGS), instituição dedicada ao estudo da Terra. Ali permaneceu, semi-esquecida, até que alguém se apercebeu, recentemente, que esses fósseis de 360 milhões de anos, em excelente estado de preservação, constituíam uma valiosa ferramenta para analisar as alterações climáticas e as florestas paleozóicas.

A importância do legado de Kidston é equiparável à de outros gentlemen scientists, cavalheiros abastados que se dedicaram à investigação simplesmente como hobby. A verdade é que muitos cientistas dos séculos XVII, XVIII e XIX, aos quais devemos grandes descobertas em diversos campos, puderam consagrar a vida ao estudo por descenderem de famílias nobres ou terem casado com mulheres ricas, numa época ou que não havia apoios económicos dos governos para esse fim. Quase todos pertenciam à aristocracia britânica e faziam parte, como o próprio Kidston, da Royal Society, uma associação formada em Londres, em 1660, por um grupo de homens irrequietos que se reuniam para debater filosofia, anatomia, matemática e ciência em geral.

Entre os fundadores, havia personalidades como William Brouncker ou Sir Christopher Wren, filho do diácono dos reis de Inglaterra e o arquitecto responsável pela reconstrução da Catedral de São Paulo, em Londres. Integrava também o aristocrata irlandês Robert Boyle (1627–1691), herdeiro do conde de Cork e precursor da química moderna (é conhecido pela lei de Boyle-Mariotte, sobre o volume dos gases). Aos 15 anos, decidira viajar pelo mundo; quando regressou, já com 17 anos, descobriu que tinha herdado a propriedade de Stalbridge e várias quintas na Irlanda, uma autêntica fortuna que consagrou à investigação.

Duas épocas

Os séculos XVIII e XIX foram muito distintos. No primeiro, os grandes estados europeus, guiados pelas noções do despotismo esclarecido, criaram as academias de ciências para acolher a elite da investigação; fundaram observatórios de astronomia, escolas militares, jardins botânicos, hospitais e colégios de cirurgiões e financiaram expedições científicas. O século XIX, em contrapartida, foi o tempo das revoluções burguesas e do desenvolvimento da universidade moderna, que combina ensino e investigação, como explica o historiador E. Ausejo: “O perfil maioritário deixa de ser o do rico excêntrico para se transformar no do burguês abastado com acesso a uma educação superior e, através disso, a uma profissão científica com inegáveis vantagens para a ascensão social das classes médias.”

Esta evolução não obsta a que muitos cientistas proviessem de famílias nobres ou de grandes tradições, como a de Henry Cavendish (1731–1810). O físico e químico inglês, que descobriu o hidrogénio e estudou, pela primeira vez, a massa da Terra e a força gravitacional, descendia dos duques de Kent e dos duques de Devonshire, linhagens que remontam ao tempo dos normandos. Alguns dos gentlemen scientists constituíam uma nova versão dos sábios do Renascimento, cujo raio de acção abarcava numerosas matérias. Foi o caso de Goldsworthy Gurney (1793–1875), cirurgião, químico, arquitecto, construtor e inventor responsável pelo desenvolvimento dos primeiros veículos a vapor, precursores dos actuais automóveis.

Viajar e pensar

Parece óbvio que a condição financeira deve ter ajudado muito esses investigadores aristocráticos e, embora E. Ausejo duvide de que o estereótipo de cientista milionário fosse generalizado (afirma que se trata de “casos pitorescos mas não tão frequentes; a ciência não foi uma obra de senhorios ociosos”), o facto é que a sua fortuna permitiu a alguns, como Alexander von Humboldt (1769–1859), dedicar a vida à exploração e ao estudo. Graças à avultada herança recebida da mãe, este cavalheiro prussiano pôde viajar, primeiro, até à Grã-Bretanha, para se formar, e, depois, partir à descoberta de outros continentes. Humboldt foi geógrafo e naturalista, além de especialista em etnografia, astronomia, vulcanologia, física e outras matérias.

Foi, também, um testamento que mudou a vida do geólogo e vulcanólogo escocês James Hutton (1726–1797), responsável por formular o princípio uniformista, segundo o qual os processos naturais que agiram no passado são os mesmos que operam no presente. Hutton era médico mas trocou a profissão pela agricultura quando herdou uma grande propriedade paterna. Como os trabalhos na quinta iam de vento em popa, mudou-se para Edimburgo para se dedicar a tempo inteiro ao estudo da superficie terrestre.

O laboratório em casa

Outro gentleman scientist foi Charles Darwin (1809–1882). Membro da Royal Society, nunca teve problemas económicos. Pelo contrário, provinha de uma família de médicos com um modo de vida folgado e a abastança cresceu ainda mais quando casou com a prima, Emma Wedgwood, herdeira de uma grande fortuna graças ao negócio de olaria dos pais. Isso permitiu a Darwin trabalhar toda a vida em casa e consagrar-se à investigação e à publicação das suas obras.

