quarta-feira, 15 de março de 2017

Não sou um monstro

O psicólogo norte-americano Mark Blumberg assegura que as deformações congénitas proporcionam informação valiosíssima sobre os mecanismos da evolução e da vida.

Numa das cenas mais impressionantes de Freaks (1932, intitulado A Parada de Monstros em Portugal), vários seres disformes encurralam uma rapariga entre as carripanas de um estranho circo. Depois de atacarem o amante da jovem, procuram apanhá-la no meio de uma terrível tempestade. Antes, ela tentara assassinar um dos perseguidores para ficar com todo o seu dinheiro. É verdade que a visão dos indivíduos provoca calafrios. Um deles, o príncipe Randian, não tem braços nem pernas; como se fosse um torso vivo, serpenteia pela lama com uma faca entre os dentes. Zip e Pip, os gé­meos siameses, sofrem de microcefalia, isto é, os crânios são diminutos em comparação com o de uma pessoa normal. Um anão com pouco mais de 60 centímetros de altura exibe uma navalha diante da mulher que tenciona matar. Outra personagem, interpretada pelo actor ­Johnny Eck, não tem pernas mas desloca-se com agilidade sobre as mãos.

Realizado pelo cineasta norte-americano Tod Browning (1882–1962), este filme é normalmente incluído no género de terror, mas pode também ser considerado um documentário, pois mostra sem contemplações os efeitos das mutações genéticas nos seres humanos. Os actores (atracções de feira ou de circo na vida real) deixaram uma marca profunda no psicólogo norte-americano Mark S. Blumberg, da Universidade do Iowa (http://www.psychology.uiowa.edu/faculty/blumberg). “Reparem no Johnny Eck. É tão gracioso que parece ir­real. Nós não evoluímos para nos deslocarmos como ele”, afirma, acrescentando: “O mais curioso é que o processo pelo qual aprendeu a caminhar com as mãos não é muito diferente daquele que todos têm de utilizar para poder andar sobre os pés e as pernas.” Blumberg é o autor do livro Freaks of Nature (que se poderia traduzir por “Extravagâncias da Natureza”), no qual desconstrói todos os estereótipos sobre o que habitualmente se considera serem aberrações físicas.

Esqueçamo-nos, pois, desses pobres indíviduos exibidos diante de um público crédulo e apreensivo por empresários sem escrúpulos como Phineas Taylor Barnum (1810–1891), criador de um lendário circo ambulante que possuía o seu próprio freak show. O psicólogo norte-americano defende, pelo contrário, que os “monstros” nos permitem reflectir sobre o produto de um projecto biológico diferente. Proporcionam-nos, em concreto, uma oportunidade para penetrarmos nos mistérios que a evolução biológica ainda esconde, 200 anos depois do nascimento de Charles Darwin.

Essas criaturas desenvolvem-se de uma forma tão extraordinária que a noção de que se trata de algo aberrante se desvanece quando as temos diante dos olhos. Se analisarmos as biografias de alguns dos participantes em ­Freaks, descobrimos factos tão surpreendentes como os que o filme mostra. Assim, Johnny Eck parecia cerceado pela cintura mas tinha, na realidade, uma espécie de pernas rudimentares ou cotos que escondia por baixo da roupa. O seu irmão gémeo Robert, colega em diversos espectáculos, nascera com um corpo normal. Nos seus 79 anos de vida, Johnny chegou a tocar piano com uma orquestra, foi piloto de corridas, conduziu locomotivas, pintou quadros, participou em três filmes de Tarzan e dedicou-se à magia. No filme de Brow­ning, apoia-se sobre um braço enquanto dirige, com o outro, um coro. “Temos um corpo capaz de fazer certas coisas e aprendemos a adaptar-nos. Não vejo diferenças entre aqueles que designamos, erradamente, por ‘monstros’ e o resto das pessoas”, sentencia Blumberg.

De acordo com esta perspectiva inovadora, cada um de nós representa uma dádiva da natureza, e aprendemos evolutivamente a lidar com os nossos corpos. O investigador conta que a ideia de escrever um livro com um ponto de vista tão original surgiu quando levava o seu cão a passear. O animal andava, corria de um lado para o outro, desacelerava, voltava a correr. Passados dois dias, o psicólogo reparou noutro cão que tinha perdido uma das patas traseiras num acidente e conseguia arranjar-se para andar na perfeição. Blumberg teve a ideia de averiguar em que consiste, verdadeiramente, o instinto animal. “Só nos lembramos de verificar de onde surge quando contemplamos corpos perfeitos. Foi por isso que comecei a estudar as chamadas ‘anormalidades’.”

