quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Fumadores frequentes de marijuana têm mais 70 por cento de risco de ter cancro dos testículos

Um grupo de investigadores norte-americanos publica hoje um artigo na revista "Cancer" que estabelece uma associação entre o consumo de marijuana e o risco de desenvolver cancro nos testículos. Segundo os dados obtidos, um fumador frequente de marijuana tem mais 70 por cento de risco de vir a desenvolver um cancro nos testículos. Comparando com alguém que nunca fumou, os consumidores que recorrem a esta droga numa base semanal ou que a fizeram uso dela durante longos períodos na adolescência enfrentam o dobro do risco.

Desde 1950 que a taxa de incidência de dois principais tipos de cancro de testículo (os seminomas e os não seminomas) tem vindo a aumentar a um ritmo de 3 a 6 por cento por ano nos Estados Unidos, Canadá, Europa, Austrália e Nova Zelândia. Paralelamente, durante o mesmo período aumentou também o consumo de marijuana na América do Norte, Europa e Austrália. Os investigadores do Fred Hutchinson Cancer Research Center notaram esta coincidência e decidiram estudar uma possível associação entre os dois fenómenos.

A equipa entrevistou 369 homens com idades entre os 18 e os 44 anos a quem tinha sido diagnosticado um cancro nos testículos e aos quais foram apresentadas questões relacionadas com o consumo de marijuana, entre outras perguntas sobre o estilo de vida (incluindo hábitos tabágicos e de consumo de álcool).

Para que fosse possível um termo de comparação, foram chamados também a participar 979 homens, seleccionados aleatoriamente apenas com base na idade e área geográfica de residência (Seattle). E mesmo tendo em conta diversas variáveis importantes como uma eventual história familiar deste tipo de tumor, o uso de marijuana revelou-se um factor de risco significativo e autónomo para o cancro de testículo.

O cancro nos testículos é responsável por apenas 1% dos cancros no homem. No entanto, é o tumor maligno mais comum no grupo etário entre os 15 e 35 anos, sendo um cancro raro em asiáticos e africanos.

O célebre ciclista Lance Armstrong, que sobreviveu a este cancro, deu alguma visibilidade a este tipo de tumor, que regista sete mil novos casos por ano no mundo.

A história familiar e os casos de crianças até aos três anos com testículos que não desceram para o escroto são factores associados a um maior risco de cancro testicular. Por outro lado, a exposição a marijuana tem sido associada a múltiplos efeitos adversos no sistema reprodutivo, do impacto na qualidade do esperma à impotência e à infertilidade.

Janet Daling, um dos autores do estudo, terá decidido explorar esta ligação entre a marijuana e o cancro testicular após ter assistido a uma conferência, há oito anos, onde foi revelado que o cérebro e os testículos eram os únicos órgãos do nosso corpos que tinham receptores de tetrahidrocanabinoides (THC), o principal componente psicoactivo da marijuana. [Actualmente, estes receptores já foram encontrados noutros sítios como o útero ou o coração].

Stephen M. Schwartz, epidemiologista e um dos autores deste estudo, sublinha que, apesar desta associação clara, há ainda algumas questões por responder como, por exemplo, o facto de esta ligação se constatar apenas num tipo de cancro testicular (os de tipo não seminona, considerado o mais agressivo).

Andrea Cunha Freitas

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Ciências Naturais - Vídeo - Minerais e rochas

Ciências Naturais - Vídeo - Rochas

Ciências Naturais - Protocolo sobre "O solo tem muitos microrganismos"


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Ciências Naturais - Protocolo sobre "Será fácil produzir um pequeno vulcão em casa?"


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Ciências Naturais - Powerpoint sobre Rochas, Minerais e as Atividades Humanas


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Ciências Naturais - Powerpoint sobre as Propriedades das Rochas


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Ciências Naturais - Powerpoint sobre a Formação dos Solos


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Ciências Naturais - Powerpoint sobre a Classificação das Rochas


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Ciências Naturais - Biodiversidade animal em Portugal

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Alexandre Quintanilha deixa direcção do Instituto de Biologia Molecular e Celular


A partir de hoje um dos nomes mais conhecidos na área da investigação em Portugal, Alexandre Quintanilha, deixará de dirigir um dos mais prestigiados institutos nacionais, o Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), que conduziu desde a fundação há nove anos. A direcção passará a ser assumida pelo número dois do instituto Cláudio Sunkel, que já ocupava o cargo de vice-director.

“É a minha altura de sair e isto continuar”, contou ao PÚBLICO Alexandre Quintanilha, após a reunião onde passou o testemunho a Cláudio Sunkel, investigador principal do grupo de genética molecular do IBMC e professor da Universidade do Porto a que o instituto pertence.

“Acabei de mandar agora uma mensagem de correio electrónico aos outros laboratórios associados e sinto como que uma sensação de satisfação e orgulho, alguma nostalgia também, mas são tudo sensações muito positivas”, conta o biólogo, referindo-se ao grupo de laboratórios associados, a que pertence desde 2000. O IBMC foi um dos primeiros quatro laboratórios a integrar este conceito, atribuido a unidades de excelência no segundo Governo de António Guterres, pelo ministro da ciência Mariano Gago.

Alexandre Quintanilha, filho de um dos mais importantes nomes da biologia portuguesa, Aurélio Quintanilha, nasceu em Moçambique a 9 de Agosto de 1945, o mesmo dia em que era lançada a bomba atómica sobre Nagasaki. Físico de formação inicial, acabou por ingressar na biologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley de nde partiu para Portugal. Chegou em 1990.

O esboço do IBMC começou então a ser burilado, era Cavaco Silva primeiro-ministro. Em 1992 surgiriam as primeiras linhas sobre o que viria a ser o IBMC em 1999, fruto da agregação de seis faculdades da Universidade do Porto e de dois hospitais da cidade, juntamente com o Instituto Ricardo Jorge.

“É no fundo uma história com 16 anos. Chegou à adolescência, é preciso torcer o braço para que as gerações mais novas lhe peguem. Temos hoje quase 200 doutorados e mais de 400 pessoas. Crescemos a pouco e pouco muito com os pés na terra.”

Cláudio Sunkel diz que os principais desafios que esperam o IBMC no futuro são três: “O primeiro e mais importante é continuar o desenvolvimento científico e a excelência, O segundo tem a ver com a alteração do estatuto da Universidade do Porto, que vai passar a fundação e temos de encontrar o nosso espaço nesta nova relação. O terceiro é passar da investigação à aplicação e dar prioridade à transferência de tecnologia, atrair e formar empresas. Mais de uma forma de ultrapassar a crise é uma forma de desenvolvimento”.

O novo responsável do IBMC, que hoje mesmo já tomou posse, lança uma mensagem sobre o contexto actual: “O que é mais importante lembrar nestes tempos de crise é que a ciência faz parte de um contexto económico. É fundamental rentabilizar os financiamentos que existem”. E refere que “2008 foi um ano de muita regularidade” no financiamento da ciência, em que saldaram dívidas antigas. “Mas é preciso muita ginástica financeira”.

Para Alexandre Quintanilha, que permanecerá, por algum tempo, como vice-presidente, o futuro é ainda indefinido: “Não quero ficar como uma eminência parda, isso é nocivo, tóxico, terrível para quem fica. Quero ajudar mas há uma nova direcção. Vou ler mais dedicar-me às aulas, estudar filosofia, arquitectura e dedicar-me a outros projectos”, diz o único português no comité de investigação da Sociedade National Geographic, responsável do Conselho de Laboratórios Associados, membro do Conselho Nacional para a Procriação Medicamente Assistida...entre outras funções.

“Costumo dizer que de 20 em 20 anos preciso de novos desafios”, diz, aludindo ao facto de ter vindo para Portugal há 20 anos. “Não sei se sairei do Porto, tudo é possível, não estou fechado. Posso ser seduzido para muitas outras coisas”.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Biologia e Geologia - Vídeos - Datação Radiométrica

Biologia e Geologia - Vídeos - Descubra como se dá a datação pelo processo do Carbono14

Biologia e Geologia - Eras Geológicas - Fantástica viagem no tempo

Biologia e Geologia - Evolução: História da terra e Eras Geológicas

Ciências Naturais - Ficha Sumativa sobre a Constituição da Terra


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Ciências Naturais - Ficha de Trabalho sobre Ambientes


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Ciências Naturais - Vídeo sobre os vários tipos de ambientes

domingo, 15 de outubro de 2017

Produtos de limpeza podem provocar resistência das bactérias aos antibióticos


Os produtos de limpeza e higiene podem estar a tornar as bactérias resistentes aos químicos e antibióticos, pelo menos na Inglaterra. Um estudo feito pelas Universidades de Birmingham e Warwick, que recolheu amostras de solo em muitos locais, mostra que existem níveis altos de bactérias com genes resistentes a antibióticos.