O autor de A Origem das Espécies partilhava muitas características com o primo, Sir Francis Galton (1822–1911), homem de múltiplos interesses que se dedicou à geografia, à meteorologia e à estatística, além de explorar os trópicos, fundar a psicologia diferencial e inventar a identificação através das impressões digitais. Galton pertencia a uma família que fez dinheiro com a banca, o aço, as armas e um ou outro casamento com mulheres ricas. Por outro lado, herdou também do passado as inquietações científicas do avô, Samuel ­John, que publicou vários livros e foi membro da Lunar Society, um clube de filósofos e intelectuais que se autodenominavam “lunáticos” e se reuniam em noites de Lua Cheia. Entre eles, encontravam-se James Watt, o matemático e engenheiro escocês que foi o artífice da máquina de vapor, e Erasmus Darwin, avô de Charles e pioneiro do evolucionismo.

A botânica foi uma das disciplinas que mais atraíram os investigadores do século XIX, como o londrino Joseph Banks (1743–1820). Rico de nascença, acompanhou Cook na sua primeira grande viagem, entre 1768 e 1771, e introduziu na Europa muitas árvores e plantas desconhecidas até à data, como o eucalipto e a acácia.

O estudo do reino vegetal desenvolveu-se igualmente em Portugal durante o Século das Luzes, quando a ciência estava nas mãos de uma minoria culta, formada por nobres, diplomatas, homens da Igreja... Durante esse perío­do fértil do século XVIII, o conde da Ericeira promoveria as Conferências Discretas e Eruditas, de onde saíram sócios para criar a Academia da Ciência (1720); o rei D. José adere ao movimento do despotismo esclarecido e apoia o marquês de Pombal na instituição do Colégio dos Nobres e na criação de gabinetes, laboratórios e museus. Já no século XIX, é criado o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, por iniciativa do conde de Ficalho e de Andrade Corvo, considerado um “moderno e útil complemento para o ensino e investigação botânicos na Escola Politécnica, símbolo dos novos rumos de progresso social e científico”.

Eclosão vegetal

Embora Francisco Manuel de Mello Breyner, o conde de Ficalho, se tivesse destacado como botânico e se enquadre no perfil de gentleman scientist, outros nomes conhecidos da botânica portuguesa talvez tivessem nomes menos sonantes ou não pudessem dispor de tantos recursos, mas a sua obra foi igualmente importante, como é o caso, entre outros, de Avelar Brotero (1744–1828), professor de botânica e agricultura na Universidade de Coimbra e autor de obras como Flora Lusitânica, na qual identificava cerca de 1800 espécies, muitas delas desconhecidas até então. Em sua honra, foi fundada a Sociedade Broteriana, agremiação científica que viria a exercer grande importância no desenvolvimento da botânica portuguesa através do seu Boletim.

Outro indiscutível cavalheiro da ciência foi o abade Correia da Serra (1750–1823), que se dedicou sobretudo à investigação nas áreas da botânica e da geologia e fundou, juntamente com o duque de Lafões, a Academia de Ciências de Lisboa. De grande prestígio intelectual, conviveu com os maiores cientistas da sua época e publicou trabalhos nas mais conceituadas revistas, tendo mesmo sido descrito pelo presidente Thomas Jefferson, dos Estados Unidos, como “o homem mais erudito que jamais conheci”. Com o prestígio e os conhecimentos que possuía no exterior, este presbítero secular e fidalgo da Casa Real ajudou o país a desenvolver a investigação e a mentalidade científicas, num esforço para Portugal não ficar completamente para trás em termos europeus.

Claro que, apesar disso, tudo era feito de modo muito mais modesto do que, por exemplo, no Reino Unido. Os meios eram incomparavelmente menores e reinava a precariedade. A “descolagem” científica apenas se verificaria mais de um século depois. Seja como for, muitos investigadores europeus dos séculos XVIII e XIX eram amadores que se dedicavam à ciên­cia por diversão, embora ganhassem a vida noutras profissões. O próprio Darwin era um jovem cientista amador quando embarcou no HMS Beagle; o primeiro microscópio composto foi inventado por Zacharias Janssen, um mercador holandês e cientista amador, e há muitos outros exemplos.