Ao puxar pelo fio da meada, o psicólogo norte-americano descobriu outra excentricidade canina. Tratava-se de Faith, que nasceu no estado do Oklahoma sem as patas da frente. Em 2003, foi fotografado a andar tranquilamente: o cão tornara-se bípede! A investigação conduziu-o a outros exemplos semelhantes, como o de um babuíno selvagem com os braços muito pouco desenvolvidos que também se deslocava de pé. Houve, ainda, o caso da cabra nascida na Holanda, em 1942, e minuciosamente estudada pelo zoólogo Everhard Johannes Slijper. Tal como nos exemplos anteriores, veio ao mundo com apenas dois membros, mas corria e andava de forma natural, para espanto de quem a via.

Este derradeiro caso tem mais que se lhe diga. A especialista em evolução Mary Jane West-Eberhard, do Smithsonian Tropical Re­search Institute, descreve a surpresa do cientista holandês quando dissecou a cabra bípede, morta acidentalmente. Relata a experiência na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS): “Descobriu alterações muito apreciáveis nos músculos e nos ossos, incluindo transformações alucinantes nas patas traseiras e nos glúteos, mais espessos e alongados. Apresentava igualmente uma disposição inovadora dos pequenos tendões, uma caixa torácica modificada e importantes alterações na bacia.”

Sabia-se que o animal nascera com uma deficiência congénita, mas será que as adaptações tinham a mesma origem? Ou produziram-se devido à pressão ambiental? West-Eberhard admite que nos encontramos diante de um mistério evolutivo. E fala de um fenómeno, descrito como “fenótipo adaptado” (o fenótipo é a expressão física dos genes), que “podia ter desempenhado um papel na evolução da bipedestação dos vertebrados, incluindo os seres humanos”.

Everhard Johannes Slijper já tinha notado que as adaptações do seu exemplar andarilho eram muito semelhantes às de cangurus e orangotangos (estes últimos também andam, por vezes, na postura erecta). “A evolução da postura erecta nos seres humanos pode ter sido menos árdua ou longa do que se pensava, como suspeitam alguns antropólogos”, conjectura West-Eberhard. As características anatómicas do bipedismo incluem alterações na massa muscular, no comprimento dos tendões e no tamanho do tórax e da bacia. “As mesmas singularidades que se observavam na cabra”, sublinha a autora do ensaio.

Trata-se da luz que um monstro pode lançar sobre a evolução. “Esse tipo de indivíduos não é tomado em consideração quando se aborda a questão”, afirma Blumberg. “Não digo que um cão com duas patas vá dar origem a uma nova espécie, pois semelhantes efeitos podem ser causados tanto pelos genes como pelo ambiente. Tenho na minha frente, precisamente, a fotografia de uma serpente bicéfala. Sabemos que a anomalia não é congénita; deve-se a uma alteração profunda no meio ambiente.”

Blumberg refere-se à população da cobra-de-água-de-colar (Natrix natrix) do Reino Unido. O ofídio põe os ovos entre montes de esterco, cuja decomposição produz o calor necessário para poderem eclodir e as crias sair. Contudo, se a temperatura ultrapassar os 40 graus, poucas conseguem sobreviver e, dessas, uma pequena percentagem nasce com mais uma cabeça. Os zoólogos têm conhecimento de centenas de casos.

Ainda no campo da bicefalia, poucos sabem que dois por cento dos ovos de pato produzem siameses com essa característica. Não foi possível discernir causas genéticas, mas há, em contrapartida, factores que se podem atribuir à forma como o próprio ovo gira dentro do útero largo e elástico da fêmea. Determinados movimentos de rotação dão origem a freaks: ao que parece, os elementos químicos do interior são subtilmente alterados.

O próprio Darwin erguia as sobrancelhas perante semelhantes anomalias. A origem da variabilidade sempre constituiu um mistério para o “pai da evolução”, embora seja indispensável para a intervenção da selecção natural. Hoje, sabemos que toda a maravilhosa e sofisticada versatilidade que observamos na natureza, as adaptações dos animais mais exóticos, o modo como encaixam perfeitamente em cada habitat, resultam da acção que essa selecção exerce sobre uma infinidade de opções proporcionadas pelo material genético.