Segundo a investigação, os amaciadores, desinfectantes, champôs e outros produtos de limpeza estão a promover a resistência das bactérias. “Todos os anos, a nação [Inglaterra] produz 1,5 mil toneladas de esgotos fabris em que a maioria acaba espalhada na terra agrícola”, disse William Gaze da Universidade de Warwick. O investigador explicou que esses resíduos contêm bactérias resistentes a antibióticos cujo crescimento é desencadeado pelos detergentes. “Ainda para mais, lançamos todos os dias 11 mil milhões de litros de água a partir das casas e das fábricas para os rios e estuários, o que também espalha a resistência.”

A investigação debruçou-se principalmente no ião de amónia, que é muito utilizado nos produtos de limpeza. Em altas concentrações não há dúvida que o composto mata os microorganismos, mas no sistema de esgotos a substância fica diluída o que permite às bactérias criarem resistências.

“Isto é a evolução natural em movimento”, disse Gaze ao jornal “Guardian”. “Se outras bactérias são mortas, as que são resistentes à amónia vão sobreviver e, sem competição, vão multiplicar-se rapidamente. No entanto, o pedaço de ADN que confere esta resistência também contém genes que dão resistência aos antibióticos.”

Os antibióticos utilizados de uma forma irresponsável ou padrões de higiene baixa no dia-a-dia dos hospitais deixam assim de ser as únicas causas para o desenvolvimento de microorganismos multi-resistentes. “A nossa investigação mostra que a resistência aos antibióticos não está reduzida aos hospitais. Está espalhada e a cada momento está a erodir a nossa capacidade de controlar infecções”, explicou ao “Guardian” Liz Wellington, professora e investigadora em Warwick e também responsável pelo estudo. “É extremamente preocupante”, concluiu.

Imagens de Animais

Imagens de Animais

Imagens de Animais

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Fotografia: Polyommatus Icarus

Documentos de Ampliação


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Ciências Naturais - Anatomia Humana




Os seres humanos são animais membros da ordem dos mamíferos, subfilo dos vertebrados e do filo dos cordados. À semelhança de todos os cordados, o corpo humano apresenta em determinado momento do desenvolvimento simetria bilateral, corda dorsal, fendas branquiais e e um tubo neural. Nos seres humanos, as duas primeiras características estão presentes apenas durante a fase embrionária. 

À medida que o embrião se desenvolve, a corda dorsal dá lugar à coluna vertebral característica dos vertebrados, as fendas branquiais desaparecem completamente e o tubo neural dá lugar à espinal medula. À semelhança dos restantes mamíferos, o corpo humano apresenta como características proeminentes a presença de pelos, glândulas mamárias e sistema sensorial bastante desenvolvido. No entanto, apresenta também algumas diferenças significativas. 

É o único mamífero com postura bípede, o que modificou o plano corporal, e o cérebro é de longe o mais desenvolvido em todo o reino animal. O corpo humano adulto possui mais de 75 biliões de células. Cada célula é capaz de crescer, de metabolizar, de responder a estímulos e de se reproduzir, embora haja algumas exceções. Existem mais de 200 tipos diferentes de células no corpo humano que, em conjunto com a matriz extracelular, foram os quatro principais tipos de tecido: epitelial, muscular, nervoso e conjuntivo. 

Por sua vez, os tecidos formam órgãos individuais e cada órgão pode apresentar vários tipos de tecido. 

O tecido epitelial reveste a superfície do corpo, os órgãos internos, cavidades e passagens. Os tecidos musculares são contrácteis e constituem os músculos, enquanto que os tecidos nervosos constituem o sistema nervoso. 

O tecido conjuntivo liga as várias estruturas anatómicas entre si e é constituído por células bastante espaçadas. 

O corpo humano é constituído por nove sistemas orgânicos principais. 

O sistema tegumentar é constituído pela pele que reveste o corpo e as diversas estruturas a ela associadas, como os pelos, as unhas ou as glândulas sebáceas, e tem a função de proteger os outros órgãos. 

O sistema locomotor compreende os músculos esqueléticos e os ossos do esqueleto e tem função locomotora e de proteção dos órgãos internos. 

O sistema respiratório é constituído pelos pulmões, músculos da respiração e respetivas passagens e tem a função de extrair oxigénio do ar, fundamental para o metabolismo, devolvendo dióxido de carbono. 

O sistema circulatório ou cardiovascular é constituído pelo coração, vasos sanguíneos e sangue. O coração impulsiona a circulação do sangue, o qual tem a função de transportar oxigénio, nutrientes, células imunitárias, hormonas e resíduos entre as células das diversas partes do corpo. 

O sistema digestivo é constituído pela boca, esófago, estômago e intestinos e tem a função de processar os alimentos em nutrientes aproveitáveis pelo corpo, que são depois absorvidos pelo sangue ou pela linfa e os resíduos expulsos na forma de matéria fecal. 

O sistema excretor é constituído pelos rins, bexiga e respetivos canais e tem a função de remover os compostos de nitrogénio tóxicos da corrente sanguínea. 

O sistema endócrino é constituído pelos tecidos e glândulas que produzem hormonas, as quais atuam como uma rede de comunicações entre os vários sistemas. 

O sistema reprodutor, feminino ou masculino dependendo do sexo, é constituído pelos órgãos sexuais e permite a reprodução e a continuidade da espécie.

Biologia e Geologia - Novos programas do 10º ano - Programa da componente de Geologia


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Biologia e Geologia - Programa da Disciplina


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Camaleão

Biografia de Darwin

Biologia e Geologia - Powerpoint - A medida do tempo e a História da Terra


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Biologia e Geologia - A Medida do Tempo e a História da Terra



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Biologia e Geologia - Powerpoint sobre a Medida do Tempo Geológico e a Idade da Terra


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Biologia e Geologia - Exercícios sobre a Medida do Tempo, Idade da Terra





Imagens de exercícios, extraídas da aplicação para QI "MEDIDA DO TEMPO, IDADE DA TERRA" 

Integrada no tema introdutório à componente de Geologia, do programa de Biologia e Geologia (ano I), a abordagem aos métodos de datação e à idade da Terra, afigura-se importante para a compreensão do objecto da Geologia, da complexidade do trabalho dos geólogos e da necessidade de diferentes métodos e instrumentos de trabalho para o estudo da Terra. Eis alguns comentários de imagens integradas numa aplicação para quadros interactivos sobre a idade da Terra.

Exercício 1

O exercício seguinte permite explorar o Princípio da Sobreposição dos Estratos e as dinâmicas a que as rochas sedimentares estão sujeitas, nomeadamente a alternância entre ciclos de erosão e de sedimentação. As imagens seguintes mostram o exercício e a sua resolução, após indicação das localizações mais correctas...


Exercício 2

O exercício seguinte permite explorar o Princípio da Identidade Paleontológica e os métodos de datação relativa. As imagens seguintes mostram o exercício e a sua resolução, após deslocação dos termos para as posições correctas...
 


Exercício 3

Este exercício permite a exploração dos métodos de datação absoluta, nomeadamente a datação radiométrica. As imagens seguintes mostram o exercício e a sua resolução.

Escrito por José Salsa

Biologia e Geologia - Exercícios sobre a Medida do Tempo, Idade da Terra


Integrada no tema introdutório à componente de Geologia, do programa de Biologia e Geologia (ano I), a abordagem aos métodos de datação e à idade da Terra, afigura-se importante para a compreensão do objecto da Geologia, da complexidade do trabalho dos geólogos e da necessidade de diferentes métodos e instrumentos de trabalho para o estudo da Terra. Eis alguns comentários de imagens integradas numa aplicação para quadros interactivos sobre a idade da Terra.
Exercício 1

O exercício seguinte permite explorar o Princípio da Sobreposição dos Estratos e as dinâmicas a que as rochas sedimentares estão sujeitas, nomeadamente a alternância entre ciclos de erosão e de sedimentação. As imagens seguintes mostram o exercício e a sua resolução, após indicação das localizações mais correctas...


Exercício 2

O exercício seguinte permite explorar o Princípio da Identidade Paleontológica e os métodos de datação relativa. As imagens seguintes mostram o exercício e a sua resolução, após deslocação dos termos para as posições correctas...
 


Exercício 3

Este exercício permite a exploração dos métodos de datação absoluta, nomeadamente a datação radiométrica. As imagens seguintes mostram o exercício e a sua resolução.

Escrito por José Salsa

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A maior cobra do mundo foi descoberta na Colômbia e pode dar importantes pistas sobre o clima

Tão grande como um autocarro e tão pesada como um pequeno carro. Esta é a descrição no comunicado que anuncia o achado recordista que hoje merece destaque na revista Nature. É a maior cobra do mundo

É sul-americana, pesava 1,140 quilogramas e media 13 metros desde o nariz até à ponta da cauda. Viveu na Colômbia há já cerca de 60 milhões de anos. Uma equipa de cientistas recuperou os restos daquela que será a maior cobra que terá existido à face da terra e relata os pormenores do achado na edição da Nature. Os seus descobridores chamaram-lhe Titanoboa cerrejonensis e acreditam que o tamanho animal pré-histórico pode fornecer pistas importantes sobre o clima e a evolução dos ecossistemas.