Colecções e museus

Em Portugal (como noutros países), há diversos exemplos de grandes coleccionadores cujas obras de arte e objectos reunidos ao longo da existência deram origem à criação de museus baptizados com os seus nomes: é o caso do Museu Calouste Gulbenkian ou, mais recentemente, do Museu Berardo, ambos si­tuados em Lisboa. Tanto um como outro podem ser considerados mecenas das artes.
Os belgas Paul Otlet (1868–1944) e Henri La Fontaine (1854–1943), filhos de famílias da alta burguesia, foram também grandes coleccionadores. Juntos, criaram a classificação decimal universal, método bibliográfico para ordenar e catalogar as obras nas bibliotecas, além do Mundaneum, um espaço que reuniria todo o saber em pequenas fichas interligadas. Otlet foi um visionário que antecipou a internet: “A mesa de trabalho deixará de estar cheia de livros. Em vez disso, terá um ecrã e um telefone. Um edifício imenso servirá para armazenar todos os livros e toda a informação e, através de uma chamada, será possível pedir qualquer página para se poder ver no ecrã”, escreveu. O belga imaginou “uma máquina para o trabalho intelectual, suporte de uma enciclopédia completa e colectiva que possa reflectir o pensamento humano e a materialização gráfica de todas as ciências e as artes; todos os pensadores de todas as épocas estariam a colaborar na sua criação; esse novo meio vai permitir formar um Livro Universal”. Uma obra assim acolheria o trabalho de todos os cavalheiros da ciência.

Altruístas do século XXI

Actualmente, não há muitos cientistas a trabalhar exclusivamente por amor à ciência, mas ainda resta um ou outro. De acordo com Millán Muñoz, director do Centro de Estudos Ambientais do Mediterrâneo (CEAM), um deles é Robert Schemenauer, um meteorologista canadiano que, após trabalhar durante anos para o Governo do seu país, decidiu retirar-se para uma casa nas montanhas. Ali, desenvolveu um sistema de recolha de água do nevoeiro e neblinas com uma rede de polipropileno (semelhante ao nylon), capaz de captar e armazenar a humidade. Depois, fundou a FogQuest (http://www.fogquest.org), organização sem fins lucrativos destinada a promover projectos para abastecer de água comunidades rurais de países em vias de desenvolvimento. Algumas povoações do planalto sul-americano e de vários paí­ses africanos já dispõem de água potável graças a esta técnica.



J.M.D./I.J.
SUPER 152 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Notícia - Bactérias que comem arsénio podem levar a NASA a descobrir vida noutros planetas


A janela com que procuramos vida no Universo acabou de aumentar depois de uma equipa de cientistas encontrar pela primeira vez uma bactéria que se alimenta de arsénio. A descoberta é publicada hoje na edição online da revista Science e amanhã na edição impressa, e é o mistério que a NASA revela na sua conferência de imprensa. As bactérias foram encontradas num lago salgado na Califórnia (Science).

Toda a vida que se conhece é construída com base em seis elementos: o carbono, o oxigénio, o hidrogénio, o azoto, o enxofre e o fósforo. São estes átomos que fazem as moléculas de ADN, as proteínas, as gorduras que compõem as células dos animais, das plantas, dos fungos e das bactérias.

Quando se olha para fora do planeta Terra para encontrar vida, os cientistas têm o hábito de procurar por ambientes que podem disponibilizar estes elementos. “A vida como a conhecemos necessita de alguns elementos e exclui outros”, disse Arial Anbar, um dos autores do artigo, da NASA. “Mas serão estas as únicas opções? Quão diferente é que a vida pode ser?”, questionou o cientista, citado num comunicado de imprensa.

A descoberta feita por Felisa Wolfe-Simon, primeira autora do artigo, que trabalha no Instituto de Astrobiologia da NASA, responde esta pergunta. O artigo começa por explicar que existem seres vivos que conseguem substituir átomos específicos de moléculas raras por outros que têm propriedades semelhantes. Como por exemplo, alguns artrópodes que têm cobre em vez de ferro no seu sangue.

A cientista tentou verificar esta possibilidade com um dos seis elementos principais – o fósforo. Este átomo, que compõe a estrutura do ADN e é importantíssimo para a composição de proteínas e gorduras, poderia ser substituído pelo arsénio, um átomo maior, altamente venenoso, mas que está exactamente abaixo do fósforo na coluna da Tabela Periódica, o que indica que tem muitas propriedades semelhantes.

“Nós pusemos não só a hipótese que sistemas bioquímicos análogos aos que conhecemos hoje poderiam utilizar arsénio com a função biológica equivalente ao fosfato”, explicou em comunicado Wolfe-Simon, “mas também que estes organismo tivessem evoluído no início da Terra e pudessem persistir até hoje em ambientes invulgares.”

Para isso, a astrobióloga foi até ao lago Mono na Califórnia, rico em arsénio, para retirar amostras de sedimentos com populações de bactérias. No laboratório, colocou estas amostras numa cultura rica em arsénio e sem nenhum fósforo. Ao final de algum tempo verificou que tinha bactérias a crescer.

A estirpe que cresceu chama-se GFAJ-1 e pertence à família das bactérias Halomonadaceae. Apesar de crescer melhor em ambientes com fósforo, a equipa fez vários testes e encontrou provas que o arsénio foi incorporado no ADN e nas proteínas.