Todavia, como já vimos, não é a única fonte de modificação biológica. Os misteriosos caminhos do processo embrionário podem também ser frutíferos nesse sentido. É aquilo que alguns especialistas designam por “desenvolvimento plástico”. Blumberg rebate, no seu livro, um comentário de West-Eberhard: “Argumentos poderosos contradizem a sua opinião, segundo a qual as inovações causadas pelas mutações genéticas possuem um potencial evolutivo superior. Um factor ambiental pode afectar diversos indivíduos, enquanto uma mutação influencia, em princípio, apenas um.”

Perfeito. Nesse caso, perguntaria um cauteloso Charles Darwin, que vantagens pode proporcionar uma aberração? “No século XX, depois de redescobrir as experiências de Mendel, os cientistas modificaram a perspectiva da evolução darwinista, transformando-a num processo contínuo de alterações cuja origem era exclusivamente genética. Trata-se de uma postura inflexível”, responde Blumberg. No entanto, houve quem se opusesse à todo-poderosa tendência de pensamento. Blumberg refere dois nomes fundamentais: o do biólogo inglês William Bateson (1861–1926) e o do seu colega espanhol Pere Alberch (1954–1998).

Segundo Alberch, não existe apenas um rio de informação genética que corre inexoravelmente até esgotar o seu percurso e desaguar numa forma biológica. A analogia é mais vasta e interessante: a química e a regulamentação dos genes navegam através de muitos cursos, remoinhos e afluentes que restringem as infinitas possibilidades de produzir qualquer criatura. Falamos de um jogo com regras específicas, e as anomalias tornam-se possíveis devido a essas normas. Por conseguinte, também merecem um lugar no tabuleiro de xadrez evolutivo.

Muito antes, em 1894, William Bateson já antecipava a ideia de que determinados factores presentes durante o desenvolvimento embrionário decidem a configuração que um animal poderá ter. As etapas iniciais de vida exerceriam uma poderosa força interna, enquanto a selecção exterior ou natural se faria sobretudo sentir na versatilidade das espécies. Os crocodilos e as tartarugas, por exemplo, não possuem cromossomas sexuais, mas nascem também machos e fêmeas consoante a temperatura exterior. Experiências com embriões de peixes de água doce cujos ovos são submetidos a temperaturas baixas nas primeiras 24 horas após a fertilização produzem um bestiário de estranhos seres: com duas cabeças, um único olho...

Resumindo: os darwinistas mais ortodoxos garantem que as espécies, embora sejam consideradas como entes próprios e independentes, estão na realidade ligadas entre si. Representam a expressão de um todo. Por sua vez, a corrente de pensamento de Bateson e Alberch acha que as espécies são descontínuas, o que seria demonstrado, precisamente, pelos animais disformes, verdadeiras excepções no império absoluto da selecção natural.

Na nossa espécie, a lista de excepções que confirmam a regra é longa e está bem documentada: desde homens com dois seios ou com um polegar a mais aos bebés com o rosto duplicado (o termo clínico é “diprosopia”).

Blumberg recorda o caso das irmãs Abigail e Brittany Hensel, nascidas em 1990: um único corpo e duas cabeças completamente desenvolvidas. “Estes exemplos talvez não constituam o motor da evolução, mas ajudam-nos a entendê-la melhor. Quer sejam produto dos genes ou consequência do desenvolvimento embrionário, conseguem sobreviver às alterações e adaptá-las à sua vida.”

Os ciclopes existem
Blumberg dedicou atenção especial ao caso das pessoas com um único olho, verdadadeiros ciclopes que, em vez de nariz, desenvolvem uma estrutura tubular por cima do órgão da vista. Ter ou não o apêndice nasal depende de os olhos ficarem separados no rosto durante o desenvolvimento embrionário, e de as células conseguirem migrar até ao centro da face para poder construí-lo. Não existe um gene específico que dê origem ao ciclopismo, mas determinadas alterações no ADN afectam, seguramente, o nariz e desencadeiam de forma indirecta a deficiência. Por outro lado, o gigante da Odisseia pode ter sido inspirado pelos fósseis de elefantes que povoavam antigamente Creta. Os gregos talvez acreditassem que a enorme fossa nasal era a cavidade ocular de uma criatura ciclópica.


L.M.A.
Super Interessante
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