“O tamanho é surpreendente. Mas a nossa equipa quis dar um passo em frente e questionou: que temperatura a Terra teria de ter para que um corpo deste tamanho conseguisse sobreviver?”, refere David Polly, geólogo da Indiana University Bloomington, num comunicado que anuncia a descoberta. O especialista é o responsável pela estimativa do tamanho do animal, que fez a partir da análise de uma da vértebras do fóssil. David Polly é apenas um dos elementos da vasta equipa de especialistas que se dedicou ao estudo destes monstruosos restos mortais encontrados na mina de carvão de Cerrejon, no norte da Colômbia.

O paleontólogo Jason Head, da University of Toronto-Mississauga e que é o principal autor do artigo publicado na Nature, juntou os dados recolhidos para chegar à conclusão que a temperatura na região onde a cobra viveu há aproximadamente 60 milhões de anos oscilava entre os 30 a 34 graus celsius (86 a 93 Fahrenheit). A estimativa revela um clima tropical mais quente no passado, mais cerca de cinco graus que o máximo verificado actualmente nesta região. “O ponto chave nesta descoberta é funcionar como ponto de partida para reconstruções climáticas muito precisas. Vai ajudar a perceber como os ecossistemas respondem às mudanças climáticas e a entender melhor o que acontece quando as temperaturas aumentam e diminuem. É, obviamente, um conhecimento muito relevante no actual momento de mudanças climáticas”, afirma Head.

“Estes dados desafiam as teses que dizem que a vegetação tropical vivia muito perto de um clima óptimo e tem implicações profundas na compreensão do efeitos que o actual aquecimento global tem nas plantas tropicais”, nota ainda Carols Jaramillo, especialista no Smitihsonian Tropical Research Institute

“Os ecossistemas tropicais na América do Sul eram muito diferentes há 60 milhões de anos”, conclui Jonathan Bloch, paleontólogo da University of Florida e Florida Museum of Natural History, acrescentando: “Era uma floresta tropical, como hoje, mas era ainda mais quente e estes animais de sangue-frio eram todos substancialmente maiores. O resultado foi, entre outras coisas, a maior cobra que o mundo já viu... e, esperamos, a maior que alguma vez verá”. A Titanoboa foi classificada como uma cobra não venenosa, numa categoria onde também se encontram as boas ou as anacondas.


Andrea Cunha Freitas

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Árctico e Antárctico partilham 235 espécies

A descoberta está a intrigar cientistas de todo o Mundo. Há pelo menos 235 espécies de animais que tanto vivem no Oceano Árctico (Pólo Norte) como no Antárctico (Pólo Sul), apesar dos 11 000 quilómetros que os separam, concluíram cientistas do Censo da Vida Marinha.
"Encontrar tantas espécies nos dois extremos da Terra, algumas delas sem ligações conhecidas entre si, levanta sérias questões do ponto de vista da evolução", afirmou Russ Hopcroft, da Universidade de Fairbanks, no Alasca, que participou nas expedições do Censo. Entre as espécies comuns às duas regiões polares contam-se cinco espécies de baleias, cinco de aves marinhas e cerca de cem espécies de crustáceos. "Não estamos ainda certos do que tudo isto significa", reconheceu Bodil Bluhm, investigadora no projecto.
As expedições realizadas no âmbito do Censo permitiram também concluir que há espécies a migrar para os pólos para escapar ao aquecimento das águas. A maior recolha de sempre sobre a vida marinha nos pólos envolveu 500 cientistas de 25 países, entre os quais Portugal, nas várias expedições realizadas pelos cientistas.

O Censo concluiu que há 7500 espécies marinhas no Oceano Antárctico e 5500 no Árctico, estimando-se que o número total em todos os oceanos do Planeta seja entre 230 a 250 mil espécies. Segundo Ron O’Dor, director científico do Censo, o projecto encontra--se "numa etapa de síntese, em que se tenta reunir os 17 projectos para dar ao mundo uma imagem da biodiversidade dos oceanos".
O aquecimento global vai levar a que o Árctico, no extremo Norte do Planeta, tal como o conhecemos hoje, deixe de existir dentro de 20 anos, com a temperatura na região a aumentar sete graus centígrados. Especialistas em ciência polar reunidos em Chicago, EUA, consideram que o aquecimento em curso não se trata de "um mero ciclo passageiro", pelo que "o atestado de óbito do Árctico está assinado".
"Teremos um Verão sem gelo no Árctico em 2030 ou antes disso", vaticinou Mark Serreze, da Universidade de Colorado.
A capacidade dos oceanos para absorver e armazenar dióxido de carbono (CO2) diminuiu dez vezes nos últimos 20 anos, provocando um aumento da concentração do gás com efeito de estufa, concluiu o Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS) francês.
Segundo o CNRS, nas regiões austrais, a explicação para o fenómeno poderá estar na intensificação de ventos que induzem a circulação em profundidade da água, provocando a subida para a superfície do CO2 retido em águas profundas. Já no Atlântico norte, a explicação pode estar nas "alterações na circulação oceânica, numa resposta dos ecossistemas ou como resultado da actividade biológica". As emissões de CO2 geradas pelo Homem subiram desde os anos 90 de 6000 para 10 000 milhões de toneladas.
Para realizar o Censo da Vida Marinha, os cientistas tiveram de enfrentar ondas de 16 metros no Antárctico. Já no Árctico trabalharam com o auxílio de vigilantes armados, por causa dos ursos polares.
Programa internacional de investigação científica iniciado em 2000, o Censo apresentará resultados finais em 4 de Outubro de 2010, em Londres. Para 2009 estão previstas, entre outras, expedições para conhecer vulcões a 5 mil metros de profundidade.

Bernardo Esteves

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Ovos podres poderão curar a impotência?

Não há muito tempo foi noticiado que era um mito a ideia de que comer mais que dois a três ovos por semana aumentava drasticamente os níveis de colesterol no sangue. Agora, surge uma investigação que demonstra que o gás libertado pelos ovos podres pode ser uma cura para a impotência. Os ovos podem estar definitivamente a chegar ao topo dos alimentos mais populares.

Apesar de ser tóxico e do seu odor reconhecidamente nauseabundo, o gás presente nos ovos podres, o ácido sulfídrico, em pequenas quantidades, desempenha um papel importante no corpo humano, como demonstra uma investigação de cientistas italianos, referida pela revista “Science”.

Os investigadores da Universidade de Nápoles, Federico II, sabiam que o ácido sulfídrico está associado a erecções em ratos. Dessa forma, decidiram juntar o ácido sulfídrico a pequenas tiras de pele de pénis, obtida através de oito operações de mudança de sexo. Foi verificado que as veias existentes no pedaço de pele relaxaram, o que significa que na vida real isto permitiria um aumento do fluxo sanguíneo e uma consequente erecção.

O gás parece actuar como um neurotransmissor que aumenta o relaxamento vascular e a segregação de hormonas. O Viagra actua da mesma forma através de outro gás, o óxido nítrico. Os investigadores começam agora a testar se o ácido sulfídrico nos pode proteger contra os riscos de ataques cardíacos e se pode ser uma alternativa aos comprimidos azuis.

Segundo a “Science”, o fisiologista Rui Wang, da Universidade de Ontário no Canadá, saúda a descoberta, mas alerta para o facto de que é cedo para falar de comprimidos compostos por ácido sulfídrico. Como salienta Wang, os níveis de concentração de ácido sulfídrico usados na investigação para causar erecções são tóxicos, o que por enquanto impede a sua aplicação clínica.

Rafael Pereira

sábado, 7 de outubro de 2017

Humanos de há 1,5 milhões tinham um pé semelhante ao dos homens modernos

Pegadas descobertas no Quénia mostram que antepassados do Homo Sapiens que viveram há 1,5 milhões de anos tinham pés e uma maneira de andar idêntica à dos humanos actuais.

Um estudo de uma equipa internacional a publicar hoje na revista Science mostra pegadas atribuídas ao Homo Erectus, que reflectem o estilo, o peso e a altura dos homens modernos.

David Braun, um arquéologo da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul e um dos autores do estudo, disse à revista Scientific American que esta descoberta “deixa-nos compreender que eles eram provavelmente tão capazes de andar direitos como nós”.

As pegadas foram encontradas perto do Lago Turkana e representam “a prova mais antiga de uma anatomia do pé essencialmente moderna”, refere o estudo.

Não se trata, no entanto, da pegada humana mais antiga conhecida. Em 1978, foram descobertos em Laetoli, na Tanzânia, vestígios de pegadas do Australopithecus afarensis, datadas de há 3,7 milhões de anos, refere a BBC.

Matthew Bennett, da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido, disse à mesma estação que existe uma grande diferença entre umas e outras pegadas.

[As pegadas descobertas agora] dão-nos o diagnóstico de uma maneira moderna de andar e isso não existia nas pegadas de Laetoli”, afirmou.

O cientista referiu que os ossos correspondentes às pegadas não foram encontrados, porque os carnívoros gostam de comer as mãos e os pés.

“Sem a carne, muitos ossos pequenos não são preservados. Por isso sabemos tão pouco sobre a evolução das mãos e dos pés dos nossos antepassados”, disse.