“Este organismo tem uma capacidade dupla. Pode crescer tanto com fósforo como com arsénio. Isso torna-o muito peculiar; no entanto [esta bactéria] está longe de ser uma verdadeira forma de vida alienígena que deriva de uma árvore diferente da vida”, explicou Paul Davies, um dos autores do artigo e físico teórico, grande interessado em astrobiologia, director do BEYOND Centro para os Conceitos Fundamentais de Ciência, da Universidade do Arizona, acrescentando que esta descoberta pode ser a ponta de um iceberg de diferentes tipos de vida que até agora a comunidade científica não prestou atenção.

Segundo Felisa Wolfe-Simon, o mais importante é que estes resultados voltam a lembrar a flexibilidade da vida. “Esta história não é sobre o arsénio ou sobre o lago Mono”, explicou. “Se existem seres aqui na Terra que podem fazer algo tão surpreendente, o que é que a vida ainda pode mostrar que nós não vimos?”

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Notícia - Caça ao cogumelo



Enquanto crianças, fascinam-nos como abrigos de fadas e duendes; mais tarde, continuam a seduzir-nos como deliciosas iguarias. O biólogo Jorge Nunes revela o mundo dos cogumelos silvestres e conta-nos como o património micológico português tem vindo a ser progressivamente delapidado.

Os cogumelos silvestres encontram-se um pouco por todo o lado, sendo mais comuns nas florestas e nos prados. Quase esquecidos durante grande parte do ano, com a chegada das primeiras chuvas, estes curiosos organismos voltam a brotar do manto de folhas mortas e a merecer a nossa atenção. À cata deles surge sazonalmente uma multidão incógnita de apanhadores que os vai saqueando sem qualquer respeito pela propriedade alheia, pelas mais elementares regras de colheita e pelas normas básicas de segurança alimentar que recomendam um adequado conhecimento das espécies comestíveis e venenosas, o que, como têm demonstrado as inúmeras notícias que se repetem anualmente, nem sempre acontece. Enquanto uns os colhem indiscriminadamente, outros há que lhes têm medo e se recusam a tocar-lhes ou a comê-los.

Embora para a maioria das pessoas os cogumelos não passem de pequenas flores coloridas, na verdade, por detrás das suas curiosas formas e atraentes cores, escondem-se fascinantes seres vivos, que pouco ou nada têm a ver com as plantas, às quais eram associados até há bem pouco tempo.

Desde a Antiguidade que as diferenças dos cogumelos (e dos fungos em geral) relativamente às restantes espécies vegetais foram salientadas por alguns naturalistas, como Teo­frasto (370–287 a.C.), que os considerava “plantas imperfeitas”, uma vez que não apresentavam raízes, folhas, flores ou frutos. Com o passar dos séculos, as evidências dessas dissemelhanças foram-se acentuando e avolumaram-se, em resultado dos trabalhos de vários investigadores, nomeadamente do sueco Elias Fries (1794–1878), considerado o pai da micologia, a ciência que estuda os fungos. No entanto, só em 1969 é que Whittaker propôs a separação, já demasiado óbvia, das plantas e dos fungos em dois reinos distintos: Plantae e Fungi. Este reino à parte inclui membros tão diversos como os cogumelos, as leveduras (usadas, por exemplo, no fabrico do pão e na fermentação de vários produtos alimentares, como o vinho e a cerveja) e os bolores (tão bem conhecidos das donas-de-casa e utilizados na produção de antibióticos, como a famigerada penicilina).

Ao contrário das plantas, que são capazes de produzir o seu próprio alimento através da fotossíntese, os fungos, tal como os animais, não conseguem fazê-lo, pelo que precisam de o obter no meio onde vivem. Uma outra diferença relativamente às plantas é o facto de as células fúngicas possuírem paredes celulares com quitina em vez de celulose (um dos principais constituintes das paredes celulares dos vegetais).

O que habitualmente designamos por “cogumelo” é na realidade a pequena parte visível de uns curiosos seres subterrâneos que podem atingir vários quilómetros de comprimento, constituindo os maiores organismos vivos da actualidade. O verdadeiro corpo do fungo, geralmente desconhecido da maioria das pessoas, é constituído por um emaranhado de filamentos escondidos no solo, que compõem no seu conjunto o chamado “micélio”, sendo os cogumelos as suas extremidades reprodutoras, denominadas em linguagem científica por “carpóforos”.

Desengane-se quem possa pensar que eles começam a brotar com as primeiras chuvas de Outono para saciar as requintadas exigências gastronómicas dos humanos. Essas estruturas, onde afinal não moram quaisquer criaturas mágicas, desempenham uma importante função na reprodução do próprio fungo, que, através delas, consegue dispersar os seus preciosos esporos. Estes são células resistentes que podem viajar para muito longe até encontrarem as condições ideais e germinarem, originando novos indivíduos.

Um típico cogumelo do campo, por exemplo, produz cerca de seis biliões de esporos, que podem ser libertados a uma média de cem milhões por hora. Mas existem outras espécies ainda mais profícuas, em que um único cogumelo pode produzir mais de 700 biliões de esporos, que, por terem dimensões microscópicas, são facilmente disseminados pela mais suave brisa através dos quatro cantos do mundo.

