sábado, 26 de setembro de 2015

Camaleões algarvios

Na Mata de Monte Gordo e em pequenos núcleos isolados que se espalham principalmente pelo sotavento algarvio sobrevivem as derradeiras populações portuguesas de camaleão-comum. O biólogo Jorge Nunes desvenda os mistérios deste curioso réptil com aspecto de monstro pré-histórico que partilha o seu fragmentado habitat com os muitos veraneantes que elegem o Algarve como destino para fruição dos prazeres balneares.

Durante as férias balneares, que para muitos começam logo nas mini-férias da Páscoa, os turistas tomam de assalto o litoral algarvio. Invadem as praias à cata do bronze e dos refrescantes banhos de mar, abrigam-se na sombra de perigosas arribas e falésias pondo em risco a sua própria segurança, acamam-se nas dunas, que tomam como suas e das quais fazem estacionamentos e acampamentos clandestinos, e, na ânsia da fruição dos prazeres do estio, esquecem-se de olhar à sua volta e de apreciar a Natureza que os rodeia. Com tanta insensibilidade ambiental, não é de admirar que a biodiversidade esteja a perder-se de forma acelerada e irreversível, especialmente em terras algarvias.

Se não é fácil ser-se turista num Algarve sobrelotado de gente, imagine-se o que sentirão os bichos que lá habitam! Deve ser com desmedido temor que encaram a estranha multidão fervilhante que regressa sazonalmente para lhes tirar o sossego, lhes devassar o espaço vital e lhes alterar os hábitos quotidianos ou, pura e simplesmente, lhes destruir os habitats, pondo em perigo a sua sobrevivência.

Dentre todos os animais algarvios que são vítimas da incúria dos veraneantes, merece destaque um estranho réptil que, infelizmente, muitos turistas apanham, mantêm cativo como mascote e chegam ao cúmulo de levar consigo quando regressam às suas casas como souvenir das férias algarvias: o camaleão, um animal enigmático e repleto de curiosidades, que interessa conhecer e preservar.

Esta família de répteis (Chamaeleonidae) é originária da África Oriental e pensa-se que terá surgido há cerca de 60 milhões de anos. Existem no mundo mais de 150 espécies de camaleões (só a ilha de Madagáscar alberga 40 por cento do número total de espécies), mas apenas uma, o camaleão-comum (Chamaeleo chamaeleo), ocorre em Portugal. Segundo o Guia de Anfíbios e Répteis de Portugal, a espécie encontra-se distribuída pelo Norte de África, algumas regiões do Sahara, Médio Oriente, Península Arábica e algumas áreas da Península Ibérica, Sicília, Grécia e ilhas do Mar Egeu.

A sua origem em terras lusas continua a ser motivo de controvérsia, embora os dados disponíveis apontem para que tenha sido introduzido nos pinhais entre Monte Gordo e Vila Real de Santo António, por volta de 1920. Estudos recentes, baseados na análise de ARN mitocondrial, parecem indicar que os camaleões algarvios foram introduzidos a partir de populações da costa atlântica de Marrocos, provavelmente de Essaouira, dado que existe uma enorme proximidade genética entre ambas as populações, que estão separadas apenas por cerca de 650 quilómetros de oceano.

Embora vários autores tenham defendido que os camaleões algarvios poderiam ter resultado de uma colonização natural, ocorrida no Plio-Pleistocénio (há 5,2 a 0,7 milhões de anos), a reduzida diferenciação genética verificada entre as populações de ambos os lados do Atlântico não abona a favor dessa teoria. Assim, na actualidade, os investigadores defendem uma introdução que terá acontecido nos primórdios do século XX, embora não excluam a hipótese de ter começado no século XVII, uma vez que desde essa altura foram mantidos contactos comerciais regulares dos portugueses com o Norte de África, em particular com o porto mercantil de Essaouira.