Público

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Chimpanzé de Zoo na Suécia ajuda a mostrar que os animais são capazes de fazer planos

A história quase que vale só por si. No jardim zoológico Furuvik, a norte de Estocolmo, na Suécia, o chimpanzé Santino terá planeado centenas de ataques aos visitantes. O animal recolhia pedras e pedaços de cimento que guardava e que, mais tarde, lançava às pessoas. A agressão premeditada serviu para provar que estes animais são capazes, como os seres humanos, de planear futuros acontecimentos. Um grupo de investigadores na Suécia usou o caso de Santino para o artigo que publicou na edição de ontem da "Current Biology".

Terão sido os cuidadores de Santino no jardim zoológico que detectaram o comportamento estranho. Antes da abertura, de manhã cedo, o chimpanzé recolhia pedras no seu recinto. Santino estava calmo e conseguia reunir uma quantidade razoável de munições. Os ataques só aconteceriam horas mais tarde e, nessa altura, Santino já estava num estado bem mais agitado. A história serviu para Mathias Osvath, cientista da Univerisdade de Lund, demonstrar que estes animais são capazes de prever acontecimentos, um dado que ainda não tinha sido possível provar.

Há outros dados que reforçam a teoria da premeditação como, por exemplo, o facto de Santino não ter este tipo de comportamento na altura do ano em que o zoo está fechado. O chimpanzé terá mesmo desenvolvido uma técnica para fazer "descolar" pedaços de cimento que depois eram usados como arma de arremesso. Este tipo de planeamento de acção pressupõe uma complexa forma de consciência em primatas, nomeadamente a que permite distinguir entre a informação fornecida pela memória e a que é fornecida pelos sentidos. Os investigadores acreditam que estes estados de consciência podem ser encontrados noutros chimpanzés e mesmo noutras espécies animais como os golfinhos.
Público

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Mini-invasão de gaivotas polares na costa portuguesa

Desde o início de Janeiro os amantes da observação de aves têm sido saudados por uma visita rara de gaivotas polares. As espécies avistadas - a gaivota hiperbórea (Larus hyperboreus) e a gaivota polar (Larus glaucoides) – não foram muitas (7 a 8 gaivotas de cada espécie), mas isso bastou para pôr em polvorosa os ornitólogos profissionais e amadores: em cada ano só uma ou duas gaivotas perdidas do bando sobrevoam terras portuguesas.

Ainda não há explicação científica para esta anormal mini-invasão, mas Gonçalo Lobo Elias, um engenheiro electrotécnico apaixonado pela observação de aves, arrisca uma explicação. “A vaga de frio que tem atacado o norte da Europa pode ter obrigado as gaivotas a deslocar-se para sul e as tempestades no mar podem tê-las empurrado para a costa”, supõe.

Até agora, Gonçalo Lobo Elias, que é também um dos coordenadores do site Aves de Portugal (www.avesdeportugal.info), sabe que estas gaivotas vindas da Gronelândia, Islândia e Noruega foram vistas um pouco por toda a costa do país: em Peniche, na linha de Cascais, na zona ribeirinha de Lisboa e no Algarve.

De todos os locais os observadores de aves que estão associados ao site têm enviado fotografias e alertado a presença destas visitantes inesperadas. E também em Espanha estas gaivotas polares foram vistas, o que reforça a ideia de que se trata de um fenómeno anormal. Só de uma terceira espécie, a gaivota – tridáctila (Rissa tridactyla, que só raramente é vista em terra), já foram observadas centenas desde que se instalaram temporais na costa espanhola.

Para quem queira dar uma espreitadela nas praias e arriscar encontrar estas gaivotas, basta observar a coloração das penas. Ao contrário das gaivotas a que estamos habituados (as gaivotas argêntias (Larus michahellis) ou as gaivotas de asa escura (Larus fuscus)), as gaivotas polares são totalmente brancas. E para distinguir as duas espécies o tamanho é a única diferença: as gaivotas – hiperbóreas, para além de totalmente brancas, são também maiores.


Patrícia Silva Alves

domingo, 1 de outubro de 2017

A longa viagem de Darwin para provar que os humanos são todos da mesma espécie

Foi já no fim da sua viagem marítima de cinco anos à volta do mundo, no navio da Real Marinha Britânica HMS Beagle, que Charles Darwin ouviu um grito que não deixou de ouvir toda a vida. Foi na zona de Pernambuco, no Brasil. "Ouvi os gemidos mais inspiradores de pena, e só posso suspeitar que algum pobre escravo estivesse a ser torturado", relata no seu Journal, o diário de viagem a bordo do Beagle.

Se Darwin não viu o que se passou dessa vez, tinha já visto muitos exemplos da forma como os escravos eram tratados no Brasil. "Perto do Rio de Janeiro vivi frente a uma velha senhora que tinha um instrumento para esmagar os dedos das suas escravas. E fiquei numa casa onde um jovem mulato era insultado, espancado e perseguido todos os dias e todas as horas. Era o suficiente para quebrar o espírito até do animal mais baixo", escreveu no mesmo livro. "Agradeço a Deus por nunca mais ter de visitar um país esclavagista", concluía.

Darwin, antiesclavagista? Não é essa a história que costumamos ouvir contar sobre o homem que desenvolveu a teoria da evolução das espécies através da selecção natural. Mas esse é o foco de um novo livro lançado no Reino Unido, poucos dias antes de se comemorar, hoje, o nascimento de Charles Darwin – 12 de Fevereiro de 1809, o mesmo dia em que nasceu Abraham Lincoln, o Presidente dos Estados Unidos ligado à luta pela abolição da escravatura.

Darwin's Sacred Cause – Race, Slavery and the Quest of Human Origins (em tradução literal, A Causa Sagrada de Darwin – Raça, Escravatura e a Busca das Origens Humanas) foi escrito por Adrian Desmond e James Moore, também autores de uma biografia de Charles Darwin. Desta vez analisam o meio cultural e familiar do homem que se tornou um herói da ciência.

Quando Darwin publicou o livro que o transformou num ícone da ciência moderna – Sobre a Origem das Espécies através da Selecção Natural (tradução literal da obra publicada em Portugal pela D. Quixote com o título A Origem das Espécies) –, propondo um mecanismo natural como o motor da evolução, em 1858, discutia-se se os seres humanos seriam apenas uma espécie única, em todo o mundo, ou se negros, asiáticos e demais tipos humanos eram espécies separadas. A visão de um mundo em que cada espécie foi criada autonomamente, no local onde se encontra hoje, estava a vingar nos Estados Unidos – e favorecia a política esclavagista, que em breve viria a desencadear a Guerra Civil Americana (1861-1865).

Se negros e brancos fossem de facto espécies separadas, e não apenas diferentes raças, poder-se-ia justificar a visão do mundo dos supremacistas brancos, como os proprietários de plantações no Sul dos Estados Unidos. O homem branco era visto como o pináculo da criação. E os negros como criaturas inferiores, naturalmente destinados a servirem o homem branco. A ciência em que se baseavam estas ideias partia de coisas como o estudo de crânios – para analisar as suas mossas, que revelariam a dimensão dos vários órgãos do cérebro, como o da justiça ou da consciência – e o tamanho dos cérebros.

Havia algumas gradações nesta escola antropológica americana. Samuel Morton, que era apenas uma década mais velho que Darwin e tinha passado pela Universidade de Edimburgo, tal como o autor da teoria da evolução, era o expoente da abordagem positivista: não deixava que Deus entrasse nos seus estudos de crânios, cuja capacidade mediu, enchendo-os primeiro com sementes de mostarda e depois com bolinhas de chumbo. Mas introduziu uma série de desvios estatísticos que distorcia as suas obras monumentais, como Crania Americana, relatava o historiador da ciência e biólogo Stephen Jay Gould no livro A Falsa Medida do Homem (Quasi Edições).

Outros, como o suíço Louis Agassiz, radicado nos Estados Unidos e professor na Universidade de Harvard, introduziam uma dimensão mística no estudo das raças e espécies. Agassiz, que aliás muito irritava Darwin, garantem Desmond e Moore – um dos capítulos do livro chama-se Oh for shame Agassiz, pegando num comentário escrevinhado por Darwin –, acreditava que a vida na Terra tinha sido recriada muitas vezes, depois de cataclismos cíclicos. Mas não tolerava a ideia de que as espécies se fossem transformando, evoluindo e espalhando pelo mundo. "Embora tivesse havido uma sucessão de tipos 'mais elevados', dos peixes aos humanos, explicava-os como a revelação dos pensamentos de Deus – não havia ligações materiais ou evolutivas entre um fóssil e outro, relacionavam-se apenas através da Mente Divina, que criava miraculosamente cada nova espécie", escrevem Desmond e Moore.

Darwin, entre o seu regresso da viagem do Beagle, em 1836 (tinha apenas 22 anos quando ela começou), e o casamento com a prima Emma Wedgwood, em 1839, encheu muitos caderninhos de notas sobre a sua convicção cada vez maior de que as espécies "se transmutavam" – mudavam, ao longo dos tempos, transformando-se noutras, espalhando-se pelo mundo. Em apontamentos telegráficos reflectia sobre os possíveis mecanismos para explicar que as espécies não eram fixas, imutáveis.