Consoante o substrato que utilizam para se fixarem, os cogumelos podem classificar-se em saprófitos, parasitas e micorrizais. Os saprófitos, que vivem sobre a matéria orgânica em decomposição (geralmente folhas, árvores, cadáveres e fezes de animais), desempenham um papel essencial no ciclo de nutrientes. Os parasitas, como o próprio nome indica, parasitam outros seres vivos (animais e plantas), alimentando-se dos nutrientes que absorvem dos seus hospedeiros. Quanto aos micorrizais, são aqueles que subsistem em relação sim­bió­tica (entreajuda com benefício mútuo) com as raízes de algumas plantas (geralmente árvores, como castanheiros, bétulas, pinheiros e carvalhos, entre outros). Neste caso, as plantas (que são seres autotróficos com capacidade de produzir o seu próprio alimento através da fotossíntese) fornecem ao fungo os nutrientes orgânicos (seiva elaborada), e estes, devido ao modo como o micélio se liga às raízes, conferem às plantas a capacidade de expandirem o seu sistema radicular, aumentando a superfície de absorção de água e sais minerais.

Embora se conheçam cerca de 70 mil espécies de fungos, apenas uma pequena parte origina cogumelos como estruturas reprodutoras. No entanto, a sua enigmática beleza e exotismo atraíram desde tempos imemoriais a atenção do homem (a primeira referência a conhecimentos micológicos data de 1200 a.C.), que cedo lhes descobriu importantes propriedades medicinais e culinárias.

Em muitas zonas rurais de Portugal, a apanha de cogumelos silvestres é uma tradição arreigada, sendo uma prática que se repete ano após ano durante o Outono e o Inverno. Antigamente, em tempos de crise económica, estas dádivas da natureza, também conhecidas como “carne dos pobres”, devido ao seu aspecto e sabor a carne quando convenientemente confeccionadas, constituíram valiosos suplementos alimentares para as populações famintas. Porém, parece que cada vez mais esta “carne dos pobres” tem vindo a converter-se em “carne dos ricos”. Na actualidade, já não são apenas as gentes de parcos recursos económicos que valorizam os cogumelos; desde há muito que estes cativaram as classes mais abastadas com os seus odores e paladares inebriantes, constituindo iguarias dignas dos mais requintados menus. 

O mais curioso é que, mesmo com o advento da biotecnologia e com os notáveis desenvolvimentos na produção industrial de cogumelos, continua a ser necessário recorrer à mãe-natureza para encontrar os espécimes mais apetitosos. Na verdade, as espécies cultivadas nunca foram muito apreciadas pelos gastrónomos mais distintos, pois estão longe de possuir a fragrância e o sabor deliciosos que caracterizam as suas congéneres silvestres.

O fracasso do cultivo de muitas espécies selvagens parece explicar-se, entre outras razões, pelo facto de esses cogumelos viverem em simbiose, formando micorrizas, com determinadas plantas de porte arbóreo, o que dificulta a sua lavoura. Assim, apesar dos consideráveis avanços tecnológicos, a recolha de determinadas espécies bravias continua a ser a única forma de fornecer os restaurantes mais requintados e exigentes, que preferem os exemplares selvagens.

A procura crescente e desenfreada de cogumelos na natureza obrigou vários países europeus a tomar medidas que passaram pela criação de uma legislação que regulamentasse o sector, garantindo uma apanha sustentável das espécies micológicas. Dado que Portugal ficou à margem desse processo de preservação dos cogumelos – sem regulamentação e sem fiscalização sobre a apanha e comercialização –, tornou-se, no decurso dos últimos anos, um destino tentador para os apanhadores e comerciantes de cogumelos silvestres.

Como se não bastasse a falta de legislação, uma outra razão parece ter contribuído para o crescente interesse nos cogumelos lusos: o acidente na central nuclear de Chernobil, ocorrido em 26 de Abril de 1986. Esse acontecimento de má memória afectou um grande número de países europeus, com a contaminação radioactiva dos seus cogumelos. Assim, pelo facto de Portugal se localizar bem longe dessa catástrofe ambiental, os nossos cogumelos rapidamente receberam a confiança dos clientes europeus, levando a que a sua colheita tenha disparado repentinamente. Em poucos anos, esta prática assumiu proporções inquietantes, podendo considerar-se, em algumas regiões do país, quase como um atentado ambiental, tendo em conta a forma desregrada como tem sido realizada.