O camaleão-comum é um réptil com aspecto de monstro pré-histórico, misterioso e repleto de curiosidades. Raramente atinge mais de 30 centímetros de comprimento, apresenta o corpo revestido por escamas granulares, e da cabeça sobressaem cristas ósseas que lhe conferem um aspecto invulgar e o tornam inconfundível. É um animal de hábitos diurnos, arborícola, que se passeia, de forma lenta e hesitante, pelos ramos das árvores. Agarra-se firmemente com os seus pés pentadáctilos (dois dedos direccionados para um lado e três para o outro, unidos em dois grupos oponíveis que formam uma espécie de tenaz) terminados em unhas pontiagudas e auxilia-se com a sua cauda preênsil, que ajuda a segurar-se aos ramos. Os olhos, situados em elevações cónicas inseridas nas órbitas, podem mover-se de forma independente e permitem uma visão es­te­reoscópica, que se revela de grande utilidade na localização das presas (uma vez que as podem seguir com os olhos, mesmo quando o corpo permanece completamente imóvel).

Quando são importunados e se sentem ameaçados, tornam a sua cor mais escura, incham o corpo para parecerem maiores, abrem a boca e sopram com ar ameaçador. No entanto, este comportamento de intimidação não passa de fanfarronice, pois na verdade são animais totalmente inofensivos que (para seu azar) se deixam apanhar com facilidade.

O mais fascinante deste estranho animal é a sua assombrosa capacidade para mudar de cor. A sua pele apresenta uma coloração variável (controlada pela dilatação e contracção de células pigmentadas capazes de reflectir cores diferentes, denominadas “cromatóforos”, “guanóforos” e “melanóforos” e situadas em distintas camadas da derme), que pode ser modificada com certa rapidez e permite ao animal confundir-se com o seu meio.

Sabe-se hoje que afinal os camaleões não mudam de cor apenas para se camuflarem (embora sejam autênticos mestres nessa arte), mas igualmente para comunicarem com os seus congéneres e assegurarem a regulação da temperatura corporal (termorregulação). No que respeita à comunicação, cada espécie possui cores e padrões específicos para evidenciar domínio, submissão, combate, ameaça, gravidez, etc. Sendo animais praticamente surdos, estes sinais visuais constituem uma forma muito eficaz de comunicação, essencialmente, entre indivíduos da mesma espécie.

Quanto à termorregulação, dado que são animais de sangue frio (poiquilotérmicos), faz-se recorrendo a cores mais claras (que reflectem os raios solares, impedindo um sobreaquecimento) e a cores mais escuras (que permitem uma maior absorção de raios solares com o concomitante aumento rápido da temperatura corporal).

Mas o rol de curiosidades não se fica por aqui. Estes comedores de insectos voadores (moscas, borboletas e gafanhotos, entre outros) são verdadeiros predadores de emboscada, sendo digna de referência a forma repentina como propulsionam a língua para caçar as suas presas. O segredo do sucesso dos seus disparos certeiros reside no factor surpresa, dado que usam a camuflagem para se aproximar dos insectos e surpreendem-nos com a sua língua protráctil (que se pode alongar para a frente), que é projectada a velocidades estonteantes. O facto de ser igualmente musculosa, larga e pegajosa ajuda a prender o alimento e a trazê-lo até à boca.

Camuflagem, paciência e ataques-surpresa são os trunfos destes ninjas do mundo animal, que se confundem de tal modo com o meio envolvente que se tornam quase invisíveis aos olhos das suas presas e exigem uma excepcional acuidade visual dos seus principais predadores (cobra-rateira, ratazana, peneireiro-vulgar e tartaranhão-caçador, entre outros).

De acordo com o Guia de Anfíbios e Répteis de Portugal, a área de distribuição do camaleão-comum no nosso país encontra-se circunscrita ao Algarve, mais precisamente entre Vila Real de Santo António e Armação de Pêra. Embora a sua ocorrência esteja também confirmada na zona de Lagos e Portimão e já tenham sido encontrados nos mais diversos lugares do Algarve, admite-se que sejam populações introduzidas recentemente e que tiveram origem em indivíduos trazidos de outras regiões algarvias.