Esta ideia da "transmutação" das espécies já andava a germinar na cultura europeia há décadas, embora sem que ninguém tivesse proposto um mecanismo convincente. Mas não era propriamente senso comum, e Darwin manteve-se calado, reflectindo, fazendo experiências – construindo a sua reputação, e sofrendo com o fervilhar de ideias que tinha dentro de si. Porque ele, que acreditava na unidade da espécie humana, apesar de todas as suas variações, tinha uma ideia herética: acreditava na unidade de todas as espécies, que foram evoluindo e transformando-se a partir de um antepassado comum.

Esta crença na unidade da espécie humana era sustentada pela sua vivência familiar, entre as famílias Darwin e Wedgwood, que se casaram várias vezes entre si. Ambas eram activistas na luta pela abolição do comércio de escravos, primeiro, e depois pela abolição da escravatura. Os Wedgwood, fabricantes de louça, criaram um medalhão que se tornou o símbolo dessa luta – um negro de joelhos e com correntes, com a inscrição "Não serei eu um homem e vosso irmão".

Na sua viagem de cinco anos no Beagle, Darwin contactou muitas vezes com escravos, negros e mulatos. Destes últimos duvidava-se que pudessem até ter filhos, como as mulas, que resultam do cruzamento de espécies diferentes, de cavalos e burros. Mas a ele não lhe faziam confusão nenhuma. "Nunca vi ninguém tão inteligente como os negros, especialmente as crianças negras ou mulatas", escreveu depois de chegar à Praia, em Cabo Verde, a primeira paragem da viagem do Beagle, iniciada a 27 Dezembro de 1831.

E também viu muitos índios sul-americanos, representantes das tribos de aparência primitiva com que os europeus da época se confrontaram, muitas vezes em encontros inéditos – foi o momento em que os exploradores europeus começaram a chegar mesmo a todos os cantos da Terra.

O caminho pelo qual chegou à prova de que as espécies podem de facto espalhar-se pelo mundo e mudar, ao longo dessa viagem, acabou por incluir pombos e sementes postas a marinar em água salgada.

Para estas experiências, durante a década de 1850, conseguiu mobilizar a sua enorme rede de correspondentes em todo o mundo, e também o apoio da estrutura consular e comercial do Império Britânico – aquele onde o Sol nunca se chegava a pôr, de tal forma era grande. Mandavam-lhe sementes e peles de ossos de pombo, de variedades locais, para ele estudar. E foi a irritação que as ideias de Agassiz lhe despertavam que o levou a lançar-se nesta aventura, defendem Desmond e Moore.

O que lhe interessava era mostrar que as espécies se modificam – e podem ser modificadas pela acção do homem, que pode simplesmente gostar de pombos com a cauda mais larga ou o bico mais curto, sem que crie espécies novas. E provar que as espécies animais e vegetais podiam viajar pelo mundo, adaptando-se localmente. Para tal, demonstrou que a água salgada não matava as sementes, como toda a gente admitia (sem provas experimentais), e que portanto podiam fazer longas viagens por mar e germinar numa nova terra.

Com estas experiências, Darwin demonstrou os mecanismos da transmutação das espécies – a evolução através da selecção natural. E também de um outro factor, o da selecção sexual: as fêmeas preferem certas características nos machos, que podem não ter valor evolutivo, mas são passadas à geração seguinte. O mesmo mecanismo pode explicar que existam homens negros e brancos, se cada cor preferir ter como parceiro sexual alguém com a mesma tonalidade de pele.

Da origem e dispersão das espécies Darwin colheu uma farpa que apontou ao coração do racismo, que ganhava expressão durante a década de 1850, nos Estados Unidos mas não só. Só que, em 1858, Darwin tinha pressa de publicar – por causa da carta que recebeu de Alfred Russel Wallace, um jovem naturalista que estava na Indonésia e que lhe enviou as suas reflexões sobre a origem e transformação das espécies que tanto se assemelhavam à sua própria teoria, desenvolvida ao longo de duas décadas. Por isso, acabou por deixar a evolução humana de fora de A Origem das Espécies.

Entendia-se que nessa obra ele colocava a humanidade em pé de igualdade com os outros animais. Mas Darwin sentia que precisava de mais provas, de ser verdadeiramente esmagador, para falar sobre a evolução humana, num momento em que a campanha dos que viam os negros como uma espécie separada era tão forte, e em que a ameaça de guerra nos EUA estava a agigantar-se.

Cartas e outros escritos mostram que Darwin tinha esperança que Charles Lyell, o seu mentor científico, o ajudasse, falando da evolução humana no livro que estava a preparar sobre o tema. Mas Lyell tinha dificuldade em aceitar que o homem branco fosse retirado do pináculo da evolução e até algumas simpatias pelos plantadores do Sul dos EUA (embora não propriamente pela escravatura), e não conseguia dar esse passo.

Só anos mais tarde, em 1871, já depois de ter terminado a guerra nos EUA, Darwin ganhou coragem para publicar o livro em que fala mesmo sobre a evolução humana – A Ascendência do Homem, e Selecção relativamente ao Sexo (não disponível em edição portuguesa). Nele expõe então a sua teoria da selecção sexual, para explicar as diferenças que criam as raças.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pólen desvenda crimes

Os microscópicos grãos de pólen das plantas poderão vir a derrubar a ideia de que há crimes perfeitos, ao dar pistas seguras para deslindar casos que desafiam os limites da investigação criminal.


A metodologia utilizada por meia dezena de investigadores forenses no Mundo, entre os quais Mafalda Faria, que desenvolve o seu trabalho na Universidade de Coimbra e no Instituto Nacional de Medicina Legal, não é mais do que a análise do pólen e de esporos de plantas que ficam agarrados ao corpo de pessoas e de objectos. O contributo de estudos de Mafalda Faria foi solicitado pela PJ para ajudar a reconstituir crimes como os do jovem universitário que assassinou a ex-namorada em Coimbra. "Para certas situações, a Palinologia é a única que pode resolver. Se, por exemplo, se encontra a arma do crime sem impressões digitais, poderá ter pólen, não daquele local, mas da sua proveniência", explica a investigadora. C.M.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Ratinhos obesos respondem à hormona da saciedade

Quando, há pouco mais de 13 anos, foi descoberta no ratinho a leptina – uma hormona produzida pelos tecidos adiposos que diz ao cérebro para “desligar” o apetite quando já comemos o suficiente –, pensou-se que vinha aí o medicamento-milagre contra a obesidade. Só que o cérebro das pessoas obesas (e dos ratinhos) se revelou insensível à leptina: por alguma razão, os seus neurónios não “ouvem” o sinal de saciedade. Procuraram-se então substâncias que devolvessem aos neurónios a sua sensibilidade à hormona. Mas em vão. Até agora.

Umut Ozcan e colegas, de Harvard, que amanhã publicam um artigo na Cell Metabolism, desvendaram a provável razão da resistência à leptina associada à obesidade e a seguir conseguiram restaurar a resposta à leptina no cérebro de ratinhos obesos.

Acontece que, nas células do hipotálamo (a região cerebral onde a leptina actua), a estrutura que fabrica as inúmeras proteínas de que a célula precisa não consegue “dar conta do recado”, falhando provavelmente no fabrico da molécula que normalmente receberia o sinal da leptina.

Mas, com a ajuda de uma de duas substâncias (cujo nome de código é PBA e TUDCA) destinadas a aliviar essa situação de stress celular – e que para mais já foram aprovadas para uso clínico nos EUA –, os ditos neurónios passam a responder novamente ao sinal de saciedade, fazendo os ratinhos tratados com leptina perderem peso mesmo quando alimentados com dietas ricas em gorduras. “Se funcionar nas pessoas, isto poderá servir para tratar a obesidade”, diz Ozcan.

Ana Gerschenfeld

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Biólogos descobriram dez novas espécies de anfíbios na Colômbia

Uma equipa de biólogos da Conservation International descobriu nove espécies de sapos e uma de salamandra nas montanhas da Colômbia. A notícia foi divulgada hoje, Dia Mundial das Zonas Húmidas.

As novas espécies, incluindo três sapos venenosos, foram descobertas na zona montanhosa de Tacarcuna, perto da fronteira da Colômbia com o Panamá. Esta região servia de passagem entre espécies de plantas e de animais entre a América do Norte e a América do Sul.

“Sem dúvida alguma podemos dizer que esta zona é uma verdadeira Arca de Noé”, comentou José Vicente Rodriguez-Mahecha, director científico da Conservation International na Colômbia, citado pela agência Reuters.

Actualmente, Tacarcuna é uma zona que sofre com o abate florestal, exploração de gado, caça, exploração mineira e fragmentação dos habitats. Estima-se que 30 por cento da sua vegetação natural já desapareceu.