Na preparação deste trabalho, revisitei a Beira Baixa e estive à conversa com duas ex-apanhadoras que conheci em Outubro de 2004, quando as entrevistei a propósito de uma outra reportagem sobre esta matéria. Se na altura já se queixavam de que o intermediá­rio a quem vendiam o produto da safra estava a enriquecer à custa delas e que era “cada vez mais difícil encontrar os cogumelos mais valiosos”, agora fiquei a saber que deixaram definitivamente essa ocupação sazonal. “Não foi por vontade própria”, confidenciaram-me, até porque o pouco dinheiro que ganhavam com os cogumelos somado às parcas pensões rurais “ajudava a pagar as sardinhas, o queijo, o café e o açúcar” que traziam semanalmente da vila. A decisão ficou a dever-se única e exclusivamente a uma razão: “Já não há cogumelos para apanhar!”, afirmaram consternadas.

Em vários países, designadamente em França e Itália, algumas espécies de cogumelos já suplantaram o prestígio do famoso caviar, sendo presença habitual nos restaurantes mais sublimes, onde alguns exemplares podem atingir várias centenas de euros. Por cá, embora os cogumelos ainda não tenham atingido o prestígio parisiense, algumas espécies, de sabor suave e de odor inebriante, não deixam ninguém indiferente. Os espécimes mais afamados que brotam espontaneamente em solo lusitano são, entre muitos outros para os quais não faltam receitas, das mais tradicionais até às mais criativas e requintadas, os míscaros (Boletus edulis), salteados em azeite e alho; os míscaros amarelos (Tricholoma equestre), muito bons guisados; os gasalhos (Macrolepiota procera), deliciosos assados só com sal e azeite ou fritos de cebolada; os rapazinhos (Cantharellus cibarius), dos melhores que podemos colher e adaptados a vários tipos de preparação culinária; as sanchas (Lactarius deliciosus), muito boas grelhadas ou guisadas; os absós (Amanita caesarea), excelentes em cru, para fazer molhos e até em sobremesas; as pantorras (Morchella vulgaris), que, ao contrário dos restantes cogumelos comestíveis, surgem apenas na Primavera e são deliciosas estufadas ou recheadas no forno; e os línguas-de-boi (Fistulina hepatica), que podem ser grelhados, estufados ou guisados.

Tal como acontece com muitos outros organismos, também no caso dos cogumelos as pessoas só atribuíram nomes vulgares aqueles que poderiam ter interesse para o homem, quer pelas suas qualidades culinárias ou medicinais, quer pela sua toxicidade. É muito importante não esquecer que os nomes comuns não são de fiar, pois variam muito de região para região, sendo algumas espécies distinguíveis apenas por especialistas. No caso da espécie Macrolepiota procera (bom comestível) é conhecida por "roque", em Chaves, por "frade", em Freixo de Espada à Cinta, por "centieiro" e "gasalho", na zona do Douro, por "róculo", no Mogadouro, por "marifusa", em Miranda do Douro, por "cogordo", em Monção, e por "gasalho", na Beira Baixa. O mesmo acontece com várias outras espécies, como a Cantharellus cibarius (excelente comestível), que é conhecida por "rapazinhos" em Chaves e por "crista de galo" na região do Gerês; a Lactarius deliciosus (bom comestível) é designada por "sancha" em Chaves, "cardela" na zona do Mogadouro e "telheira" em muitas outras regiões do país; a Tricholoma equestre (bom comestível) é conhecida por "tortulho" em Chaves, "níscaro" em Ovar, "serrobecas" ou "sinchos" na zona de São Pedro do Sul e "míscaros" na Beira Baixa.

Portugal tem sido uma verdadeira galinha-dos-ovos-de-ouro para empresas nacionais e estrangeiras, que colectam a “matéria-prima” para deleite da clientela hollywoodiana de restaurantes chiques por toda a Europa. Assiste-se assim a uma crescente procura para exportação e para consumo interno, dado que os portugueses também têm vindo a (re)descobrir este “manjar dos deuses”.

Contudo, esta insensata delapidação do património micológico português não se deve unicamente à ausência de legislação, mas resulta principalmente de uma grande falta de informação e sensibilização das populações, que têm ficado à mercê de interesses económicos oportunistas. Mesmo sabendo que a maior fatia dos lucros tem ido parar às mãos dos intermediários, que acabam por vender os cogumelos no estrangeiro por três ou quatro vezes mais do que pagam aos colectores, estes não conseguem resistir à tentação de reforçarem os seus módicos rendimentos familiares. Perante o assédio, a única preocupação dos colectores tem sido somente o peso da colheita: quanto mais pesada, melhor!

Uma vez que se trata de um produto da terra que é colhido livremente, fica exclusivamente à consciência de cada apanhador a quantidade recolhida, o tamanho e estádio de desenvolvimento dos exemplares e o modo como são arrancados. Bastaria 
criar um código de conduta e sensibilizar e (in)formar adequadamente as populações para se começar a inverter esta situação. Torna-se urgente esclarecer os colectores, ensinando-os a rentabilizar de forma equilibrada um novo recurso biológico que, apesar de renovável, exige alguns cuidados para evitar a sua rápida extinção.