Segundo Octávio Paulo, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, “em muitos destes locais as observações resultam de transporte por humanos e não correspondem à genuína área de distribuição da espécie”. O mesmo acontece com capturas esporádicas que já aconteceram em outros locais mais setentrionais do país. Até porque, segundo diz, “o Algarve é a única zona que nas actuais condições climáticas tem potencialidades para a permanência da espécie no país”. Assim, “é provável que as regiões do Sul de Portugal e Espanha constituam os limites climáticos naturais da distribuição norte da espécie”, sendo o Algarve a única zona portuguesa que oferece as condições climatéricas e ecológicas necessárias para a sobrevivência do camaleão-comum.

Sendo uma espécie arborícola, necessita de arbustos, como a retama (um tipo de giesta), podendo também encontrar-se sobre o pinheiro-bravo e sobre as espinhosas figueiras-de-pita, também conhecidas por “piteiras”.

Embora os núcleos populacionais deste réptil vivam essencialmente nas franjas litorais, a colonização natural e a colonização induzida (por transporte humano) têm permitido o estabelecimento de novas populações em várias localidades algarvias, desde a Costa Vicentina até Vila Real de Santo António, incluindo a zona interior, no Barrocal. Na dispersão natural, pensa-se que os cursos de água, com as suas margens arbustivas, poderão ter funcionado como corredores para colonização do interior. É preciso não esquecer que estamos a falar de um réptil tipicamente arborícola, que apenas desce ao chão para mudar de árvore ou arbusto ou para se enterrar no solo, durante o perío­do de letargia que ocorre aproximadamente entre Dezembro e Março.

Quanto à colonização por transporte humano, poderá ter resultado de libertações intencionais ou acidentais, sendo esta última a situação mais provável. Isto acontece porque alguns turistas sem escrúpulos e sem sensibilidade ecológica apanham exemplares que mantêm em cativeiro até acabarem por morrer (como facilmente se percebe, um animal furtado à Natureza dificilmente poderá subsistir como animal de estimação!) ou conseguirem escapar para o meio natural. Nestes casos, embora os indivíduos possam sobreviver, caso encontrem as condições ecológicas necessárias, dificilmente constituirão novas populações, devido ao isolamento geográfico.

Infelizmente, muitas das capturas perpetradas por turistas ocorrem durante os meses de Verão, sobretudo em Agosto e Setembro, altura em que muitas das fêmeas estão grávidas. Assim, é fácil imaginar o que essas práticas provocam na dinâmica populacional, dado que, na maioria dos casos, os exemplares acabarão por morrer, mesmo quando regressam ao meio natural longe dos seus habitats. Mas, mesmo que venham a fundar uma nova população demograficamente independente, “o mais provável é que estas populações, devido ao reduzido número de efectivos, acabem por desaparecer”, vaticina Octávio Paulo.

O investigador, que conhece como ninguém estes curiosos animais de sangue frio, dado que coordenou inúmeros trabalhos de campo sobre a biologia, distribuição e conservação do camaleão no Algarve, sustenta com argúcia que esta situação, porque permite a observação de alguns exemplares de camaleão em zonas muito distantes entre si, permite dar a falsa ideia de uma extensa e contínua distribuição de camaleões por todo o litoral e barrocal algarvio e, consequentemente, pela ausência de qualquer risco para a presença da espécie no país, o que está muito longe de corresponder à realidade dos dados recolhidos pela comunidade científica.

A análise da dinâmica populacional das populações algarvias permitiu descobrir que as populações sofrem uma mortalidade considerável. A maior parte dos indivíduos morre até ao fim do primeiro ano de vida e dificilmente atinge os dois anos de idade. Assim, não lhes resta outra alternativa que não seja crescer depressa: nascem em Agosto e ao fim de um ano já atingiram a maturidade sexual e estão prontos para se reproduzir e transmitir o seu legado genético às gerações vindouras. Viver depressa porque se vai morrer cedo parece ser o lema dos camaleões algarvios. Octávio Paulo acredita que essa poderá ser mesmo uma estratégia de sobrevivência: “Como a pressão sobre a espécie é considerável, arranjou uma estratégia para se conseguir manter.”