“O elevado número de novas espécies de anfíbios é um sinal de esperança, mesmo com a grave ameaça de extinção que enfrentam estes animais em muitas outras regiões do mundo”, acrescentou.

Robin Moore, especialista em anfíbios na Conservation International, sublinhou que actualmente um terço de todas as espécies de anfíbios do planeta está ameaçada de extinção. “Os anfíbios são muito sensíveis às mudanças no ambiente (…). São uma espécie de barómetro e são os primeiros a responder a essas mudanças, como por exemplo as alterações climáticas”, explicou.

Os anfíbios ajudam a controlar a progressão de doenças como a malária e o dengue porque se alimentam dos insectos que transmitem essas doenças às pessoas.

A equipa quer trabalhar com as populações locais de Tacarcuna para que “encontrem formas mais sustentáveis para proteger os seus recursos naturais, também para seu benefício”, considerou Moore.

Hoje comemora-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas, habitat de muitas espécies de anfíbios, para relembrar a assinatura da Convenção de Ramsar, a 2 de Fevereiro de 1971.

sábado, 23 de setembro de 2017

Ressuscitar o Neanderthal

A sequenciação completa do genoma (totalidade de bases de ADN, molécula que contém o código da hereditariedade) dos parentes humanos desaparecidos da Terra há 30 mil anos é uma das notícias mais esperadas para este ano. Embalados pelo genoma quase recuperado do mamute dos gelos siberianos, os cientistas voltam-se agora para as ossadas do homem de Neanderthal com vista a reconstituir o genoma deste hominídeo.




No entanto, para Eugénia Cunha, antropóloga da Universidade de Coimbra, as condições de preservação são muito diferentes. "O gelo dá uma maior garantia de preservação do ADN do que o de um fóssil de Neanderthal como o que foi descoberto em 2006 na Croácia, cujo material genético está a ser analisado".

Na realidade, o feito só pôde ser obtido graças a avanços recentes nas técnicas de leitura de ADN, que ao longo dos últimos 15 anos transformaram a decifração de genomas de missão hercúlea e milionária num procedimento quase banal de processamento de dados.

As amostras de ADN do mamute estavam fortemente degradadas, tiradas do pêlo de indivíduos que morreram há cerca de 20 mil anos e foram preservados no gelo. Mas, tomando por base o genoma do elefante africano, um parente próximo, os cientistas vão concluir a tarefa.

Agora, o grande objectivo dos investigadores é sequenciar o genoma do Neanderthal dentro de dois anos.

Para ressuscitar um mamute há uma série de formidáveis obstáculos a ultrapassar que a genética actual ainda não pode resolver. Mas são puramente técnicos e que serão resolvidos mais tarde ou mais cedo. E o que dizer de um homem de Neanderthal? "Não somos apenas genoma. Ainda falta um bom bocado para lá chegar", afirma Eugénia Cunha.

O genoma em estudo do Homem de Neanderthal revelou que na Europa viveram muito poucos indivíduos, o que facilitou a sua extinção.

Ao analisar os restos fósseis procedentes da Roménia, Portugal e República Checa, foram detectadas características tanto do homem de Neanderthal como do homem moderno, o que indica um possível cruzamento entre ambas as espécies depois de uma coexistência por cerca de 100 mil anos.

Este hominídeo, que povoou a Europa entre 170 mil e 30 mil anos poderá ter-se extinguido não subitamente: a sua população terá decrescido paulatinamente, misturando-se com o Homo Sapiens (menos forte, mas com um cérebro mais desenvolvido) cultural e sexualmente. Os últimos neandertais poderão ter vivido na Península Ibérica.

Comparando com o homem moderno, os neandertais eram mais robustos e possuíam feições morfológicas distintas, especialmente no crânio.

Os neandertais eram muito hábeis na fabricação de utensílios para a caça e de ferramentas. Várias pesquisas apontam para que possam ter sido caçadores sofisticados, mostrando que possuíam um total controlo dos materiais que encontravam na natureza e do local em que viviam.

Dos vários utensílios criados destacam-se artefactos elaborados sobre lascas, semelhantes a lâminas regulares e outros com entalhes, laterais e denticulados.

O milhão de bases já sequenciadas permite afirmar que a semelhança com o genoma do homem moderno é de 99,5% (99% com o do chimpanzé).

A descoberta do gene FOXP2 no genoma do homem de Neanderthal sugere que estes seres tinham a faculdade de falar.


Mais fortes do que o Homo Sapiens, os neandertais dominaram a Europa glacial durante cerca de 200 mil anos.

Mário Gil

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Rã voadora identificada no Vietname



Uma nova espécie de rãs voadoras que pairam e saltam no ar foi descoberta perto da cidade Ho Chi Minh (antiga Saigão), a maior cidade do Vietname.

Jodi Rowley, uma bióloga australiana, e colegas vietnamitas, analisaram duas áreas florestais a menos de 90 quilómetros da cidade de sete milhões de habitantes. Estas florestas são atravessadas todos os dias por agricultores e por búfalos-asiáticos.

“E… lá, num tronco, ao lado de um caminho, estava uma rã enorme e verde”, disse Jodi Rowley, especialista em anfíbios, que trabalha no Museu Australiano. “Para descobrir uma nova espécie de rã, normalmente tenho de escalar uma montanha, subir uma queda de água e atravessar uma floresta tropical densa e espinhosa”, disse, citada pela agência Reuters.

Este animal de dez centímetros, verde e com a barriga branca, manteve-se escondido dos cientistas porque andava a voar entre o topo das árvores com 20 metros de altura. A rã só vem ao solo para se reproduzir nas poças de água.

A espécie, Rhacophorus helenae, tinha sido encontrada em 2009, mas só agora é que se compreendeu que era um novo anfíbio. O seu habitat está ameaçado. As duas áreas de floresta estudadas estão rodeadas por terrenos agrícolas e campos de arroz. “Não fazemos ideia do que ainda existe nesta parte do mundo”, disse a bióloga.

O nome comum da rã ficou, em inglês, Helen’s Tree Frog, qualquer coisa como a rã-arborícola-de-helena e é uma espécie de agradecimento à mãe da bióloga, chamada Helen, que tem cancro nos ovários. “Pensei que seria a altura apropriada para lhe mostrar a gratidão que tenho por tudo o que fez por mim”, contou Jodi Rowley.

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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Dragões pré-históricos


As libélulas de Portugal estão por explorar
Surgiram na Terra há cerca de 300 milhões de anos. Assistiram ao reinado dos dinossauros e à sua enigmática extinção, mas algumas espécies estão hoje ameaçadas. Falamos dos mais antigos insectos voadores, as libélulas. O biólogo Jorge Nunes revela as curiosidades destas relíquias do passado, quase desconhecidas em Portugal.

Em matéria de records, as libélulas não estão unicamente entre os insectos voadores mais antigos, também conquistaram o título dos maiores insectos voadores de todos os tempos. Esse feito notável foi alcançado pela espécie Meganeura monyi, que viveu no período Carbonífero (há aproximadamente 300 milhões de anos) e atingiu setenta e cinco centímetros de envergadura (tamanho equivalente às asas distendidas de um pombo-torcaz em voo). Terão sido estas dimensões descomunais, que rivalizam com as dos filmes de ficção científica, que levaram a que fossem apelidadas de “dragões voadores”.

O gigantismo de alguns insectos pré-históricos, entre os quais as libélulas, ainda hoje continua a apaixonar muitos paleo-entomólogos, que não encontraram uma justificação totalmente satisfatória para o crescimento desmesurado desses artrópodes. Um dos problemas, que necessita de explicação cabal e que continua a alimentar controvérsias no seio da comunidade científica, é saber como o modesto sistema respiratório traqueal conseguia abastecer de oxigénio todas as células dos seus corpos gigantes.

Como a atmosfera terrestre possui actualmente menor quantidade de oxigénio, não corremos o risco de viver a experiência arrepiante de ser sobrevoados por um desses ruidosos monstros aéreos. Logo, não é de estranhar que a maior libélula actual, a Megaloprepus coerulatus, nativa da América Central, não vá além de uns modestos doze centímetros de comprimento e dezanove de envergadura. Longe das dimensões das suas congéneres extintas, destaca-se, todavia, das mais pequenas do mundo, incluídas no género Agriocnemis, e que atingem no máximo dezoito milímetros de envergadura. A Anax imperator, com onze centímetros de envergadura, é uma das maiores que ocorrem em Portugal, e os exemplares do género Coenagrion, com os seus três a quatro centímetros, contam-se entre as mais diminutas.

Acrobatas aéreos
A maior parte da vida das libélulas adultas desenrola-se no ar. Apesar de a sua morfologia apresentar numerosas características pré-históricas, são os insectos com o aparelho de voo mais perfeito. As suas asas são atravessadas por numerosas nervuras longitudinais que formam uma rede com as abundantes nervuras transversais, o que lhes permite suportar grandes pressões longitudinais sem se dobrarem. Como a enervação alar difere consoante as espécies, esta é uma característica morfológica extremamente útil na sua identificação.