Neste caso, ao contrário do que acontece com muitas outras espécies de fauna e flora, a preservação dos cogumelos silvestres não passa por proibir a apanha, mas por realizá-la de forma adequada e em conformidade com as características peculiares do ciclo de vida de cada fungo. A apanha sustentável significa garantir, em primeiro lugar, o cumprimento do objectivo reprodutor a que se destinam os cogumelos, após o que podem servir, sem qualquer problema, para deleite dos caprichos gastronómicos humanos. Assim, para recolher convenientemente os cogumelos, é necessário atentar em alguns preceitos que, além de permitirem a necessária segurança alimentar dos apreciadores micológicos, protegerão as espécies que vão rareando:

• Apanhar apenas as espécies que se conhecem bem, as quais devem ser consumidas ou conservadas de imediato;

• Nunca misturar espécies desconhecidas com exemplares para alimentação, pois pode ocorrer contaminação através de esporos ou exsudados venenosos;

• Devem colectar-se os cogumelos cortando-os, evitando destruir o micélio que está debaixo da terra, garantindo assim a manutenção do espécime nos anos vindouros;

• A recolha deve ser efectuada preferencialmente para cestos de vime, de modo a permitir que os esporos escapem para a terra, o que possibilitará a sua dispersão;

• Os exemplares envelhecidos e muito jovens são impróprios para consumo, pelo que não devem ser apanhados, de modo a permitir a propagação dos seus esporos;

• Nunca aceitar ou comer cogumelos que não tenham sido colhidos ou confeccionados por um conhecedor fidedigno.

As pessoas inexperientes em micologia devem evitar a apanha de cogumelos, pois a existência de várias espécies venenosas e até mortais, que se confundem facilmente com as suas congéneres comestíveis, exige muita prudência. Além disso, é preciso ter muito cuidado com as crendices populares relativas à toxicidade dos cogumelos, pois quase todas são falsas e acreditar nelas pode ser meio caminho andado para um envenenamento ou até para a morte. Seguem-se alguns exemplos que não são de fiar: um cogumelo venenoso faz embaciar a prata e faz enegrecer o alho; se o “chapéu” do cogumelo já foi comido por lesmas ou por outro animal pode ser digerido com segurança pelo homem; as espécies com anéis não são perigosas; qualquer cogumelo seco é seguro, devido ao facto de as toxinas perderem a sua toxidade durante a desidratação; os cogumelos que crescem na madeira não são mortais; os sintomas de envenenamento surgem imediatamente após a ingestão. Tudo isto, repete-se, são ideias falsas e perigosas.

Convém lembrar que a toxicidade dos cogumelos é uma característica genética das espécies, pelo que só um conhecimento profundo de micologia poderá permitir distinguir com segurança as espécies comestíveis, que podem ser utilizadas como inesquecíveis manjares, das perigosas, que poderão tornar-se comida de risco. Mesmo assim, não deve haver excesso de confiança, pois a utilização maciça de substâncias altamente tóxicas (como pesticidas, fungicidas e insecticidas) pode levar a que os fungos supostamente comestíveis que surgem em zonas poluídas se tornem perigosos para a saúde humana. De igual modo, fungos que cresçam em áreas onde existe muito tráfego rodoviário ou grande incidência de poluição industrial podem também tornar-se venenosos, mesmo que em condições normais sejam espécies comestíveis. Isto fica a dever-se ao facto de, nesses locais, os fungos actuarem como esponjas e concentrarem nos seus tecidos elevadas quantidades de poluentes que os tornam verdadeiros cocktails venenosos.

Em Portugal, existem várias espécies venenosas, das quais um pequeno grupo é considerado mortal:

Psalliota xanthoderma: o seu cheiro desagradável a fenol e a iodo é a melhor forma de o distinguir do Psalliota campester (bom comestível).

Amanita muscaria: provoca uma intoxicação com consequências psíquicas e pode confundir-se com o Amanita caesarea (excelente comestível).

Amanita pantherina: provoca intoxicação do tipo atropinóide e pode confundir-se com o Amanita rubescens (bom comestível).

Amanita phalloides: é mortal e pode confundir-se com o Tricholoma equestre e com o Russula virescens (bons comestíveis).

Amanita verna e Amanita virosa: são mortais e podem confundir-se com o Lepiota procera (bom comestível).

Cortinarius orellanus e Cortinarius phoeniceus: são mortais.

Pleurotus olearius: causa graves perturbações intestinais e pode confundir-se com o Cantharellus cibarius (excelente comestível).

Hypholoma fasciculare: é mortal.

Tricholoma sejunctum e Tricholoma sulfureum: são venenosos e podem confundir-se com o Tricholoma equestre (bom comestível).

As intoxicações resultantes da ingestão de cogumelos venenosos podem ter diferentes consequências consoante as espécies consumidas e o tipo de toxinas ingerido. Assim, existem algumas que actuam ao nível da musculatura lisa, provocando a vasoconstrição generalizada; hemolisinas que destroem os glóbulos vermelhos do sangue; toxinas que atacam a mucosa intestinal, que afectam o sistema nervoso central e que provocam problemas ao nível do fígado, das células nervosas e dos rins, entre outras.