Os estudos iniciados em 1989 e realizados ao longo dos anos permitiram concluir que os núcleos populacionais no interior do Algarve e dispersos pelo litoral algarvio são formados, essencialmente, por populações com baixa densidade e pequenos efectivos. Perante essa constatação, afirma Octávio Paulo que, “embora alguns possam persistir à escala do tempo ecológico, apresentam uma elevada taxa de colonização-extinção, sendo por isso mesmo muito vulneráveis, não podendo neles assentar uma estratégia de conservação da espécie”.

Mesmo em lugares onde o réptil ocorre em maior número e onde parece formar populações persistentes, tem-se vindo a assistir a uma preocupante diminuição dos efectivos populacionais em resultado da destruição e fragmentação progressiva dos habitats, provocada pela crescente urbanização, pressão turística e ocupação humana.

As zonas consideradas como habitat preferencial para a espécie situam-se principalmente na região de Armação de Pêra, entre Quarteira e Faro, entre Olhão e Tavira (sobretudo nas ilhas barreira do Parque Natural da Ria Formosa), e entre Cabanas (Tavira) e Vila Real de Santo António. Nesta última área costeira, localiza-se um dos lugares mais importantes no que respeita à abundância e preservação dos camaleões em Portugal: a Mata de Monte Gordo. Esta zona oferece as condições ideais para a espécie (uma apropriada dimensão geo­gráfica, diversidade de habitats e um digno efectivo populacional), o que permite pensar numa estratégia efectiva de conservação da espécie de camaleão no nosso país. “A Mata é a grande área remanescente para a conservação eficaz dos camaleões, pois a maioria das restantes zonas de bons habitats foi ou está a ser retalhada ou destruída, ou existem perspectivas de num futuro próximo isso vir a acontecer”, afirma Octávio Paulo.

Aquele espaço verde é um verdadeiro oásis que, embora esteja ao serviço do lazer das populações locais e dos visitantes, com os seus parques de merendas e trilhos pedestres, constitui igualmente uma importante reserva de camaleões. Os meses de Julho, Agosto e Setembro, que correspondem ao auge da época balnear e concomitantemente a uma maior perturbação provocada pelos veraneantes, são, no entanto, considerados meses críticos para a coexistência entre humanos e répteis. Afinal, é quando se inicia a azáfama reprodutora (havendo por isso um aumento da actividade dos indivíduos, das suas deslocações e exposição) e ocorrem os nascimentos das posturas efectuadas no ano anterior (nascem cerca de oito a trinta juvenis por cada postura). Estes acontecimentos, de enorme importância no ciclo de vida dos camaleões, tornam este espaço verde e o sistema dunar adjacente muito sensíveis à presença humana.

De igual modo, o mês de Outubro é considerado crítico. Esse é o período em que as fêmeas grávidas (que apresentam habitualmente manchas amarelas características) se deslocam e realizam as posturas de ovos (que são enterradas no solo arenoso), tornando-as extremamente susceptíveis a perturbações no habitat. Dado que percorrem grandes distâncias para chegarem aos locais de postura, que são escolhidos criteriosamente (por vezes, escavam vários buracos antes de encontrarem o local óptimo para porem os ovos), acredita-se que o grande esforço reprodutor possa ser uma das principais causas da elevada mortalidade das fêmeas.

Dada a raridade crescente da espécie, todos os cuidados são poucos. É preciso não esquecer que dessas posturas resultará a nova geração que dará continuidade ao legado hereditário de um estranho réptil que, embora não seja nativo de terras lusas, os algarvios se orgulham de acoitar e estimam como se eles tivesse vivido no Algarve desde sempre.

J.N.
SUPER 149 - Setembro 2010
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