Em voo, podem atingir os 30 quilómetros por hora, e tanto se deixam levar pelo vento sem bater as asas como efectuam manobras aéreas extremamente complicadas. Algumas espécies conseguem mesmo voar para trás. Esta habilidade deve-se ao facto de os dois pares de asas se movimentarem independentemente um do outro e de cada asa poder mover-se isoladamente. Por tudo isto, as libélulas têm servido de inspiração e modelo a muitos dos mecanismos de voo utilizados nas mais recentes invenções relacionadas com as extraordinárias máquinas voadoras de alta tecnologia.

As libélulas adultas ostentam colorações admiráveis, que vão desde o vermelho ao verde, passando pelo amarelo, o castanho ou o azul-metalizado. No entanto, as suas cores brilhantes desaparecem depois da morte. Por isso, não são muito procuradas pelos coleccionadores de insectos, contrariamente ao que sucede com as borboletas, que mantêm as suas belas tonalidades mesmo depois de mortas.

Porém, e ao contrário do que poderíamos pensar, as cores das libélulas não servem apenas para nos deleitarmos com a sua beleza. Desempenham múltiplas funções na sua sobrevivência, incluindo a detecção e a identificação dos parceiros sexuais, a camuflagem do corpo em função do meio e a manutenção da temperatura corporal através da filtragem dos raios ultravioletas da luz solar.

Temíveis dentro e fora de água
As libélulas são animais com um ciclo biológico complexo, tendo os adultos uma vida terrestre e capacidade de voo e as larvas uma longa existência aquática. As semelhanças entre ambas são muito subtis, fazendo lembrar as histórias infantis da bela e do monstro ou do patinho feio.

As diferenças entre as espécies fósseis já extintas e as actuais, se exceptuarmos o tamanho descomunal das primeiras, são muito poucas. Isto mesmo pode confirmar-se através da análise do registo fóssil e parece indicar uma excelente adaptabilidade das libélulas, que se mantiveram mais ou menos inalteradas ao longo de muitos milhões de anos.

Como acontecia no passado remoto, continuam a ser predadoras temíveis. Caçam essencialmente durante o voo, retendo as presas com as patas colocadas em forma de cesto. Possuem um aparelho bucal triturador onde se destaca um par de possantes mandíbulas que lhes permitem agarrar e morder fortemente as presas, especialmente insectos voadores de que se alimentam. Os espécimes de maiores dimensões podem mesmo infligir dolorosas mordeduras aos humanos caso sejam agarrados com as mãos desprotegidas.

Não se pense, contudo, que o aspecto agressivo e os instintos predatórios são exclusivos dos adultos, pois as larvas aquáticas são caçadoras ainda mais terríveis. São carnívoras oportunistas, apresentando uma dieta alimentar muito variada, que inclui quase tudo o que se mexa nas suas imediações, desde vermes a caracóis, girinos, outros insectos, peixes e até pequenos anfíbios.

A estratégia de caça que usam é muito peculiar. Começam por se camuflar no ambiente e ficam totalmente imóveis aguardando a aproximação das vítimas. Depois, avançam suavemente até que aquelas fiquem ao seu alcance. Quando tal acontece, projectam de forma repentina, em apenas 25 milionésimos de segundo, a sua “máscara” (um lábio modificado semelhante a uma pinça articulada com um comprimento idêntico ao do seu próprio corpo) provida de ganchos terminais que agarram firmemente a presa. O sucesso desta técnica, que depende de uma correcta determinação da distância a que se encontra a “refeição”, resulta de possuírem uma apuradíssima visão estereoscópica e uma espantosa rapidez de movimentos.

Nos locais de acasalamento e postura, especialmente durante a Primavera e o início do Verão, os machos caçam intensamente para recuperar o enorme dispêndio energético com as paradas nupciais e o cortejamento das fêmeas. Perscrutam incessantemente os seus territórios, constituindo verdadeiras ameaças para tudo o que se movimente sobre o espelho de água. Entretanto, debaixo de água, no leito dos lagos e ribeiros, as larvas emboscadas estão sempre atentas à aproximação de uma incauta vítima.

Devido ao elevado número de insectos que capturam ao longo das suas vidas, muitos considerados pragas agrícolas, as libélulas prestam um importante serviço ao equilíbrio dos ecossistemas e aos agricultores. O seu apetite é de tal forma insaciável que em situações especiais podem recorrer ao canibalismo, alimentando-se mesmo de indivíduos da própria espécie. Esta tem sido uma prática observada sobretudo em algumas fêmeas que demonstram um apetite desmesurado devido ao facto de a postura dos ovos ser uma tarefa muito fatigante.

Mensageiras do Diabo
Desde tempos remotos que as libélulas foram vistas como animais pouco desejáveis e conotadas com origens diabólicas. Os missionários cristãos consideravam-nas seres malfeitores, o que levou a apelidá-las de “cavalinhos-do-diabo”, designação ainda hoje usada pelos vizinhos espanhóis, ou de “dragões voadores”, como lhe continuam a chamar os ingleses.

Em Portugal, consoante a região, receberam diferentes nomes populares: “tira-olhos”, porventura devido ao seu aspecto ameaçador; “helicópteros”, certamente aludindo ao movimento rápido e sonoro das suas asas e à sua capacidade de permanecerem paradas no ar; “lavadeiras”, “corta-águas” e “bate-cus”, devido ao modo como as fêmeas depositam os ovos, mergulhando as caudas repetidamente na água; “gaiteiros”, pela suposta semelhança com as gaitas-de-foles; e “libelinhas” e “donzelinhas”, possivelmente devido à elegância e fragilidade das espécies mais pequenas.

Todas as libélulas estão incluídas na ordem dos Odonatos (palavra de origem grega que significa “dentes” e que terá sido usada devido às fortes mandíbulas destes insectos). Quanto ao termo “libélula”, ainda hoje está envolto em polémica. Poderá ter tido duas origens etimológicas distintas: do latim libellus, que significa “pequeno livro”, aludindo ao facto de as asas das pequenas libélulas se manterem fechadas como as páginas de um livro quando estão pousadas (pertencem à subordem dos zigópteros); ou libella, que significa “na horizontal”, lembrando a posição em que as libélulas de maior tamanho colocam as suas asas quando estão em repouso (correspondem à subordem dos anisópteros).

Os zigópteros são geralmente de pequeno tamanho e de aspecto inconfundível. A sua cabeça, em forma de haltere, está colocada transversalmente ao corpo e o seu abdómen é cilíndrico e fino. Outra característica que permite identificá-los é o facto de as quatro asas serem sensivelmente iguais e ficarem juntas, na vertical, quando os indivíduos estão em repouso.

Os anisópteros, também designados “grandes libélulas”, apresentam as asas posteriores mais largas na base do que as anteriores e mantêm-nas abertas quando estão pousadas. Os enormes olhos tocam-se geralmente no cimo da cabeça, que é grande e quase hemisférica, ainda que em algumas espécies deste grupo surjam nitidamente separados. A forma do abdómen é muito variável, apresentando um aspecto longo e cilíndrico, sendo, todavia, mais largo do que o dos zigópteros.

A cabeça das libélulas é ocupada maioritariamente pelos olhos compostos, que compreen­dem dez a trinta mil omatídeos (unidades fotorreceptoras dispostas hexagonalmente, cada uma ligada a um nervo óptico autónomo). Por esta razão, têm um grande campo visual e percepcionam o mundo que as rodeia através de imagens em mosaico. Apresentam uma visão excepcional, tendo sido referidos casos em que algumas libélulas conseguiram reconhecer os seus congéneres a uma distância superior a quarenta metros.

Nos olhos, as facetas superiores servem para a visão distante, enquanto as inferiores estão destinadas a uma visão mais próxima. O cimo da cabeça apresenta três pequenos ocelos (órgãos oculares simples), para avaliar apenas a intensidade luminosa, não tendo intervenção directa na formação da imagem visual.

As antenas são curtas e inserem-se geralmente um pouco atrás dos ocelos. Desempenham um importante papel sensitivo, pois ajudam o animal a determinar a velocidade de voo, de acordo com a deformação provocada pela resistência que oferecem à passagem do ar.

Rituais de acasalamento
As lutas entre machos pelo domínio do território e pelas fêmeas são relativamente comuns. No entanto, algumas espécies exibem combates rituais que permitem apurar o vencedor e o vencido sem necessidade de qualquer contacto físico.

Embora as situações de conflito entre machos originem curiosos repertórios comportamentais, são, contudo, as paradas nupciais que mais têm atraído a atenção dos cientistas. Durante o acasalamento, os machos seguram com as pinças caudais as cabeças das suas companheiras, realizando estranhos bailados com elas suspensas e criando curiosas estruturas voadoras que parecem querer desafiar todas as regras da aerodinâmica.

A cópula, que consiste no acto de transferência de esperma do macho para a fêmea, também ocorre numa estranha posição em que os parceiros formam com os seus abdómenes um “coração copulatório”, assim designado porque faz lembrar um coração ligeiramente assimétrico.