Em caso de intoxicação por consumo de cogumelos, deve contactar-se de imediato o Centro de Informação Antivenenos, entidade ligada ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), que se encontra disponível 24 horas por dia, através do telefone 808.250.143 ou do 112, para obter aconselhamento sobre os primeiros socorros a prestar à vítima. Deve também transportar-se o doente, com a maior brevidade possível, até ao hospital mais próximo. Caso se verifique a ocorrência de vómitos, convém recolher o conteúdo estomacal, que deverá ser entregue ao médico, pois poderá permitir a identificação, através dos esporos, da espécie causadora da intoxicação, possibilitando uma terapêutica mais adequada.



J.N. - SUPER 153 - Janeiro 2011

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Notícia - O prazer do açúcar não termina na boca

Perguntem aos ratos, eles sabem reconhecer um bom pedaço de açúcar sem o saborear e mudam o comportamento à espera de mais. Foi assim que Albino Maia e os seus colegas testaram a existência de um sensor que detecta o açúcar assim que ele é absorvido dos intestinos para o sangue, e faz com que o cérebro liberte uma hormona chamada dopamina, que está associada à recompensa e ao prazer. A descoberta foi publicada nesta quarta-feira na revista online Public Library of Science (PLoS), que disponibiliza os artigos livremente, e está obrigatoriamente ligada a um dos maiores problemas que afligem as sociedades do século XXI – a obesidade.

Em 2008 o investigador português publicou um artigo onde mostrava que ratos sem a sensação de sabor continuavam a mostrar uma reacção de recompensa quando ingeriam açúcar. Albino Maia tentou a seguir perceber como é que os ratos sentiam este açúcar. A investigação decorreu na Universidade de Duke, Estados Unidos.

Para isso a equipa fez experiências comportamentais. Colocou ratos numa caixa que tinha dos dois lados água pura para os mamíferos beberem. Depois os cientistas injectaram na corrente sanguínea dos ratos um composto com glicose – o nome da molécula do açúcar –, sempre que os ratos iam para um dos lados.

Isto fez com que eles passassem a preferir tendencialmente o lado onde iam receber o composto. Mas a equipa comparou o efeito do açúcar quando a injecção era na jugular e quando era na veia porta hepática – o vaso que recolhe o sangue que acabou de receber os nutrientes absorvidos no intestino.

“Verificámos que a injecção na veia porta hepática era mais eficaz a condicionar o comportamento do animal”, disse Albino Maia, de 33 anos, médico e investigador, que trabalha agora no Instituto Champalimaud. Ou seja, os roedores sentiam este açúcar e voltavam à procura de mais.

De seguida, os investigadores foram comparar a produção de dopamina no cérebro, quando se injectava baixas concentrações de glicose na veia porta hepática e noutros pontos da circulação. “Com a concentração baixa de glicose tínhamos libertação de dopamina quando [a glicose era injectada] na veia porta hepática, mas não [quando era injectada] nos outros locais.”

Os cientistas perceberam que estavam “na presença de um sensor de glicose na veia porta hepática que enviava um sinal para a libertação de dopamina no cérebro”, explicou o cientista. “Todas as nossas células têm alguma capacidade de sentir a glicose, porque a glicose é a moeda de troca energética.” Tudo o que se passa nas células necessita de energia e o açúcar é o combustível que produz esta energia.

Por isso, será muito importante haver uma detecção precoce da entrada desta fonte de energia no corpo e “quando estamos a fazer uma refeição, e ingerimos açúcar, a veia hepática é a porta de entrada para o organismo”, disse. “É aquilo que vai permitir uma detecção mais precoce.” É possível que isto provoque uma segunda sensação de prazer associada ao açúcar, defendeu o cientista, explicando que ainda não se percebeu muito bem o efeito da dopamina no corpo.

Um dos resultados mais curiosos deste trabalho, mostra que apesar de os adoçantes serem “aprovados” pela boca, ou seja, o paladar detecta estes “doces”, o sensor na veia porta hepática não os reconhece. “Faz sentido que o organismo tenha alguma forma de detectar a disponibilidade de energia”, explicou o investigador e estes adoçantes não são a energia que o corpo está à procura.

“Do ponto de vista médico, a utilização de adoçantes é algo que não é eficaz quando se está a delinear uma dieta”, sublinhou o especialista. Aliás, Albino Maia defende que esta descoberta pode acrescentar uma peça ao puzzle médico que provoca a obesidade. “Pode ajudar a compreender algumas das bases que estão subjacentes ao nosso comportamento alimentar”, diz o cientista. Até porque se sabe que as pessoas com obesidade têm um sistema de produção de dopamina alterado, lembra o cientista.

Qual é o próximo passo? “Perceber como é que isto se processa em humanos e qual é a importância em termos fisiopatológicos.”