A deposição dos ovos ocorre de dois modos diferentes, consoante as espécies: um, mais primitivo, em que os ovos são injectados pela fêmea no interior de algumas plantas aquáticas; e outro, mais evoluído, em que são depositados na água ou bem acomodados sobre substratos no fundo de charcos e ribeiros.

A eclosão dos ovos, com o nascimento das larvas aquáticas, pode demorar desde uma semana até vários meses, variando este período também de espécie para espécie.

As larvas de todas as libélulas, tirando apenas algumas tropicais, crescem obrigatoriamente em ambiente aquático. Para o seu desenvolvimento decorrer com normalidade, apresentam necessidades específicas no que diz respeito à qualidade da água (nomeadamente no que se refere ao pH, à concentração de sais minerais e ao teor de oxigénio dissolvido) e à disponibilidade de plantas aquáticas. As fêmeas precisam de ter todos estes factores ambientais em consideração aquando da escolha do local de postura, de modo a garantirem as melhores condições para as suas proles.

Consoante os requisitos ecológicos específicos, as espécies presentes numa determinada zona húmida serão distintas. Algumas optarão por ambientes lóticos (de águas rápidas e oxigenadas) outras por lênticos (de águas calmas ou paradas); umas escolherão locais com esparsas plantas aquáticas, enquanto outras procurarão fartas coberturas vegetais.

Durante o seu processo de desenvolvimento e crescimento, as libélulas passam por até vinte estádios larvares, correspondentes a igual número de mudas do esqueleto externo. Nas espécies de maiores dimensões, as larvas podem atingir um comprimento de cinco a seis centímetros. Houve quem afirmasse que, se as larvas de libélulas tivessem dimensões semelhantes às de um pequeno cão, seriam, com toda a certeza, os animais mais terríveis de água doce. Atendendo à eficácia do seu sistema de caça e aos seus instintos predatórios, caso pudessem atingir tais dimensões seria decerto muito arriscado ir a banhos nas praias fluviais.

Algumas espécies podem viver no estado larvar durante mais de seis anos, sendo a duração dessa vida aquática fortemente condicionada por vários factores, como a abundância de alimento e a temperatura ambiente, entre outros.

Quando se aproxima o grande momento da metamorfose, da transformação do monstro em bela, as larvas deixam a água e sobem pela vegetação. Penduradas nas plantas, aguardam, pacientemente, as modificações necessárias à libertação dos adultos. Ao emergirem, deixam atrás de si os invólucros quitinosos, conhecidos por “exúvias”, onde se abrigaram no decurso das suas vidas aquáticas.

Os exoesqueletos, aparentemente insignificantes, são, no entanto, um precioso manancial de informações para os cientistas. A partir deles, podem identificar-se as espécies, conhecer a sua distribuição geográfica e requisitos ecológicos, saber a dinâmica populacional e até retirar amostras de ADN que poderão permitir ver, entre outras coisas, a variabilidade genética das populações.

Relíquias a preservar
Conhecem-se cerca de 5680 espécies de libélulas em todo o mundo. Destas, vivem 138 na Europa, das quais 65 ocorrem em território português (64 no continente, seis na Madeira e quatro nos Açores, num total de 41 anisópteros e 24 zigópteros). Apesar de a primeira referência às libélulas de Portugal datar de 1797, publicada por Dominicus Vandelli no primeiro volume das Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, e de o nosso país apresentar um número considerável de espécies, sabia-se muito pouco sobre estes admiráveis insectos até ao início do século XXI.

Os esporádicos trabalhos, realizados essencialmente nas duas últimas décadas, por naturalistas estrangeiros (que aproveitavam os períodos de férias para explorar algumas zonas turísticas) e por investigadores nacionais (que se dedicaram a regiões muito circunscritas, como as áreas protegidas), permitiam apenas uma imagem muito desfocada da realidade portuguesa. Este desconhecimento da biologia e da distribuição geográfica das espécies impediu que tivessem sido implementadas medidas de monitorização e conservação, tanto dos habitats como de algumas espécies consideradas internacionalmente ameaçadas.

Ainda em 2005, Sónia Ferreira, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto, denunciava esta preocupante situação: “A fauna de Odonata de Portugal é uma das menos estudadas da Europa, sendo este facto surpreendente se tivermos em consideração que o país de situa na Península Ibérica, um ‘hot spot’ entre a Fauna Paleártica ocidental e Paleotropical.” Felizmente, o cenário parece estar a inverter-se.

O “estudo deste grupo conheceu um avanço significativo graças à publicação de uma bibliografia anotada e de um catálogo crítico de espécies”, refere a investigadora, que organizou, em Julho de 2010, o primeiro Congresso Europeu de Odonatologia. Esse simpósio foi o primeiro passo para a criação de uma rede europeia que visa recolher e partilhar informação sobre esta temática.

Apesar das lacunas que se verificam em relação ao conhecimento científico da odonatofauna lusitana, “as perspectivas relativamente ao desenvolvimento do conhecimento e da conservação dos odonatos em Portugal são francamente animadoras”, admite a investigadora do CIBIO. Além disso, o “nosso país vai ter uma participação activa na elaboração do Atlas Europeu de Odonata”, acrescenta.

As libélulas começam, finalmente, a ter a atenção da comunidade científica. E os conhecimentos nunca serão demais, se considerarmos que em Portugal ocorrem pelo menos quatro espécies (Macromia splendens, Oxygastra curtisii, Coenagrion mercuriale e Gomphus graslinii) consideradas ameaçadas e que constam da Lista Vermelha das Libélulas Europeias, estando abrangidas pela Convenção de Berna e pela Directiva Habitat.

A intensificação dos trabalhos de campo com um maior esforço de amostragem poderá ainda ajudar a colmatar lacunas ancestrais no inventário das espécies. Isso mesmo pôde constatar Sónia Ferreira, quando realizou prospecções no Parque Natural de Montesinho e deu de caras com a libelinha Lestes sponsa, uma nova espécie para a lista (cada vez mais credível e em actualização permanente) das libélulas de Portugal.

Biomarcadores Optimal
Estes insectos são óptimos bioindicadores da qualidade dos habitats. “Um local onde exista apenas uma ou duas espécies de libélulas não é, com toda a certeza, um habitat bem preservado”, diz Sónia Ferreira. Estas palavras ganham ainda maior relevância se considerarmos que se tem verificado uma importante regressão das populações de libélulas ao longo dos últimos anos, em quase todos os recantos do mundo. Aqui mesmo, no velho continente, segundo a Lista Vermelha das Libélulas Europeias, apenas metade das espécies tem populações estáveis e cerca de um quarto está em declínio. Embora se conheçam numerosos inimigos naturais das libélulas, uma vez que estas fazem parte da dieta alimentar de inúmeros animais, a culpa não parece ser imputável aos seus predadores, mas ao próprio homem. A maioria encontra-se ameaçada, dado que são muito sensíveis às modificações que ocorrem nos seus habitats.

Os principais factores de ameaça têm sido a deterioração da qualidade da água (meio essencial ao desenvolvimento larvar), devido à poluição agrícola, industrial e urbana; as alterações nos cursos de água, com construção de barragens e de canais de irrigação, artificialização das margens e entubamento dos leitos (muitas das espécies em perigo estão associadas a ambientes de água corrente); a diminuição dos lençóis freáticos superficiais, devido à drenagem dos pântanos e lagoas; a utilização de pesticidas; o abandono das práticas agrícolas tradicionais e a sobrecarga de fertilizantes, que contribuem para a eutrofização dos ambientes aquáticos; e a apanha de exemplares para coleccionismo (embora, sobre esta prática, não existam dados disponíveis para Portugal).

Como principais medidas de conservação, podem apontar-se a diminuição dos factores de risco já referidos, que passam pela recuperação e conservação dos habitats, evitando a poluição das águas e a utilização de pesticidas em zonas consideradas críticas (especialmente, no que se refere a espécies com uma limitada distribuição geográfica), e pela protecção da vegetação ribeirinha, quer aquática quer das margens, de modo a manter a estabilidade das cadeias alimentares em que estas espécies se inserem.

Qualquer medida de conservação, porém, só poderá ser implementada com sucesso se for antecedida por um estudo exaustivo da biologia e distribuição das espécies e dos seus habitats. Sem conhecer as necessidades de cada uma das espécies e dos seus diferentes estádios de vida, não será possível desenhar e desenvolver políticas de preservação eficazes, que permitam manter viáveis as populações.

Embora algumas espécies protegidas de libélulas constem da Directiva Europeia dos Habitats, estes insectos continuam a ser esquecidos em muitos estudos de impacto ambiental. E, “às vezes, bastariam pequenas medidas mitigadoras, sem grandes custos económicos, para fazer toda a diferença na sua protecção”, lembra Sónia Ferreira.

Face à inexistência de um Livro Vermelho de Invertebrados de Portugal, com explicitação do estatuto de ameaça deste vasto grupo faunístico, a grande dúvida é saber se a incrível resistência que permitiu a estes vetustos insectos sobreviverem na Terra desde tempos longínquos continuará a protegê-los de um destino que se afigura pouco risonho.

JN
SUPER 155 - Março 2011


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